30/05/2006


Abriu um vazio no chão da escada.
Redondo, profundo, estreito como se fosse a garganta do Atlas. Sem fim.
Rodolfo se estica cansado


- “Rodolfoooooo! Rodolfo… vamos à rua! Vá – anda!
Silencioso Rodolfo aparece cabisbaixo – de certeza que fez alguma asneira – lentamente se coloca a jeito, ao meu jeito em frente à porta.
- Pesa-te a consciência? Vá, não disfarces conta logo o que fizeste..
Luísa levou meu Mozroek. Fazia-me bem ler agora O Homem na Gaiola.
- Vá não te estiques Rodolfo. A mentira tem perna curta. A vida não tem rascunho. Não podes passar a vida a pensar que desenhas um esboço. Gaita quando vais aprender?
Silêncio. No horizonte de Rodolfo somente o chão – sujo ou limpo sempre chão. Seu corpo se contrai. Em cada gesto um apelo ao perdão. Dança ao som da censura como se o caminho só fosse castigo.
Desesperada resmungo um palavrão
- Não há paciência!. E tu repetes o erro como se fosse esse o acerto … Vá não dizes nada? Ainda por cima fazes censura à fala?!
Abriu um vazio no chão da escada. Redondo, profundo, estreito como se fosse a garganta do Atlas. Sem fim. Rodolfo se estica cansado.
- Vá Rodolfo anda vamos à rua… Prometo que não te coloco a trela…

29/05/2006





Confesso...
- Perdão Padre confesso… que pequei
- Hm, hm
- Ontem fez sol e eu fui a praia. Padre, o sol faz-me tão bem. Quando ele aparece dispo a roupa.
- Hm, hm…
- Faz 2 anos que Gabriel se foi. Noutro dia, na praia fiz top-less e…
- Dez Ave-Marias
- Mas Padre já tive o castigo. Apanhei um escaldão
- Dez Ave-Marias. Te abençoo e segue a vida…
- Mas e o resto?
- Qual resto?
- A confissão. Tantos outros pecados… Sempre na primeira pessoa. Foi assim que Annais escreveu um livro. Conhece o Neruda, Padre? Também ele diz: confesso que vivi..
- Hm, hm.
-Padre?
-….
- Posso confessar sem ter pecado?
- Não! E se continuas com esta chatice …estarás a pecar. Vai! Olha só tantos outros a quererem confessar.
Cleo, o padre daquela igrejinha não sabe que eu sou judia. Esse pecado eu não confessei. Os outros - estão todos escritos aqui nesta vida que não é só minha.
Haverá clemência?

23/05/2006

Não vale a pena ler o que já foi escrito

- Argh! Tão perfumada, tão vermelha esta maçã… Como será que se desfaz este odor quando encontrar o meu fígado?
- Ana que idiotice!
- É tão solitário meu blog Cleo. Nem tu o lês. Será castigo pela minha vaidade?
- Eu vou sempre… Ainda outro dia li
- Deixa estar. Não vale a pena ler o que já foi escrito. Não importa tentar entender o que já foi dito. Nada importa Cleo
- …
- Passado!
- Há que voltar e ler Ana. Reescrever. Reeditar. Enxugar. Fora com os adjectivos Fora com o futuro ou passado. A acção no presente. A história – sempre dos outros, nunca tua, nunca nossa. Trabalha, trabalha o texto amiga e verás que esse talento desabrocha
- Que história?
- Tens tanto material
- A solidão (Gabriel está tão perto. Gabriel se despede quando regressa). Vou contar a história de todas as partidas. Em cada regresso a partida que se faz repetida. Vou contar como aceito enquanto choro mais um adeus…
Tão solitário meu blog Cleo.

20/05/2006


Se Babu - o meu projecto de cão - soubesse meditar não chorava de saudades. Só notaria e ... largaria. Medita Babu!

19/05/2006



Já nao existem herois
que saudades do meu gato olhos cor de mel

Vou ter um harém feito a cor de todos. Rosa, amarelo, vermelho, ciganos, judeus, franciscanos. Pretos, carvão, cor da terra molhada -feliz de ter sido semeada.
Vou dar um beijo a cada um dos meus amantes. Amigos.
A você meu amor o meu pé – sujo de café. Ao arcanjo meu sorriso de fé.
A cada um, um pedaço de mim a fazer a unidade em cada sentir.
Vou ter um harém com cada pedaço do mundo - se Deus me consentir.
Que saudades de Rodolfo meu gato - olhos cor de mel! Sempre Heroi em cada esquina. Em cada passo.


A caminho do sol ela cruzou a lua.
Perdida no olhar dos homens,
no ar se encontrou.
Respirou.
Bye, bye Vera...

- Canaliza! Canaliza todo o teu sentir Vera...
Limpou as lágrimas. Sem resistir abriu um sorriso. Despediu-se. Foi para o espaço, a caminho do sol, a caminho da lua, a caminho. Sem caminho.
Assim reza a história da morte da Vera.
- Vera?
- Sim Vera. Aquela menina que se escondia por trás do muro da Dona Violeta...
- Ah, uma gordinha sorridente?
- Mas que idade tinha Vera quando se foi ou morreu?
Tinha a idade de todos nós, tinha a idade do tempo que um dia foi passado, por vezes presente, nunca imaginado futuro
- Porque Vera se foi?
- Já te disse Vera chorava. Olhava sempre para os homens – sempre tão altos- e esperava...
- Quem te contou essa história tão bizarra?
- Minha avó. Ou foi a neta dela? Não - talvez a Rosinha lá do Bar de Jesus, ah já não sei... mas que interessa? Vera é verdade
- Mas que esperava Vera do alto?
- Não sei. Esperava e a seguir chorava...
- Mas...
- Também me contaram que por vezes sorria, e a risada dela era feita de uma gargalhada sonora. Porque será que Vera a seguir chorava?
- Bem me parecia que aquela miúda não batia bem..
- Lembras-te dela?
- Não sei bem. Do sorriso dela – talvez.
- Ela se foi num balão?
- Não! Vera primeiro sorriu, a seguir em vez de chorar como sempre, inspirou, inspirou, inspirou... e começou a subir. Feito um balão de São João Vera se despediu
-E agora?
- Hm?
- Se é ou não verdade é uma história... onde está o The End?
- Dizes me tú que sabes de tudo afinal que sentido era o sentido de Vera?
- Que interessa isso agora?
- Foste tu que me pediste um The End...
- A caminho do sol ela cruzou a lua. Perdida no olhar dos homens, no ar se encontrou. Respirou. Se olhares para o alto agora tu verás o sorriso dela viajando no espaço. Bye, bye Vera...
- Oh Narina. Oh narina... Vem. Anda dançar!

