16 Maio, 2012

suave é a loucura
que me desperta
em cada manhã
azul seremos
por entre todos
que perdidos
navegam abraçados

tempo de amor abençoado

As minhas sardas

Fiquei a pensar como seria a tarefa de contar as minhas sardas...
Quando era criança,  morei num bairro de pescadores, em Fortaleza, onde os miúdos traziam na boca histórias fantásticas. O Vavá tinha a cabeça achatada e explicava que era assim porque a mãe quando grávida tinha caido no chão bem em cima da barriga. Recordo o meu espanto com tal explicação. Se ela tivesse caído de lado, como seria o perfil?
Um dia o  Pirrita aconselhou-me a lavar a cara com o meu xixi para limpar a cara.
A verdade é que sempre tive complexos por ser sardenta.
Na adolescência colocava base e as sardas viam-se por baixo - teimosos sinais castanhos que não me largavam. 

Para as ruivas, o cabelo é da cor da cenoura e faz todo sentido serem sardentas. Eu que sempre tive o cabelo castanho, passava por uma falsa sardenta. Com os anos fui aprendendo a gostar destesn pequenos sinais.
No rosto são mais de cem, no corpo outras tantas que invento e não encontro. 

Umas cresceram como se fossem sementes de uma nova gente. 
Outras apagaram-se tão cansadas estavam da vida acontecida. 
Acordam na minha pele todas as manhãs. 
Vivem comigo desde criança. 
Namoram, casam-se e inventam filhos. 
Nunca as vi morrer.
Talvez na hora do juízo final.

10 Maio, 2012

O mundo sabia de cor, a cor da dor de quem nunca teve a sorte de nascer imperador. O peixe era doce e cru. A beterraba avinagrada. A vontade de ser feliz era tanta como a tua agora que acabas de nascer. O jejum era dos pobres que o faziam dia após dia.
Vizinhos da vida viajaram sem regresso com um sorriso que não esqueço.
O homem mata o homem e nunca sabe porquê. Bendita a memória que me assombra neste dia que nasce outra vez.

09 Maio, 2012

abraça minha cabeça | perdoa minha demência | tímida esconde-me | em teus braços largos | chora e ri | em silêncio| loucura que nos assiste

08 Maio, 2012

Se ficar por aqui mais um instante| chorarei a ausência que permanece | memória que me assiste | quando me perco | falta que invade meu corpo | bem no meio do coração | um sorriso como se fosse outro abraço | desligo a luz | invento o infinito | que nunca teve início nem fim | por dentro de mim | um beijo que não encontra pouso

02 Maio, 2012

segue a angústia o medo de me perder, porquanto mais procuro pressinto o fim. Lá onde o sol ameaça nascer, recuo em busca do eu que teimoso mostra-me não existir. Lá onde tudo e nada ocupam o mesmo espaço vazio, fronteira do meu despertar, tão perto de mim que não alcanço. Canta a dor que trago no peito, a verdade que sinto e não entendo. Bastaria um lampejo e saberia que tudo que aprendi de nada me serve se nunca o senti. Ali, onde o rio e o mar se unem, afogo-me na esperança de nada saber.
canta-me a musica que te embala os dias, deixa que ela me invada e eu esqueça que existo, mantêm-me quieta e silenciosa porque doi-me o corpo por dentro.  enquanto adormeço cansada, choro. este não é mais o país que eu sonhei. antes, abracei-te na multidão e o teu beijo despertou-me entre todos que amei. dá-me um cravo vermelho, coloca-o junto ao coração. semeia em cada corpo uma nova canção.

23 Abril, 2012

a caminho do fim
vislumbro o começo
em cada intervalo
morro e nasço
outra vez
silencio o verbo
que se perdeu
no lamento surdo
da minha tormenta

22 Abril, 2012

Retrato 3/4

no meu retrato
três por quatro
viajo ao passado
aquela sou eu
ainda criança
de copo na mão
na festa da escola
lembras desta?
teu corpo no meu
antes da despedida
tantas vezes partimos
quantas vezes beijei-te
e não fotografei?
na parede o retrato
emoldura o passado
nos meus lábios
um ar morno e doce
indica o presente
onde tudo acontece
enquanto respiro
a caminho do fim
vislumbro o começo
em cada intervalo
morro e nasço
outra vez

11 Abril, 2012

não chores, sabiá
a noite é quase dia
e voltas a cantar

descansa agora
a vida pede silêncio
até o sol raiar

05 Abril, 2012

o menino sem asas
voa sem dizer adeus
grato
pelas asas que Deus não deu

04 Abril, 2012

Durante a tempestade
a chuva afogou-se no oceano
e o peixe largou o isco
Na minha terra todos gostam de circo.
A notícia acontece quando o elefante enlouquece.
O bailarino cantou a morte do cisne num grito sem som.
Esticou-se no palco.
O cisne dançou a morte de quem o cantou.