17/05/2006



falo de um tempo em que não estive senão no tempo de estar

- Quando foi que ele partiu? – pergunta Cleo
- Fazem agora duas primaveras…- respondo sem hesitar na data
- primaveras?
- Sim. Foi na primavera que ele despertou. Eu costumava sofrer do mesmo mal. Um desejo de desejar o que já foi desejado. Mas isto - tantas primaveras antes…
- ?
- Nem sempre a alergia deu o tom das nossas primaveras. Lembro-me das horas passadas a ver a borboleta. Horas a fio, sem fim. O tempo sem tempo…
- Falas do quê?
- De um tempo em que não estive senão no tempo de estar…
- Lá estás de novo a bater mal..
- Por vezes uma tarde inteira a ver quantas vezes a borboleta batia as asas. Noutras eu era a primavera. Era o cheiro de um ar que só desejava. ..
- Regressa Ana!
- Gabriel só teve essa graça faz duas primaveras. Durante um ano viveu em todas estações.
- E agora? Onde está Gabriel?
- Talvez no Inverno…




Se a laranja for ácida,
se a cada gomo as lágrimas te vierem aos olhos,
me diga Cleo,
se é esse o


PALADAR DA LOUCURA



Prólogo Você me pediu que te contasse como era antes, como foram nossas brigas. Você disse que me revisse como uma transeunte no passeio e te confessasse como eram esses ataques que tenho escondido de todos nossos diálogos.
Uma vez soube de uma mulher que cortou os pulsos, doutra que se encharcou em comprimidos antes do limite da morte, doutra ainda que se debruçou na janela ameaçando se atirar.
No apartamento de cima ouço uns gritos, que sei que são choro. O porteiro comenta aquele exagero. Ninguém a vê, dela só lhe conhecemos o ruído. Tão altos os gritos que nos obriga a subir o som da televisão.
São as mulheres histéricas, que num momento de impulso de tanto controle se descontrolam na dor.
Você me perguntou o que eu achava dessas mulheres. Sei de quem partiu uma janela, sei doutra que destruiu a casa de banho. Parece – dizem - que são as mulheres do povo, que sem polimento exageram o comportamento.
Soube noutro dia de uma senhora de bem que doída tirou a roupa na festa. Despida num choro baixinho encontrou-se no chão. Os homens - todos eles bem formados - desviaram os olhos.
Me diga uma coisa, você nunca pirou?
Não me peça então que te conte como foram as brigas, se chorei, se me enquadrei numa noticia de crime.
Me conte você que fez seu parceiro quando um dia, você minha amiga, perdeu a postura.
Se a laranja for ácida e se a cada gomo as lágrimas te vierem aos olhos, me diga Cleo, se é esse o paladar da loucura.

16/05/2006

Distraida fui vivendo
a rotina da sopa ao jantar







Gabriel
Esperámos mais de uma hora para ver Frida Kahlo. Como é possível que de repente Frida seja tão popular?
Rodeada de amigos Justine aproveita a fila em divertida conversa.
Por cinco euros apenas, além de Frida ganhei o sorriso de JAcinto o escritor amigo de Justine.
Poucos quadros, algumas fotos a lembrar que Frida existe. Trotsky também. Afinal – passado!
Nos Pasteis de Belém completamos essa tarde de Domingo.
Miguel pede um prego. O empregado de mesa diz:
- Não fazemos...
- Ora essa! Fazem o quê?
- Pastéis de nata...
- Hm, hm... Então que venham os pastéis. Chá e chocolate...
O sal vira açúcar. O paladar procura na memória o ácido adequado para receber o prazer da nata.
Justine sorri carinhosamente:
- Ana você só vai viver quando conseguir mandar ele à merda!
- ....
- Que história é essa de premiar que ele saia de casa?
- ...
- Nunca vi isso! Só falta você ainda dizer obrigada...
Cleo me ajude, venha em meu socorro. Explique a eles que você conhece tão bem que esse amor vive para além de mim. Alguém o desenhou, ganhou forma, cor, textura. Diga que ele é o esboço da vida...
Viajo no espaço. Viajo no tempo. Com Alfredo, Manuel, Gaspar, Fulano, Sicrano também fui feliz. São assim meus amigos. Nos embrulhamos na cama, rimos, gozamos. Levantam os ferros, seguem a vida. Sigo a minha com Gabriel – sempre.
Um dia Gabriel tatuou o sol na omoplata. Feito um desenho de criança o sol sorriu de costas. Seu corpo ganhou uma vida que parecia esquecida.
Levantou o pé, deixou que a mão voasse sem nexo. O ventre acordou. Na face um sorriso feito desenho animado. Gabriel rebolou no vazio da sala. Uma pirueta marota – o passo trocado.
Distraida fui vivendo a rotina da sopa ao jantar.
Foi numa tarde de um domingo de Verão - enquanto eu me esquecia - que Gabriel anunciou:
- Vou-me embora amor...
- ...
- Viver o que resta...
- ....
Meu corpo gritou. Desafiou os carros na contra mão. Nada me matou. No horizonte o sol nas costas de Gabriel queimou meu olhar.
Cleo explique aos nossos amigos ... Não quero mais viajar na memória deste passado.
Miguel paga a conta. Entre abraços e sorrisos nos despedimos. Volto para casa. Da minha janela vejo o mar.
Em casa, na internet, procuro meu amigo Lauro. Escrevemos um conto. Será um conto? Acho que escrevemos a vida.
Haverá editor que publique?
Releio a escrita. Cheira a aniz. Lauro se perdeu no Carnaval. Não há quem o encontre!
Volto atrás. Minha mãe diz que minha escrita é um vomitório! Sofre quando lê.
Não me resta saída. A ficção se confunde nas entrelinhas de quem lê.
O sol nas costas de Gabriel ainda está vivo. Um dia, tenho a certeza vou saber de onde vem essa luz.
Num dia de sol elas foram a TV e se declararam apaixonadas até não poder mais. A mais velha sorria sem parar, a mais nova desviava o olhar para o além.
O casamento entre semelhantes, muito semelhantes está proibido. Elas vão se casar em directo. As meninas da TV.
Luisa
Nove da manhã. A campainha não para. Salto da cama assustada. Na porta David ofegante, indecisa entre o grito e o sussurro, diz:
- Ana são 50.000 euros! Tens aqui cinco resmas. Fico à espera.
Babu – meu projecto de cão – salta sem parar.
- Luisa, quem te disse que eu escrevo? Pelo que sei vomito
- Então vomita muito e depois embala tudo muito bonitinho e envia para esta morada. Vais ver que ainda és premiada.
Luisa vem de Gabriel. A mesma luz do sol tatuado nas costas do meu amor.
- Eu já estava a estranhar. Quando tens essas recaídas escreves, escreves. Mas desta vez nada aparece. Parece-me que já é hora. Vá lá eu te ajudo Ana.
- Não posso amiga. Desmaio. Indisgestão.
- Podes sim
E com essa afirmação que vem de mansinho me calo. Bem que eu queria esse livro. Agora só me apetecia saltar feito Isadora Duncam. Um pé a beirar o sol, o outro a terra lavrada - nesse gesto a minha esperança.
- Casas comigo, Luisa?
- Caso, pois.
Num dia sol elas foram a TV e se declararam apaixonadas até não poder mais. A mais velha sorria sem parar, a mais nova desviava o olhar para o além. O casamento entre semelhantes, muito semelhantes está proibido. Elas vão se casar em directo. As meninas da TV.
- Gostas Luisa? Já te imaginaste a casar assim? Em directo?
Hoje é Sábado. Abro a janela. Ouço o mar. Na mesa 25.000 folhas brancas me esperam. Me atrevo, escrevo, rabisco – vomito:
Piazzolla me embala...
Num gesto mecânico escrevo VUELVO AO SUR. Assim começa a história que há de ser premiada:

This is the end
Dario anuncia novos impostos. A cada taxa anunciada seu falo cresce como o nariz de Pinóquio.
No penis do primeiro-ministro uma camisinha com as meninas de Velasquez. Dario baixa as calças e ordena ao povo que goze. Regio sorri. Gosta de Velasquez. Foi eleito Papa na portagem 2005. Ninguém sabe se pagou todos os impostos – ninguém visionou seu percurso. Régio é a ilustre consciência de Dario.
Bush, Dario, Regio e Osama jogam golfe todos os dias. Num campo verde de mentira feito a dor que a gente sente. Nosso horizonte ensaiado no Muro de Pequim.

Good morning sun shine
A Opus Dei toma o poder e o povo rendido se esconde em casa. Bill Gates reinventa Da Vinci. Brutti, sporchi e cattivi e o povo unido jamais será vencido!
2006 – aumenta o preço da portagem. É caro caminhar. Espero conseguir atravessar o Muro. Pedro tentou no ano passado. Clara contou que o viram acorrentado. No rosto uma felicidade desconhecida. Certamente chegou perto – sentiu a maresia.
Deus me segreda todos os dias qual a cor do mar de outrora. Não sabe porém qual a cor dele agora.
Queimaram os filmes e do mar só resta o som. Quadros - só religiosos. Nenhum original - só reproduções em calendários de nylon. A igreja distribui gratuitamente camisinhas com Cristo crucificado. Não me lembro de um amor tão insonso!
Sigo meu caminho agora sozinha. Em junho na portagem 2004, Romulo me avisou que tomaria outra estrada. Separamo-nos. Não sei qual foi o seu rumo. Talvez nos encontremos no fim.
Cristine quando foi a ultima vez que nos vimos?
Na portagem 2003 senti tua lágrima no meu rosto. Mais uma partida.
Todos buscamos o mesmo mar. Nem Deus sabe a cor dele agora.
Luisa? Se ficares enjoada, vomita também!
Vou ao Guincho com David. Lá nos despimos e... meditamos. Quem sabe se não me volto a casar na TV?
Boa noite amiga.

Amo Cleo.
Perto ou longe,
viveremos juntas
para além da eternidade





Cleo
Mais um fim de semana que passou. Sábado, Domingo e jornais. A Primavera está quase. Duas folhas escritas. As outras continuam brancas – bonitas.
Quando escrevo quero ser pianista, feito a minha mãe. Até hoje me lembro do seu piano de cauda.
Um e pausa. Dois – estás fora do compasso. Ora me apresso, ora me esqueço. Nada a fazer. A música está dentro do corpo – amarrada. Um dia vou tentar dançar o tango. Mas só o aprendo em Buenos Aires.
Hesito no texto. Vuelvo ao Sur. Mas que arrogância!
Tenho de mostrar a Cleo. Ela sempre me diz a verdade.
- Gostei. Mas tem de ser trabalhado. Muito, muito confuso
Irritada finjo que aceito. Esboço um mas. A inteligência me aconselha a recuar. Assim deixo que o tempo passe. Uns cinco minutos. Depois volto ao texto. Afinal talvez Cleo esteja certa. Apagar, cortar, tudo no lixo!
Meu professor de desenho disse que a borracha está proibida. Não se pode errar. Corrigir só por cima, tateando o erro vezes sem conta com paciência. Com delicadeza. Modelando devagar, afagando o erro. Pronto, já está.
Não seria mais fácil ter acertado logo no início?
Cleo veio de Singapura. Lá no Oriente uma bruxinha estimou seu futuro. Outro amor em outro mar.
Encontrou-me desfeita. Todos os dias acordava a chorar. Todas as noites me despedia da vida. Cleo sucumbia comigo.
Nos despedimos tão tristes, tão doentes! Cleo partiu para África – outro mar.
Naquela terra quente. Suada. Cleo por fim respirou.
Menina mulher, neta de índia. Cabelos pretos, Tenho a certeza que Cleo foi noutra vida Valentina – heroína de uma banda desenhada de Crepax.
David sonha com ela de pijama. Com escárnio Cleo se vinga dos homens todo santo dia.
Amo Cleo. Perto ou longe, viveremos juntas para além da eternidade.
De longe ela me adivinha. Quando a crise tocou na minha campainha, abri a porta. Ofereci hospedagem. Nesse dia deixei de dormir.
Passado um ano da partida de Gabriel, em Dezembro, me visitou. Tínhamos prometido festa. Mas desta vez era Cleo que chorava. A festa vai ser feita um dia.
- Que saco! O I não me liga, o D me atormenta, a G se rebola, o J não me esquece...Porra Ana que fizemos nós da vida?
Antes de responder me concentro nas letras. Cleo inventa a lingua. A G. é uma transformista, J todos os homens feito José, D Deus esperando ser cruxificado, e por fim I. é seu vício de todos os dias - esse é um segredo que levo para cova. Mas de todos o mais louco. Se Cleo fosse Valentina ele seria D’Artanghan.
- Cleo que desespero! Dê nome aos nomes!
- Para quê? Basta que eu saiba
Levantou o queixo, olhou e caiu na gargalhada. Mas seus amores, amantes, amigos, continuarão a ser conhecidos pelas siglas, pelos códigos que Cleo invento
- Olha como vai a G?
- Nem por isso o D a destratou, o I se enrolou na cama com a M, levou um soco do R
- Mas e o B?
- Ah esse se casou com a C
- A sério?
- Tu os conheces, tenho certeza
- Quem?
- o B e a C
- ah pois ...o B e a C...Quem não conhece, não é?
- Ana ninguém conversa assim. Me desculpe
- Converso eu na tua lingua inventada. Ninguém me entende mas que interessa?
- Te amo Ana
- Te amo Cleo.
Amiga, amiga, amiga - sempre.