Se me vires chorar, não te assustes, a lágrima é doce e me faz cantar.
Quando a saudade se entranhar no meu corpo, farei dela minha companheira, como se fosses tu a ocupar-me inteira.
Se a dor parecer tamanha, descobrirei nela a felicidade.
No fim da noite abrigarei o dia.

22 Fevereiro, 2012

Quando o mar roubou o sal dos rios, bracejei contra os predadores sem dar conta do encontro das águas. Estuário fértil, onde a vida se procria. 
Qando o sol iludia a noite alongando o dia, contemplava o céu.  Apaixonada, descobria a vida. Equânime é o olhar de quem ama.
Cada quarto de hora, ameaça a meia hora. Ruído infernal que anuncia a morte do tempo. Cadenciado é o som, em cada intervalo da hora.
Entre a minha casa e o mar, existe um caminho de ferro.
O silêncio aparece de madrugada, quando a estação adormece cansada, ou quando os maquinistas fazem greve e as crianças do bairro colam seus corpos nos trilhos como se fossem lagartos.
Uma sirene prolongada, anuncia a desgraça.  Num lamento sombrio a noite escurece o dia.
Da minha janela vejo o mar.  Noite e dia.

21 Dezembro, 2011

Entre a mesa e a janela, mora teimosa uma parede amarela. 
Procuro o ponto de fuga. 
Desenho o luar em cada noite escura. 
Despeço-me do sol. 
Na monotonia do amarelo, deito-me e sonho 
com o mar que caminha para a montanha,
até que a terra encontre o céu e o azul tome conta da cor.

Descubro no gesto o sentido.

Entre a mesa e a janela, da minha casa
Mora teimosa uma parede amarela
Cansada, debotada na cor,
Delicada, encosto meu corpo
Apoio no ombro a vontade de ser
Abro a janela, abraço a liberdade.

No horizonte - vida.

26 Setembro, 2011

se há estrelas
casas com a lua
inventas promessas
branca e negra
é tua a saudade
serena é a noite
quando te encontras

22 Setembro, 2011

um dia todos se encontram, abandonam os pontos cardeais. A primavera, o verão, o outono e o inverno ousam o tempo e celebram matrinónio.
um dia todos se encontram, abandonam os pontos cardeais. A primavera, o verão, o outono e o inverno ousam o tempo e celebram matrinónio.
se a pomba está ao teu alcançe
abraça-a com ternura
como se a mim abraçasses
e se ela foge e recua
canta que ela regressa ao encanto
se for branca, a pomba-rola
coloca em seu bico, uma rosa vermelha
segreda-lhe a minha morada
e se eu tiver partido
com destino desconhecido
entrega a pomba-rola
a rosa vermelha ao mundo
O meu corpo novo, esse onde existo sem forma, é abrigo do poeta.
Embriagado de vida resiste ao tempo, e no tempo, dele se despede.

Descobre o vazio onde o texto encontra o silêncio.
Nele o abandono sublime do amor.

11 Setembro, 2011

deixa que o céu encontre a terra
o mar durma na areia
a chuva fermente o pão
deixa que o que nunca teve 
paragem certa fique onde está
sem nunca ficar

Voam as pombas na capela,
e só tu dás por elas
deixam no ar o cheiro do orvalho
e só tu dás por ele
choram como se o dia fosse noite
e só tu cuidas delas
poisa a pomba na cruz
e só tu deixas-te ir
teu sorriso de criança
deu -me o dia antes da noite
teu olhar sem dor
deu-me a manhã antes do dia
esqueço a hora que partes
descanso meu corpo no teu
canta o beija-flor
e o dia é ontem todo o dia
desde ontem

10 Setembro, 2011

seja a ausencia, desejo
que cresce na ausencia
amor que nos desperta

06 Setembro, 2011

abraço a incerteza
nada sei além deste instante

que respiro
fossem os deuses homens

e a hora seria amanhã
fossem os homens deuses

e a vida seria agora.