Se o seu tempo for
só de um segundo
será nele
que inventarei a eternidade

David, Miguel, Gabriel e Cleo
- De onde vens David?
- De nenhures onde a água, o ar, o fogo e a terra são um só
- Não me levas contigo, neste desejo que não controlo de existir mais um pouco em ti?
- Cuidado Ana. Vomitas as palavras. Nada tem consistência.
Perco-me neste dedo que apontas. Tão docemente fala teu corpo quando se entrega.
- Depois de tanto caminho, amigo te encontro. Alter ego? Espelho desse amor com que desenhas amizade
- Estavas pronta Ana
No regresso de São Tomé nos cruzámos. Na véspera de o conhecer sonhei com suas mãos inquietas. Depois ... Ah, que interessa isso agora?
- David vens cá ver o filme?
- Não sei
- Porque foges?
- Porque é assim
- E não queres que te leve...
- Obrigado, hoje não
Depois que Gabriel saiu de casa o pretexto do encontro era o supermercado. Agora com David é a boleia.
Porque será que os meus encontros só se fazem nos intervalos?
- David? Vens comigo a São Tomé? Podes desejar Cleo, amar todas as muheres. De ti, amigo basta-me o teu olhar.
Nas boleias nem sempre fazemos o mesmo caminho. Quando nos encontramos, mesmo que seja num breve momento, sorrimos.
David sonha com Cleo em pijama. Eu sonho com ele na cama.
Desde que regressei da ilha que tenho uma febre intermitente. De noite acordo e ardo. Nessas horas vale a pena escrever. David me inspira, Miguel reaparece. David pede acção. Cleo reclama:
- Viva Ana, viva. Você é o máximo!
Miguel tem um sorriso maroto. Amigo de longa data de David. Carinhoso diz coisas que gosto de ouvir. Não me aponta o dedo como David. Amo os dois.
Com David veio Violeta, Joana, Miguel. No sótão de minha casa selámos a amizade num abraço apertado. Todos mais jovens que eu.
Meus novos amigos, à excepção de David e Miguel, estão longe dos 40. Acho que nem tem idade. São os novos mutantes.
Sempre sonhei ser uma borboleta. Nascer e morrer num dia. Entre nascer e morrer – mudar. Antes voar.
No caminho para Lisboa, Miguel me diz:
- Já não precisas de respirar o outro Ana
- ...
- Estás mudada. Escreve teu livro
- Será que não me perco?
- ...
Miguel é como Cleo, de repente sai do espaço. Mas em Miguel não há como desligar o modem. Ele se recolhe noutra dimensão. Onde habita o silêncio – profundo.
Tento acompanhar. Em busca dessa paz. Na face de Miguel se desenha um sorriso delicado que há de permanecer pelo tempo em que está ausente.
- Concentra-te na respiração. E nota. Se for um pensamento, nota. Regressa à respiração...
- Gabriel teve um ataque..
- ...
- Apenas um ataque. Já não me incomoda. Notei e larguei.
- Medita amiga. És muito bonita.
Foi com Gabriel, David e Miguel que aprendi como é bom amar em liberdade. Tento explicar isso a Cleo. Não consigo. Ela me fala em conversas de aranha.
Cleo está longe de novo. Foi visitar a familia ao Brasil. Nos falamos todos os dias na net. Tento insistir na conversa da posse. Mas Cleo hoje não se acerta.
Resolvo então escrever uma declaração de amor. Cabe num A4. Dobro nesse papel um passarinho de origami. Coloco num envelope. Envio por via postal. Como se fazia antigamente. Minha carta há-de chegar um dia.
Se Cleo for capaz de desdobrar meu passarinho, sem o rasgar, vai descobrir como é o meu amor. Se tiver paciência vai me entender.

Declaração de amor
Meu amor é como o coelho que se escapa no campo. A borboleta que ama – morre e renasce. O sol sempre diferente todos os dias - aquece. A norte é nascente, a sul poente. Minha flor de laranjeira.
É a neve que se esvai – ora água do rio em que navego. Quando está, ele é o presente - encontro. Esse amor que todos ama porque é ele em cada um. Espelho do universo.
Vou ser um esquilo na vida que há de vir... queres uma noz, amiga?
A memória ainda tão presente dos corpos que se descobrem. Da palavra que se cala nos lábios que se colam.
Quero minha cabeça em seus braços, paro o relógio deixo que o tempo se ausente.
Se me for dado somente um minuto, não lamento. Penso nele devagar quando me beija a boca, a coxa entreaberta, a púbis. Quando me beija por dentro. Sou a puta da esquina, sou a virgem Maria.
Se o seu tempo for só de um segundo será nele que inventarei a eternidade.
É assim que o amo. Não me importa se no minuto seguinte já não está comigo. Ele é o homem que amo.
Se o seu tempo for de um compasso, que ele seja de pausa, porque urge o silêncio. Se for um desenho que ele seja branco – tão intenso o que sinto.
Se tiver de ser escrito, então Cleo minha doce amiga, explique ao leitor porque me ausento. Explique a quem nunca viveu no trapézio como de um gesto em falso se morre em cena.
Me resguardo porque é em segredo que vivo este momento.
Eterno é o momento quando ele me beija por dentro.
David, Miguel meus novos amigos – pedaços do que sou agora.
Gabriel! Qual é a cor do teu sol quando viajas?

Se me levarem Vénus como vou existir?



Mais um capítulo só para Clara distrair-se. Revejo textos antigos. O do diospiro encaixa no meu livro.
Clara chega sempre sorridente. Fala baixo. Ouve só o que quer.
- Então Ana?
Feliz, digo que escrevi, escrevi, escrevi, escrevi! Na estante todos meus desabafos (alguém conhecido assim condenou a minha escrita). Orgulhosa mostro quase 20 páginas A4.
Enquanto acomoda-se no sofá, faço um chá - Flores da Paixão – chá verde com rosas.
Clara avisou-me que ia apontar todos os erros. Aceito como um exercício de humildade.
- Ana, falta a ligação... Não estás a escrever só para ti. Nada é tão óbvio.
- hm
- E depois os diospiros não se descascam!
- Nunca os comi, apenas imaginei.
- Mas está errado amiga. O diospiro abre-se. Chupa-se.
- Deixa-me descacar a fruta Clara. Deixa-me dar dentadas na laranja.
- Eu deixo. Mas está mal. Olha, não te vou largar. Vou ser uma chata. Só vais alterar se achares bem. Mas não te vou poupar.
Hoje, David enviou-me uma mensagem a dizer que eu comesse o fruto como bem quisesse. Quando menos espero apetece-me morder um ananás com casca. Ferir os lábios, sangrar. No meio da dor o suco da fruta a fazer-me feliz.
- Quero mostrar-te a carta que escrevi a Cleo quando Gabriel saiu de casa. Quero expulsar a dor que resta. Importas-te?
- Claro que não.
Ontem, disseram-me que uma energia intrusa tomou conta da mim. Baco, Vénus, Sansão e Dalila moram comigo. Se os expulsar o que vai restar de mim?
Estou tão cansada desta convivência! Por isso, não resisto. Que venha à superfície o que sou.
Como sempre, sigo o meu impulso. Meu Deus que procuro eu? Mostrar que valho a pena? Esta modéstia mentirosa. Vou tirando o disfarce. Dalila não me cortes o cabelo!
A febre volta a tomar conta de mim. Deliro. Quero embebedar-me. Esquecer. Tirar a roupa, perder-me de desejo.
Se me levarem Vénus como vou existir?
- Ana. Acorda linda. Vai correr tudo bem. Contenta-te com o que tens.
Água salgada que limpa o meu rosto. Lágrimas uma seguir as outras. Na garganta um nó! Mãe aparece, dá-me o teu colo que eu hoje sou criança de novo.  Faz de conta que me deixo engolir pela onda e tu dizes que sim. Não me puxes para norte mãe, eu quero o sul.
Olha meu corpo cheio de nódoas. Esta é a cor da dor mãe – roxa. Tem um som fundo, quase silencioso. Vem do estômago este grito que ninguém ouve.
Uma bofetada me acorda, Clara assustada, implora:
- Ana... Ana, ACORDA
Na minha face um sorriso mostra que a febre passou. Não sei qual o arquétipo que me ressuscita, sempre que beiro a loucura. Como se nada tivesse acontecido levanto.
No toca-discos Cássia canta:
“Antes de me despedir, o meu pedido final,
Não deixa o samba morrer, não deixa o samba acabar”
Clara pede a carta que escrevi a Cleo.

Lisboa, 15 de Junho de 2005

Querida Cleo,
Um dia ele chegou, abriu a porta e saiu. Eu ainda nem bem tinha começado a saber ajustar minhas omoplatas, adequar a postura correcta, saber inspirar e expirar. Não deu tempo porque a porta se fechava no meu movimento esquecido de respirar.
Na capoeira as galinhas correm para o milho, debicam um a um, gritam desassossegadas, abrem as asas e não voam. Ensurdecedor o ruído das galinhas na capoeira.
Fico pensando que prometi escrever, você está longe do outro lado do mar, lá onde os homens são mais baixos, olhos puxados, hábitos outros. Você está por aí tentando adivinhar se respiro. Confesso que tento, ai como tento fingir que tudo isto aconteceu para meu bem. E assim esotérica vejo na desgraça a luz.
A minha ginecologista diz que tenho quistos no colo do útero porque engoli as palavras e cultivei um jardim de bolinhas sebosas na entrada do meu sexo. Receitou florais de bach, um para o coração, outro para o sono e finalmente, outro para a timidez.. O do coração é para quem sofre de ciúmes e possessividade. Tão bem se ajusta a mim que sempre amei tomando posse do meu amado. O do sono é tão óbvio, serve para dormir! O da timidez para que eu me expresse. Parece que meus quistos assim explodem e dos meus lábios as palavras aparecerão a contar a minha dor.
O meu amor abriu a porta e saiu. Lá na casa dele, só entro se pedir autorização. Na geladeira dele as frutas e legumes fazem a festa. Almofadas cor de laranja, Bilal na parede a contar em quadrinhos, histórias de amor. Os discos – são tantos- ainda moram aqui, assim quando me viro à direita e vejo o passado, dos clássicos ao jazz, do rock ao pop, os meus brasileiros ainda desarrumados. Quando me visita vai à estante e tira um par de discos. Pouco a pouco a nossa história vai ficando sem peças.
Hoje, disse como está feliz. Abriu a porta de nossa casa, fechou e saiu. Lá na casa dele sozinho acorda quando quer. Se tem companhia para dar o bom dia não sei. Sei que na minha cama tomei seu lugar, me viro a direita e vejo o vazio. Por mais que me toque não vem o orgasmo, estou sozinha.
Da rua vejo sua janela, indiscreta adivinho sua rotina. Por vezes telefona-me e vamos ao supermercado. E assim os dois nos encontramos nos corredores das frutas e congelados. Tão grande foi o ultimo super que só lá voltaremos talvez daqui a dois meses. Assim, não sei que pretexto teremos para estarmos juntos de novo. Tão feliz está ele a viver sozinho.
Meu cunhado telefona e diz que temos de facturar, “Tu não estás motivada”. O informático aproveita e diz que seus erros são fruto da minha tristeza.
Fui trabalhar e doente fiquei, tão mal cabia naquele espaço. Prometi escrever, mas só lembro da porta fechando. Você que está aí desse lado do outro lado do mar adivinhando se ainda respiro. Eu te digo que por vezes me sonho no mar, por vezes me vejo na lama. Seja onde for espirro vezes sem conta porque estou alérgica ao ar.
Assim descanse que entre um espirro e outro vou respirando.