04 Setembro, 2011

Dançam borboletas na paisagem verde
Adormece a leoa coberta com amor
Vive a vida a hora, sem pressa 
Morna, suada, preguiçosa.

Calam silenciosas as pedras
Montanha que nos alcança
Voam gaivotas, nasce outra flor
A noite se alonga no amanhecer

CIGARRA

Enquanto chora, canta
Enquanto dorme, acorda 
Solitária, descobre-se

o vinho escorrega
pela garganta
aqueçe o corpo
descobre o ventre

encontra a Besta
o Anjo com sede
amor adiado
Desço ao abismo
entre o paraíso e o inferno
existo

28 Agosto, 2011

No mar revolto
sobrevive o peixe,
se esperar quieto
que a ira passe

26 Agosto, 2011

Fosse o intervalo
um instante prolongado
do teu sorriso em alto mar
No horizonte longínquo
canta sem medo
meu coração
no teu corpo silencioso
amor que se reiventa
sem pressa
no menino que agora nasce

16 Agosto, 2011

A terra não é redonda, tem a forma de melão, com muitas pevides por dentro...

Foi assim que acabei de ler o poema, com meu pai ditando a forma de vida. Ali, onde tudo parecia ser tão simples. O melão tem na mesma planta, flores machos e fémea. Por isso ela pode se auto-fecundar. Acho que foi assim que Deus espalhou homens e mulheres pela terra.
A terra é redonda e dentro dela mora o vazio, tranquilo sereno onde nada acontece e deixa em aberto tudo o que há-de ser, respondi teimosa.
Tenho um metrónomo ao lado do computador que me vigia o compasso da emoção. Assim se meu texto desliza pela tristeza perde o tempo binário e me alerta que o tempo só existe se o meu texto sorrir.
No meu aniversário pais, irmãos, filhos, sobrinhos e companheiro juntaram-se e compraram o metrónomo da emoção.
Tentei avisar a minha família que o metrónomo só me iria fazer mal. Mas a família estava preocupada com o destino da minha poesia. A tristeza dominava o tom da escrita, o metrónomo iria ensinar-me o compasso da felicidade.
O meu metrónomo não me deixa chorar, nem quando ameaço a lágrima ele se comove. Avisa descontrolado que o compasso da vida é outro.
Para acompanhar o tempo da felicidade, tentei adaptar o texto e rosa passou a rimar prosa.
Desde então os meus dias são em allegro, 120 batidas por minuto, em cada meio segundo um sorriso. Sereno ou desenfredao - sorriso. Tic, tac.

Se o metrónomo fosse mecânico eu teria tirado a haste e no lugar dela a ausência definiria a eterna pausa, num compasso desconhecido.
Sem alento fui em busca da pilha, mas o metrónomo digital requer um especialista. Na loja pedi um metrónomo que só medisse o tempo, sem comentários extras.
O rapaz que me atendeu respondeu-me:

- Mas isso é um relógio…
- Não quero nada que meça a hora. Quero um metrómono da emoção porque meu pai está preocupado com o destino da minha escrita
- Mas o seu é excelente. O mais caro da loja..
- Então troque-o por um que esteja avariado e se contente com o tic, tac apenas, em vários BPM.
- Como quiser, mas quem vai lucrar é o gerente
- Dê-me um chinês. Bem parecido na forma, mas que não funcione.
- Desculpe a pergunta, mas porquê se desfaz de uma peça tão cara?
- Este metronomo não me deixa ser feliz…
- Ahhhh, hmmm, okok. Aqui tem este bem avariado.
- Obrigada.

A caminho de casa meu coração encontrou o caminho e chorou. Depois riu.
Tic, tac, clic. Tic, tac, tac, Clic.

Quando não se dá conta

Há quem me peça que não escreva com tanta dor.  
Há quem me peça que os ais sejam os uis de quem ri.  
Há quem me peça que faça de conta, porque quem não se dá conta,  não sofre nem geme. 
Enquanto escrevo, sorrio na descoberta do fim.
Depois de hibernar, vem a vontade de voar. No céu encontro o ar, no mar me encontro - sereia. 
Entre, é o meu destino próximo. Sono longo, onde nada foi dito ou ouvido. 
Intervalo presente - liberdade. 