Clara devolve a carta. Calada, sempre calada me abraça. Não há o que corrigir nesse texto.

no minimo



15/05/2006



Converso com a preguiça
tento convence-la a passear-se
pela praia – sozinha

Vuelvo ao Sur again
Hoje o vento está de norte. Talvez me inspire. Tantos dias parada, tantas horas sem fazer nada. Decorei a sala com todas as resmas de Luisa. No canto esquerdo larguei umas cinquenta meio amassadas a traduzirem trabalho. No lado direito ficou o resto, feito um jogo a compor uma torre. Essas lembram quanto falta escrever. De repente o que era prazer, virou disciplina. Alguém virá cobrar mais tarde trabalho. Por isso antes que me envergonhe e seja obrigada a mentir, preparo a sala. Keith Jarret será a música de fundo, um chá de Roibos, o alimento que limpa. Por fim converso com a preguiça e tento convence-la a passear-se pela praia – sozinha.
Na mesa redonda, abro o computador. Volto a Vuelvo ao Sur.
A parte que nos cabe
Gorba está atrasado. Nossas mulheres deixaram de menstruar quando atravessaram a portagem de 2000. Todas secas.
Fabricamos nossos filhos em laboratórios muçulmanos. Osama tomou conta da nossa genética. Enquanto o imbecil de Dario tem o falo do tamanho de um boi, Osama produz meninos.
Vou ao lar dos Velhinhos de Maio. São os resistentes que restam do Maio de 68. Mario vai me ajudar na sessão. A volta de uma mesa invoco Allende. Precisamos que nos ajude a lembrar o caminho. Por cada portagem que passamos perdemos um pouco da nossa memória. Fica dificil recordar o passado. Esqueci como é o cheiro da terra lavrada. Nossos mortos habitam o ar nas lixeiras limitrofes da cidades. No ar a gordura dos hamburguers.
Allende vem de um ano que já não reconheço. Nos conta como os mestres do poder nos desviaram as estradas.
Pouca gente se lembra do campo, ninguém mais sabe qual o atalho.
Esta é a parte que me cabe na história – lembrar.
- Cleo?
- Diga minha linda, conte coisas
- Queria a escrita com som. Quando você soletrasse cada palavra seria como o esboço de uma canção. Se fosse Justine a dizer ‘desejo’ ... Imagine Cleo qual o compasso de Justine
- Minha louca adorada
- E se fosse um gesto? Justine se enrolaria como uma serpente

Sorri. Cleo volta a fugir. Na frente do computador se revê.
Hoje nada me motiva para a escrita
- Cleo e se fosse o David a murmurar desejo?
- Não sei Aninha... só um minutinho
Cleo ama G. Abraça o terminal. Numa dimensão desconhecida, Cleo se entrega.
Não desisto. Insisto.
- Cleo se fosse o David a dizer ‘desejo’, ele te pediria para dançar em pijama... Aquele azul e vermellho aos quadradinhos
Desespero. Minha amiga viaja. Já não está comigo nem em Lisboa, nem em São Tomé. Noutra vida Valentina. Hoje heroína virtual
- Cleo?
-Hm, hm....
Subo ao primeiro andar. Deixo passar um minuto e desligo o modem. Mato esse planeta invasor, que me rouba a amiga.
- PORRA!
- Cleo o que foi?
- PORRA! E agora Ana?
- Cante DESEJO. Cuidado – não desafine
- ANA
- Agora não posso
- O que você está fazendo?
- Vuelvo ao Sur...
- Largue isso agora
- Desculpe amiga este é agora o meu vício. Cleo e se as letras fossem notas?
- Vamos ao Guincho? Você quer chamar o David?
- Só se você for de pijama...
- AH que saco! Esqueça
Cleo desespera sentada. Tantas vezes subimos o Chiado, tantas promessas de festa. O telefone toca. Cleo vive no espaço sideral.
Fujo do livro. Qual o fio condutor desta história?
Bem me quer, mal me quer... Gabriel onde fica o luar?
Cleo vai ao cinema. Na mesa, ao lado do computador, deixa um bilhete:
Ana te amo. Quando voltar te levo para São Tomé. Lá seremos felizes...
No bilhete de Cleo, neste papel amarrotado o recado que só nós duas entendemos. Memória teimosa que me invade.
Em apenas duas semanas, tudo mudou. Depois de um ano separada resolvi visitar Cleo em São Tomé. Em Junho do ano passado.
Calor que envolve meu corpo. Me toco. Recordo.
Assim que cheguei a doença tomou conta de mim. A ilha é suada. No ar o desejo está latente. Tão violento que doi. Invade o sexo no nosso descanso. Não há toque solitário que dê resposta ao anseio doutro tocar. Se o encontro não acontece adoecemos. Somos tomadas de uma febre fatal.
Em São Tomé a solidão é castigada como se fosse um pecado. A natureza implacável condena quem desiste de amar.
Fazer amor nesta ilha é como a onda salgada que se encontra na areia. Sempre as partes compondo a unidade.
Quando Gabriel saiu de casa fechei meu corpo. Na ilha sem entender como nem porque o desejo instalou-se.
Onde partilhar essa vontade de vida que se apoderava de cada um dos meus sentidos?
Na rua, no bar, em cada esquina, um sorriso rasgado oferecendo nova existência.
- Como faço Cleo, o que faço?
- Viva Ana, viva
Tinha a insegurança por companheira. Má conselheira arrastou-me para caminhos escuros.
Neste calor húmido o meu sexo latejou de dor – sozinho!
Antes do regresso, a meio do caminho, a febre apareceu – quase morri.
Nos meus delírios escrevi:

FEBRES DE SÃO TOMÉ - Junho 2005
1
Veio do mar aquele que um dia roubou um pedaço de mim. Parti sem saber meu destino.
- Dona este é o caminho da Boa Morte
- E depois sr Manuel?
- Dona depois é o cemitério de São João
- Me deixe ficar por aqui Manuel, se boa é a morte
- Dona o doutor vai saber que malária é essa que lhe morde a alma
Entre o hospital da cidade de São Tomé e a casa de Daio não sei o que aconteceu. Ouvi o médico cubano segredar que o meu mal só ocupava lugar. Na esquina da dor quase atravessei a morte. Veio do mar quem me roubou existir.
Encarregaram a Daio o meu destino.