14 Agosto, 2011

AMANTE


Limou as arestas, limpou o pó. Do que restou, ficou com o vermelho da paixão.
Ela é a sombra que não me acompanha e rouba a parte de mim que sonha.
Deixou comigo a dor da ausência.
Com um sorriso generoso ocupou meu lugar. Roubou meus gemidos na cama.
Inventou a tormenta quando ouviu a promessa amor eterno.
Deu-me de volta a fadiga de vida.

11 Agosto, 2011

Quando nasceu dei-lhe a mão,
Devagar toquei cada um dos seus pequenos dedos,
tentando que os meus se encaixassem nos dele.
Se o desejo fosse, só por si, suficiente,
todas as crianças do mundo seriam felizes.
Dor que trago agora no peito, tão escondido que mal posso suportar.
A violência fechada e tumultuada nas ruas, entre torpedos de ira.
Bolas de sabão que se multiplicam no abandono de uma nova civilização.
Sofrimento que invade meu corpo, pela tristeza
De todos os seres que se traiem na existência
Por tudo lhes ter sido negado à nascença.
Se o desejo fosse, só por si suficiente,
nenhuma criança morreria à fome
Teriam por sofrimento único
a ignorância do não sofrimento.

25 Julho, 2011

Uns crescem estrelas, outros viram sapos
O eucalipto nasce de uma bola pequena
Há quem ganhe a forma de uma mulher.

Entre a galinha e o ovo,
aos que a sorte foi companheira,
nascem com tempo até morrer
Mudam de forma até envelhecer.
Aos que a sorte foi inimiga,
nascem com fome e morrem com ela
Mudam de forma antes de envelhecer.

No intervalo da nossa existência,
testemunhamos a vida.

21 Julho, 2011

Mulher

fosse ela de pedra
seria teu amor esculpido
em cada um dos teus beijos
fosse ela eterna
de pedra seria
teu amor perdido
em cada despedida

Ah, se ela fosse a noiva
que te senta ao colo
e abriga teu corpo
sem medo
serias o jovem poeta,
feliz com a  descoberta.

TORMENTA

se eu soubesse
deixar explodir
tudo o que eu não sei
e sequer
dou conta que sinto
meu corpo caia
sem peso
no peso do teu
fossem as estrelas
a luz de cada abraço
esquecido pelo caminho
teus doces lábios
nos meus
vazio que anseio
tormenta diária

10 Julho, 2011

Se eu soubesse escrever a palavra que começasse da direita para a esquerda, de baixo para cima e do avesso para o direito, ela teria as letras e outras que desconheço, da palavra MARAVILHA.
Se no verso, eu soubesse o reverso eu me perderia no canto e soletraria AMOR.
Peço-te desculpas, porque em ti ganhei o vício de ler e reler
até que eu deixe de existir.

05 Julho, 2011

Hoje a palavra é um excesso indesejado.
No meu silêncio existe uma resposta amiga, generosa e compassiva.

Quando o meu inverno se for, serei de novo a primavera.
É assim a natureza.
não andei de camelo,
banhei-me no mar egeu
e fui tida como turca

Ao verbo respondi
com um sorriso
desconcertados
devolveram-me outro

em Londres, calei a fala
em Bodrum, inventei o silêncio
dona e senhora
da palavra esquecida
nunca pronunciada

entre turcos e ingleses
balbuciei a existência

no regresso
dei-te um beijo
em pensamento
ainda não deste por ele

12 Junho, 2011

Quando ele navegou nela,
naufragou o medo,
salvou a esperança
de boa vizinhança.

Na manhã seguinte,
o sol descobriu a manhã

no baixo-ventre dela

09 Junho, 2011







se eu adormecer
no teu corpo
deixa-me estar
até que eu saiba ouvir
o som longe da brisa
que vem do mar

quando meu corpo 
se perder no teu 
abraça-o até que ele 
saiba despertar 
noutro lugar 

beija agora 
meus lábios 
sem descanso 
enquanto falamos

06 Junho, 2011

na tua boca molhada, 
beijo a vontade de liberdade.
com o sol de cada manhã,
beijo teu beijo até anoitecer
e se o rouxinol cantar
direi a ele que esse beijo
é nosso até o amanhecer

não pergunto

em cada palavra inventada
sinto
em cada toque imaginado
sinto
em cada beijo sonhado
sinto
em cada um dos teus ais
sinto
em cada intervalo
sinto
quando dormes e acordas
sinto

o sopro suave da tua voz
o teu corpo no meu corpo
teu olhar no meu
sinto, poeta
não pergunto

20 Maio, 2011

fosses tu
o meu desejo
eu seria o compasso
em que respiras

em cada beijo
um sopro suave
feito da vontade
de outro beijo

fosses tu
o meu desejo
eu seria o vazio
que se completa

fosses tu
quem eu sou agora
um corpo suado
molhado, em ti

foz de um novo rio.