2
Na ilha, na casa de Jesus Nosso Senhor há uma porta de entrada e outra de saída. Tão perto uma da outra – por vezes quem entra esbarra em quem sai. Entrei na casa de Deus - saí em busca de um atalho.
As estradas de São Tomé apodrecem – o alcatrão luta contra os buracos.
- Dona – cuidado! Maria deitou-se com José, veja só o pecado...
Quem me mandou sair do santuário?
- Se aquiete homem, também me deito com Cristo e ninguém me leva ao inferno...
- Dona – cuidado!
As estradas de São Tomé morrem devagar – preguiçosas.

3
Desço a rua do Quilombo, viro a direita passo o Papa-Figo, para trás um horizonte perdido. Na minha frente o mar. Daio está no Passante
- Branca, branca....
Queria que minha a cor fosse como a de Daio – negra.
- Branca, branca...

4
Procurei em Daio meu amor perdido noutra ilha. Outro tempo. Deixei que a dorencontrasse no meu corpo abrigo. Alma retalhada tamanho foi o estrago. Vi amalária matar os corpos jovens de São Tomé. Tantos brancos ousaram inventara sina daqueles que a cor ditou a dor. A branca histérica pregou que o racismo não existe. O preto desviou o olhar - sofreu em silêncio.
- Dona fique por cá...
Os olhos de Daio não mentem. Vejo nele a memória do seu povo. Cada grito calado, cada lágrima contida. Um dia matam todos os africanos.
Quero de Daio a revolta escondida. Lamento constante. Resistencia passiva.
- Dona fique por cá...
Quis de Daio cada carinho roubado. Daio triste olhou o vazio. Procurei uma chama, calor de um tempo passado. Daio triste olhou o vazio.
- Dona fique por cá...
E o que tem essa ilha perdida para além das tristezas vividas?
Não tem passado. Minha geografia – o vazio.
No regresso a casa. Lisboa quero-te de novo vestida de véu e grinalda!
Mostra-me que também aqui é possivel amar.
Tenho sono. Saudades de São Tomé.
Diz-me Cleo se o teu planeta é melhor do que este que destruímos com tanta pressa?.



A regra pariu a dor
porque o talento aprisionado
mofou na gaveta












Nada é verdade
E agora leitor, aqueles que me conhecem e se reconhecem no texto, que até já identificaram quem é este ou aquele – que se perdem na curiosidade das inconfidências escritas – relembro que nada é verdade.
Ontem na meditação senti o contorno da realidade. Nada é mentira.
Ana é redonda. Meu nome é outro. Não se lê como Ana – sempre a mesma seja no início ou no fim.
Aos 16 anos Ana apaixonou-se pelo dono da loja de motos da rua onde morava.
Por Zeca - Ana existia. Por ele valia a pena acordar.
Ana deixou de comer. Ana deixou de estudar. Bastava inspirar para sentir como Zeca respirava. De Zeca - Ana queria simplesmente o seu olhar.
Ana ama vezes sem conta. O brilho de seus olhos trespassa a alma. Prolonga cada sorriso. Faz do segundo a hora. Ana é capícua. Igual ao Universo sem começo nem fim.
Filha de comunistas. Neta de portugueses e judeus poloneses. A guerra marca o compasso do tempo dos avós. A hora é de luta para os jovens pais de Ana.
Um beijo, depois outro e Ana vira semente. No ventre da mãe se instala. Nasce em São Paulo no Verão de 1954.
Pouco sei de sua infância. Lembro dela a sonhar em hebraico. Fez o ensino primário numa escola judia.
Pais artistas. A moral ditava a regra que a arte não alimenta uma família.
O pai escondeu a caneta na gaveta, a mãe aposentou o piano. O equívoco fez -se dono e senhor. E assim os pais de Ana hipotecaram parte da vida.
Quanta ginástica fazemos quando nascemos! Choramos sem pudor para vencer a vida. Sem a moral a determinar se é em si bemol o tom deste cantar.
A regra pariu a dor porque o talento aprisionado mofou na gaveta.
Uma história de amor sustentou o ânimo da família. No intervalo quando a loucura saía solta o pai escrevia. A mãe ia se esquecendo. O piano saiu de casa virou alimento do clã.
Ana pouco falava do seu tempo de criança. Quando sorria distraída era porque viajava na memória. O pouco que sei presenciei numa festa de família por mero acaso.
Guardava em segredo as risadas como se pudesse perpetuar o momento.

Um dia Ana apareceu em minha casa. Sentou-se cansada. Triste murmurou:
- Meu tesouro foi roubado
- ...
- Meu pai, meus irmãos, minha mãe, o piano em Fortaleza, os discos partidos, as vergonhas, os medos, as risadas, a loucura desavergonhada, os filmes que vi as quarta-feiras no Império, Fernando Lemos, Sidónio Muralha, Noemio, os quadros feitos lombrigas na parede, minha avó Fany caindo no chão, o refúgio do meu avô Samuel, o armário de sala da casa do Bom Retiro, meus amores de infância, a festa da minha primeira menstruação, os abraços apertados, minha irmã nascida numa folha de alface, meu irmão de pulso cortado, meu irmão queimando a cabeça, minha irmã namorando sem freio, meu pai, minha mãe, meu avô Silva recitando a vida, minha avó Zulmira sempre em silêncio, Pierrot e Colombina, 25 de Abril, funerais, festas ....
-...
- Vou me esquecendo de tudo, não me esqueço de nada. QUE DOR!
- Calma Ana. Desculpa mas não percebo o que dizes
- Meu passado, minha família –hoje NADA
- ...
- Tens uma caixa dourada?
- Não
- Tens uma caixinha de joias?
- Só de comprimidos
- Serve. Vai buscar por favor
Pertubada vou ao quarto buscar a caixinha que me ofeceram na Farmácia. Está repleta de anti-depressivos.
Ana pede que eu limpe a caixa. Aproveito e jogo todos na sanita. Descarga com eles! Acaba-se a depressão.
Abre a caixa agora vazia. Uma lágrima escorrega em seu rosto pálido. Olha para mim
- Aqui guardo o pouco que resta. Segredos que a memória vai apagar. Misturado ao cheiro dos teus remédios - meu passado. Vai amiga guarda a caixinha, esconde no armário.
- Afinal o que houve Ana?
- A verdade
- Qual?
- Minha família
- Te amam
- Sim. Claro que sim
- Então
- Maltrataram-se no jogo da vida, hoje enveneraram as minhas lembranças. De repente, sem pudor apontaram-me o dedo e ... Sou responsável por todas as falhas.
- Como assim Ana?
- Não sei. Mas sou
A dor toma conta da face de Ana. Como se lhe parasse a digestão desmaia. A memória viaja para um lugar sem acesso deixando que Ana acorde feliz.
No armário das roupas velhas, mofadas tenho a caixinha de Ana. Não me atrevo a abri-la.
Assim amigos que me conhecem, se algum dos personagens são reais, me digam quais são, porque a parte que me cabe nesta história é pura invenção.