13 Maio, 2011

Deixa que o rio se estreite. Conta-me tudo, sem pressa. Conta-me o resto.As casas decimais estão sempre a fugir.esquece a vírgula,  coloca outro zero. as contas nunca se acertam. Deixa-me agora descansar nesse teu estar. Devagar, estar em ti. No cheiro que adormece preguiçoso em teu corpo, Deixa-me estar entre a vontade e o desejo de continuar a estar. Deixa-me agora, que durmo  em silêncio enquanto me esqueço...

02 Maio, 2011

Benjamin

Na partida, Benjamin avisou-me que teríamos de fazer uma paragem. Perguntei onde e porquê, mas Benjamin pediu-me paciência.

- Há coisas que não se explicam, Hannah...

O nosso destino era vago:  alcançarmos o Extremo Oriente. Vi homens baixos, vi outros tão altos que mal lhes reconheci o contorno da cabeça. Dormi debaixo de árvores gigantes que me abrigaram nas noites chuvosas. Sem pressa, deixei que o corpo se adaptasse ao calor húmido da floresta e ao ar rarefeito das montanhas. Acompanhei o sol, e a noite foi sendo sempre noite no meu corpo viajante. Alguns dos nossos companheiros ficaram em Goa, outros seguiram caminho para oeste. Eu e Benjamin, continuámos a caminhar par
a leste.

Benjamin acordou cedo. Retirou da mochila um pião rendado, em prata.
- O que é isso, Ben?
- É a encomenda que tenho de entregar...
Já tinha esquecido. Há tantos meses a viajar, só agora dei conta que o meu amigo limpava a peça todas as manhãs.

Lembro-me do pião que o meu pai me deu, num passe de mágica rodopiava, ganhava velocidade. Da pequena peça de madeira só vislumbrava o tempo que voava. Uma bruma fina envolvia o brinquedo que parecia imóvel, centrado em si mesmo. Depois, cansado, cambaleava como se estivesse bêbado, acabando por cair tombado de lado.

Memórias que o tempo roubou e tu, Benjamin acabas de me devolver.
- Ben, lembras do dreidel*?
- Em cada face uma letra do alfabeto hebraico: Nun, Gimmel, Heh and Shin...
- "Nes Gadol Hayah Sham" ("Um grande Milagre Aconteceu")...

Benjamin é meu amigo infância. Na escola aprendemos a ler, cantámos as letras do alfabeto hebraico, uma a uma a formarem palavras encantadas. Na escola, cantou comigo no Pessah* - Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot? (Porque esta noite não é em nada igual a todas as outras noites?).

- Lembras, Ben? Hailala hazé...

Depois da escola primária, mudei de cidade, cresci longe de Ben. O yiddish foi sendo esquecido e do hebraico só sei escrever o meu nome: הַנְנַה
Um pequeno pião de prata lembrou-me criança.
- Isto é um pião estranho, Ben...
Benjamin sorriu.
- Nem tudo que parece é, Hannah.

Continuámos a viajar, agora junto ao mar. Em cada aldeia, um novo peixe. Nossa pele mudou de cor. Meu corpo salgou no corpo de Benjamin. Semente de um novo amor.
- Por onde me levas, Ben?
Silencioso, Benjamin calava meus lábios na sua boca sempre entreaberta.
À  noite casavamos as nossas vontades. De manhã, ríamos delas.
- Para onde vamos, Ben?
- Sempre a oriente, Hannah...
Quando o corpo está apaixonado pede o corpo do amado. Sem ele, parece morrer. Com ele encontra a morte, feliz, num breve e longo instante.

O dia encontrava a noite. A noite amanhecia. Benjamin, todas as manhãs, delicadamente limpava o pião de prata. Quinze minutos diários, focados na renda fina.
- Que pião é esse, Ben?
- Em breve, Hannah, vais saber. Quando a hora for hora...
Benjamin nunca teve pressa com nada. Quando dança, rodopia, sempre centrado no eixo. Quando pára, tomba devagar.

Um longo abraço marcou o reencontro com Leo, nosso companheiro de viagem.
- Como vieste aqui parar, se seguiste para ocidente? - perguntei
- Fiz um desvio e outro, pelo caminho. Perdi-me, encontrei-me. Entre um e outro, parei...
Os meus amigos sempre foram assim. Entre o sim e o não … existem.

Com Leo, fomos ficando na aldeia à beira-mar. De madrugada, acordavam e partiam com os pescadores. À tarde, regressavam com o jantar. Cansado Ben, salgava meu corpo, lentamente.

- Está na hora de partir, Hannah...
- Quando?
- Amanhã. Não leves nada contigo, a não ser a roupa que trazes vestida. Uma mochila leve, com um pequeno agasalho...
- Mas o que faço com o resto?
- Dá a quem precisa, Hannah. Alivia o peso. Não precisas de mais nada, senão do teu corpo leve.
Contrariada, deixei minha mala de viagem. Nela, meus sapatos novos, livros e roupas usadas. Enrolei meu diário velho no casaco que guardei na mochila.
- Hannah, o que viveste está desenhado no teu corpo...
- Tenho medo de esquecer, Ben.
Nessa noite, adormecemos abraçados. Senti seu coração, ritmado com o meu. Um ar morno, manso, viajou entre as nossas bocas.
Antes do sol nascer, despedimo-nos de Leo. Um abraço prolongado, silencioso, marcou o nosso adeus.

Antes, Ben afagou de novo o pião. Desta vez, enrolou-o cuidadosamente num longo pano de linho branco. Deu voltas e voltas, até que o pião deixasse de ser a peça de prata rendada e não fosse mais que uma trouxa de pano. Em seguida, guardou-o na sua velha mochila.
- É esta a tua única bagagem, querido?
- Sim, Hannah...
Sei quando Ben não quer falar. Aprendi com ele a gostar de cada intervalo pausado, dar espaço a todos ruídos, encontrar o som do vento, identificar o canto diferenciado de cada pássaro, ou simplesmente ouvir o som mudo do silêncio que se alonga no outro.

Caminhámos calados, passo a passo, entre aldeias. Caminhámos de mãos dadas, sem nunca nos tocarmos. Ben seguia ao meu lado, tranquilo. Uma paz estranha tomou conta de mim.
Poucas semanas antes, soube do falecimento da minha avó. Meu coração ficou pequeno. Apertado, encontrou a dor. Chorei de mansinho, junto com a noite - toda a noite. De manhã entreguei ao mar a saudade que sinto dela. Desembocou no oceano, espalhou-se por todos os mares, encontrou outras águas, doces e salgadas, irrigou o campo, semeou a terra. Até já, avó.

O sol disse adeus antes do anoitecer.
- Vamos descansar. Ainda temos umas horas de caminho.
Ben sentou-se em cima de um pedaço de pedra. Eu sentei-me no chão, junto a ele. Com a cabeça em seu colo adormeci.
- Acorda, Hannah. Temos de seguir...
Em que instante mudamos? Uma dor estranha aparece no peito, como uma flor que desabrocha, a mesma que nos acolhe quando nascemos. Quantas vezes mudamos, antes de morrermos?

Quanto mais rápido rodopia o pião, mais imóvel parece ao nosso olhar.
- Ben, para onde nos levas? - perguntou meu coração baixinho. Uma nova flor desabrochava em meu peito.
- Para um lugar sem nome, que te acolhe sem nada te perguntar. - respondeu-me, sem falar.
Já passava da meia-noite quando chegámos a esse lugar, que nada pergunta, nem quer saber. Onde a lua nasce e volta a nascer, todas as noites. Dia após dia.

Não me lembro se vi alguém. A aldeia é pequena. O chão de terra batida, vermelho. As casas pequenas, brancas. Em todas, chega-se à sala depois de descermos três degraus. Parece que nunca saímos do mesmo lugar. Como o pião, veloz. Imóvel.

Benjamin entrou em três casas. De cada uma trouxe uma coisa. Na primeira, um cobertor, na segunda duas tigelas de arroz, na terceira ervas para o chá. Convidou-me a entrar na quarta casa da vila.
- Descansa agora, Hannah. Vou ter de sair.