14/05/2006


Sabes quem sou? Eu não sei. Outrora, onde o nada foi, Fui o vassalo e o rei. É dupla a dor que me dói. Duas dores eu passei.
Fui tudo que pode haver. Ninguém me quis esmolar; E entre o pensar e o ser Senti a vida passar Como um rio sem correr.


(Fernando Pessoa)


Camaleão
-“Agora faz de conta que teu nome é outro. Como Maria vai ser fácil, fácil. Depois quando voltares a ser Ana já tudo passou” – diz Luisa.
No toca-discos Noel Rosa canta “quem acha vive se perdendo”
Aprendo rapidamente a estética, sou transformista – camaleão.
Dizem que é da primavera. A tristeza toma conta de cada sentido. Quando dói o peito e o ar se esconde não deixando respirar, o choro toma conta da palavra. Nada mais há a dizer.
Sufoco o grito. Se eu pudesse fotografava o nó que mora na minha garganta. Em preto e branco emolduraria o quadro para te mostrar David porque ainda não sei dançar.
Hoje nada faz parte deste livro. Hoje nada faz parte de nada.
Amanhã serei Maria, Joana, José. Hoje sou de novo passado.
Tudo é caminho. Cega não vejo a montanha. Me mostre amigo como faço para lá chegar.

A vida vestiu-se de freira. Manto preto, vidas proibidas, azedas. Na mão direita uma cruz - Jesus castigado. No olhar a censura a vaticinar o futuro:
- Ainda te falta sofrer. A tua vida foi toda um pecado... Não te iludas no prazer. Ele só existe para sentires como doi a seguir. Tua vida... Vá de Retro Satanás!
Estive com ela hoje vestida de homem. Alguns tantos a gritarem em coro:
-Vai pecadora! Ris-te de quê?
Nada me assusta por isso gargalho. Na banheira coloco os frutos que deviam ser para o chá. Nela me banho, nela me bebo.
- Vai pecadora...Sofre!
Se a minha cara for de dor continuarei a sorrir. Se o meu passo for trocado tentarei como me for possivel caminhar. Que venham as freirinhas vestidas de urubus, a cruz, o pecador...
Exorcizo a ferida. Na parede o nó que saiu da garganta. Meu nome é Ana.
O horizonte está coberto de neve.


Será que posso apresentar Lao-Tsé a Allende em Vuelvo a Sur? Nesse mundo de lá para onde partiram será que vivem todos juntos em santa comunhão?
E se eu inventar que mal haverá em iniciar Allende na prática do Tao?
Erámos uns poucos a gritar “o povo unido jamais será vencido”- ninguém me contou quanta ansia de poder se escondia por trás de alguns.
Com fé enchia meus pulmões, dobrava a mão e com punho erguido anunciava que o pão, a paz, a educação era de todos um direito.
Se eu fosse uma gueixa, curvada pediria a Lao Tse que ensinasse a Allende o Tao.
Prometi a Cleo que iria rever o texto. Parece que apesar da ficção me acusa de um tom confessional.
- Aborde os personagens de outra forma
Irritada digo que não. Que devo inventar que a vida não tenha mostrado antes?
David me alerta:
-Vais magoar muitos de nossos amigos que vão se sentir expostos no teu texto
Por mais que invente a verdade está lá latente à espreita. Por mais que troque os nomes todos somos José; Maria, João. Cleo é David. David e Gabriel o amor que desejo. Miguel a miragem de liberdade. Afinal somos todos. Como fugir do esboço de vida que desenho em cada parágrafo?
“Sabes quem sou? Eu não sei”
Diga Cleo. Explique que você se deita e deleita como Valentina na história de Ó.
Mas afinal quem é você?
Será David transfigurado de mulher? Desejo a consumir a paz de cada dia. A culpa, o remorso depois do acto de amar?
Quem é você amiga? Por vezes Justine, dengosa – gostosa. Sempre feliz até quando peca.
Será você a mutante. Mistura de homem e mulher. Diga que sim!
Você é a minha vontade de ser. Homem ou mulher.
Em Vuelvo a Sur você vai libertar com David a cor do mar.
Cléo você só existe enquanto a mistura de um pouco de todos nós.
Miguel partiu. Na face o sorriso de quem sente o rio a correr.
Vou enviar a Justine o esboço que já tenho escrito. Será que ela no prazer da floresta se entusiasma e me lê?

13/05/2006

Contas à vida


Assim é a flor de laranjeira que nasceu no quintal da minha casa.

Encostei a cabeça ao piano, tentei ouvir o sopro da vida.
Procurei por onde navegava o peixe que comi. Qual o preço da vida?

12/05/2006

Paladar da Loucura


Mordo o ananás. Com casca.
No meio da dor o suco da fruta faz-me feliz.

Raspanete no Sushi Bar

- O patrão não vai gostar...
João espantado responde:

- E daí?
O patrão é dono do fastfood japonês. Servem comida nuns pratinhos coloridos que se passeiam em frenético rodopio. Sushi, camarões panados, chao min, brocolis salteados, batatas fritas com ketchup.
Os clientes vão tirando os pratinhos e reservando. Em menos de cinco minutos damos conta de uma pilha em formato de arranha-céu a formalizar o tamanho da nossa fome.

Esta se aliada à ansiedade origina uma pilha de pratos de plásticos assustadora. Será esse o tamanho da gula?
Os empregados de mesa vão vigiando e aliviando os pratos dfa mesa.
Foi numa dessas incursões que uma brasileirinha vestida de sino-janponesa fez o comentário.
- Mas o patrão fica bravo com o quê? pergunto
- Vocês estão tirando o peixe do sushi e deixando o arroz e ele não gosta...
- Pois. Mas eu quero sashimi e não há...
- Pode pedir ...
- Pago à parte?
- Sim
- Então prefiro, tirar o peixinho e deixar o bolinho de arroz
- Mas o patrão vai reclamar..
Sorrio. Um dia sento-me a mesa e vão reclamar que não posso cruzar as pernas...