Quieta, vi Benjamin abrir a mochila, e tirar a trouxa branca de linho. Antes de sair, abraçou-me carinhosamente. Calou meus anseios em seus lábios. Doce, cantou baixinho, Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot...
- Até já, pequena Hannah...

Cansada, adormeci sem nada questionar. Meu corpo colava ao colchão de algodão. Um tapete vermelho, cobria o chão do ar fresco da noite. No ar, o cheiro da madrugada. Meu corpo cansado, fugia da dor anunciada. Não me lembro da cor do céu. Sei das estrelas a dançar de par em par. Não me lembro de nada até aquela manhã, quando acordei quase sem ar. Uma flor nascia no ventre, teimava em desabrochar. Com medo, eu não permitia.
Saí de casa, apressada.

- Ben, qual foi a casa que te abrigou nesta noite que não regressaste ao corpo da mulher amada?
Como resposta, um silêncio profundo pesou no meu corpo.
- Ben! - perguntei sem descanso, numa terra que nada questionava, sequer se importava em saber a resposta.

Uma nuvem branca, saía da chaminé da casa que nos deu de comer: a casa do meio.
Corri, sem pensar. Em algum lugar do meu ser, eu sabia a resposta. Essa que adivinhei desde o primeiro dia da nossa viagem. Alcançar o extremo oriente, era o nosso destino.

Onde fica o extremo do nada? Caminhámos, sem destino sabendo dele, desde que partimos. Onde fica a chegada, se não existe o fim? Se nada existe, explica-me esta dor que dilareça o meu peito, Ben!

A casa tinha a porta aberta. Três degraus levam o visitante à sala. Cheira ao ar manso, morno da boca de Ben. O vento entra e faz rodar um pião de prata rendada. O pião espalha pelo ar, um pó branco, fino, formando uma nuvem branca, por toda a sala. A mesma que vi sair da chaminé.
Aspiro o ar.  “Nes Gadol Hayah Sham”

- Ben! - meus olhos choram, meu corpo treme entre a alegria e a tristeza, canto:

Esperei-te em silêncio,
num recanto qualquer
da minha existência
Esperei sem descanso
tantos abraços dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida
fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam
Divino é o pó
em que tornas ao mundo
na terra, no ar, nos oceanos
Multiplicas-te em todos
em cada um

Esperei-te em silêncio
num recanto qualquer
No meu corpo salgado

Estás em tudo e em todos
Eterno é o teu descanso
Até sempre, Benjamin.


* Dreidel - (Yiddish; sevivon em hebraico) é um pequeno pião quadrado comumente dados as crianças durante Hanukkah (festa que dura oito dias e comemora a reedificacão do templo de Jerusalem feita por Judas Macabeu).

* Pessach -  também conhecida como Páscoa judaica celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme narrado no livro de Shemot (Êxodo).

30 Abril, 2011

Esperei-te em silêncio, num recanto qualquer da minha existência.
Esperei sem descanso,tua  visita sempre adiada.
Esperei, sem dar conta da hora. Mas tu não vieste.

Faz-me acreditar que o tempo não existe.
Cala os meus lábios nos teus.

Lembrança

tantos abraços dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida

fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam

amor que agora sinto
um dia, tão longe, pó
no corpo, lembrança

27 Abril, 2011

Juras de amor

em cada beijo trocado
teu corpo embriagado
compasso binário
meu corpo no teu
eterna é a pausa
quando chega a primavera
desabrocha a flor, o beija -flor

espalha o polen, a borboleta

encontra a noite o amanhecer

ama sem tento, com intento

semeia meu corpo manso.

26 Abril, 2011

quando o nosso olhar
vazio, procurar o tempo
serei tua noite quente

estarei contigo na despedida
no despertar, entre o que sou

25 Abril, 2011

BRISA DE OESTE - Pintura de João Serrano

Deixa-me voltar atrás. Prometeste-me a brisa de oeste. Abriste a janela. Deixaste entrar o vento e com ele o resto. Prometeste-me a maresia, odor ausente. Salgado. 
Tuas mãos pintaram a cor... no meu corpo febril.
Prometeste-me a brisa, abriste a janela … vento de oeste, maresia perdida.
Tuas mãos azuis no meu corpo vermelho. 
 Devolve-me o branco antes que eu aconteça!

22 Abril, 2011

ROTINA

Adriano chegou ontem mais cedo. Fiquei perturbada com a mudança. A rotina era chegar sempre mais tarde. Nunca conseguíamos jantar antes das nove e meia. Teimosa colocava a mesa sempre às oito - esperança vã.
Ainda não são sete da noite e Adriano já está em casa.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não - responde-me, sorridente.
Meu coração dispara. Se ele está assim é porque aconteceu mesmo alguma coisa e não me quer contar. Disfarço o medo.
- Tens fome? Ainda não tenho jantar feito. Sempre chegas tarde. Logo hoje que me atraso, tu adiantas-te...
- Querida, está tudo bem. Queres ir jantar fora?
Meu corpo treme de raiva. Como pode ele convidar-me assim do nada. Nunca o fez em mais de uma decada de casamento. Nem antes, quando namorávamos.
- Queres jantar fora, amor?
- Adriano, por favor, diz-me. O que se passa?
Franze o sobrolho, começa a ficar zangado. Vira-me as costas. Vai para o quarto e regressa de pijama.
- Faltam-te as pantufas, não vês que estás descalço?
Sem responder, senta-se em frente à televisão. Devagar despe a camisa, em seguida as calças. Sem expressão pergunta-me:
- O que falta agora?
Fujo para a cozinha. Assim nem às dez jantamos!
É sempre a mesma coisa. Detesto a rotina.

14 Abril, 2011

MARESIA

Vem de oeste o vento
maresia
doce vontade de continuar


Ama sem nunca acabar de amar
Invade o corpo sem pressa
Intervalo que prolonga a vida


Vem de oeste o vento
tudo traz sem nada ter
momento desperto - vazio

31 Março, 2011

AUGUSTO

Augusto acordou com um peso estranho na cabeça. A noite tinha corrido sem tempo medido – escura. Melancólica. Nauseado  levou  a mão à boca  numa tentativa frustrada para conter as tripas revoltas. Limpas as vísceras, resta um cheiro desobediente que invade toda existência.  Se conseguisse lembrar como é a primavera talvez aliviasse este presente fétido. Há momentos em que a memória inventa o passado, traindo a verdade do sofrimento. Como inventar a dignidade se ela fugiu sem avisar da partida?

Augusto forra o colchão com os últimos lençóis limpos. Um branco fingido veste a cama. Algumas nódoas fazem prova das noites descuidadas. Mesmo que tingisse de preto não conseguiria disfarçar o passado. E preto, nem pensar! Passaria a noite acordado com um medo de morte. Na mesa de cabeceira improvisada repousa um cinzeiro imundo. Nenhum candeeiro resistiu às quedas diárias. No tecto uma lâmpada mal ilumina o chão gasto, disfarçando a poeira acumulada de anos. Um móvel de estilo rococó, encontrado no lixo, arruma o que resta da vida deste homem cansado.

Em pé recorda as noites felizes vividas naqueles lençóis. Uma lágrima tímida dança em seu rosto. Quem inventou que a felicidade não magoa? Assim são as tempestades, furacões, terramotos, tsunamis. Belos quadros recheados de dor.


Deitado quer sonhar, ocupar o tempo que resta entre hoje e amanhã.
Augusto lembra-se do rio que banhava o terreno da casa dos pais. Nem sempre acolhia o obstáculo. Às vezes sem força dividia-se em dois. Tantas vezes Augusto fugiu da dor que dividiu-se em pedaços cada vez mais fracos. De costas encontra o tecto. De bruços encontra o cheiro das penas de um travesseiro antigo.
Longe vai o tempo das caminhadas em Sintra. Qual era o caminho que o distanciava do abismo? Fosse ele qual fosse Augusto o desprezou.

Torturado leva a mão a cabeça. É aí que dói. Nesta ferida que não pára de abrir. Entretido Augusto pesquisa cada saliência. Um líquido desconhecido molha seus dedos. Em  criança bastava o leite para alimentar a fome. Depois aprendeu a ler e saciou a curiosidade de outras vidas. Foi temperando o pensamento de condimentos sofisticados.

Talvez o corpo estivesse expulsando o excesso. Esperança de uma nova vida – que seja drenado o pântano. Augusto procura seu canivete – presente da mulher que o amou um dia. Leva devagar, com cuidado a lâmina à ferida. Sem hesitar vai abrindo a cabeça como se construísse um caminho. Doía mas Augusto não sofria, tal era a esperança de um ser renovado.

O sangue banhou a cama. Majestoso, partiu sem dizer adeus.