28/09/2014

invernar

O desalento talvez não seja senão descoberta, o outono a minha estação, desde então.
Perguntam-me se ainda falo de ti e descubro o tamanho do meu cansaço. Tenho a certeza que não, não falo de ti, nem das asas que tens tatuadas nas costas e atravessam o teu tronco até ao coração. A montanha prepara-se para receber a neve, o pastor veste a pele do animal que matou porque o frio pede calor. As andorinhas batem asas para invernar em África. A farinha está fina porque foi encontrada a cadência do grão. Com azeite amassaremos o pão. Azul seremos todos, malha que não se desfia, fio que não se descobre a origem. Linho que nos veste o corpo e as velas da nossa embarcação. O nosso destino - além. As asas, as tuas asas. O que fazes com elas?

mandala

o saber ocupa lugar

aladin

quem tirou o tapete dos meus pés?

escada

escada, degraus, grão, irmão

...

As contas que Deus fez

teias

Dizem que ela tece o mar quando se perde em busca do ar. Dizem que sente a teia a nascer quando tudo parece morrer. Dizem

zapping

Desligou a tv, fechou os olhos e quando os voltou a abrir olhou para ela e disse:
- tenho o meu coração partido.
Ela fixou o olhar no computador e respondeu:
- temos todos.
Ligou a tv, quase sem som, deixou-se dormir. 
No zapping pelo Facebook a outra esmoreceu.
Ela e a outra, procuram quem lhes ocupe o lugar vago na poltrona da sala.

grão

Será preguiça esse estado dormente que se espalha no corpo? 
O sono tem sido breve. Acordo às 4h30 com dor de cabeça. Culpo a cama e o travesseiro. 
Às dez, em frente ao computador, adormeço. Às onze, perguntam-me o que vai ser o almoço e eu respondo, tentando ser delicada. O que me importa o almoço se eu tenho sono? 
Penso em ti uma vez por outra. Fazes parte das peças que desenham o cenário. Nunca acreditei que morresses. 
Se ao menos eu dormisse! 
Lembras-te do relógio que desarmei presumindo que ia entender a engrenagem? Ficaste silencioso à espera que eu o montasse de novo. Pedi que tivesses calma e que não te preocupasses. Algumas peças ficaram em cima da mesa de cabeceira e o relógio nunca mais acertou a hora.
Agora, eu e os outros sobramos e tu fazes falta.
Para o almoço, pode ser uma sopa de grão?

pardais

Toco a campainha, abres a porta e esperas que eu encontre ânimo para subir as escadas. Recebes-me com um sorriso e um beijo. Tens a mão direita carregada de migalhas. São para os pardais, dizes. Esperam por ti todas as tardes no parapeito da janela da sala de jantar.
Ontem estive com Pedro. Lembras-te dele? Disse-me que tinha aprendido o ofício de carpinteiro. Perguntei-lhe se seria capaz de fazer-me uma escada. Mostrei-lhe a que o Toino usou para pintar a fachada do prédio do avô. Quero uma muito maior. Tem de chegar ao céu e ao fundo do mar.
Ris divertido. Perguntas-me para que preciso de uma escada de tal tamanho se na de casa, com pouco mais de três lances, subo-a com dificuldade.
- Vou atravessar as nuvens! Quero ver o mundo de cima e se possível do fundo do mar.
- Vais precisar de um escafandro e de uma garrafa de oxigénio.
- Não boicotes o meu sonho. Achas que o Pedro consegue fazer a escada?
- Não me parece.
- Porque?
- Se o nome dele fosse José, talvez...
Os pardais batem no vidro da janela. Perguntas-me se te acompanho. Ainda que amuada, respondo que sim.
Faltou-me a vontade e o escafandro. A escada mal chega ao teto.
Tu moras agora em parte incerta.
Por onde andam os pardais?

sem nome

Não tem a saudade forma que a expresse ou defina. Quando acho que descansa, reaparece voluntariosa. Se não lhe dou atenção, reclama. Se pelo contrário nela reparo, encontra-me no corpo lugares que desconheço. Um tom diverso que cresce no peito, sem nome.

dá Deus linhas a quem não sabe desenhar



02/08/2014

luto

Tento encontrar um lugar recatado para poder te chorar, 
mas as crianças mortas são às centenas e fazem do meu pranto revolta. 
Dobrei-te um passarinho na despedida, porque partias dentro do tempo, 
mas os meus dedos ficam pequenos quando a morte é chacina. 
Mora na minha infância a memória dos massacres 
dos meus familiares nos campos de concentração. 
Tento encontrar em vão a ilha que desenhaste. 

Entre destroços, entre vidas roubadas
Soberbo é o homem que se faz de surdo.

08/06/2014

beijo

Vou ter contigo amanhã
apanho o primeiro barco
enquanto tomas café
atravesso o Tejo
encontro Lisboa
subo a pé o Chiado
espero pelo teu beijo
se achares por bem que sim
eu te direi sem hesitar que sim
que neste sim adiado
ele viaje de elétrico
por toda a cidade
e traga na volta a vontade
que se demore no tráfego
se não for amanhã
será na segunda-feira
ou na próxima semana
talvez nas tuas férias
se for no Inverno
não esqueças o casaco
que antes do beijo
quero um abraço.
amanhã, se chover
não posso
fico em casa
não tenho pressa

sei que este beijo
nasceu predestinado.

09/05/2014

afogado

Não peças ao afogado que nade com estilo, espera antes que cansado da luta mergulhe a cabeça na água até que inchado o seu corpo ceda.
Foge enquanto tens chão. Esconde a miséria que se hospeda na tua casa. Mente, porque é a única coisa que te sustenta. O mundo é vadio e tu precisas de te sentir seguro.

Estranha máquina que agora velha abre brechas e deixa que o ar se escape.

27/04/2014

andorinhas na primavera

Por aqui sonham os velhos, porque os jovens partem e fogem do nada que nos embriaga.
Procuro em ti a razão da tormenta, porque em cada despedida há um pedaço meu que (se) parte.
Cansa-me a ficção quando abro a carteira e tenho de escolher entre a bica e o pão.
Há um vale de margaridas e eu penso no desperdício da terra que devia ser semeada com o trigo, porque não vejo senão as barrigas que crescem com a fome.
Por aqui, desiste-se e eu lembro-me de ti que partiste antes do fim.
Não há beleza que se instale porque a dor da derrota é maior.
Entre a bica e o pão, conto o tostão. Hoje não há escolha a fazer senão abrir a mão.
Que haja alguém que junte ambas e reze pelo bem dos que ainda dormem.
Fala-me da primavera que hoje o dia está manso.
Ainda não vi as andorinhas, nem as gaivotas no mar.

25 de abril de 2014

As ruas vestem-se de cabeças brancas 
que outra espécie de gente não se vê 
“E tudo estará certo e
Toda a espécie de coisas estarão certas”, diz Elliot
No lamento surdo em busca do pão
os cravos roubam o lugar das alfaces
Em contratempo ao tempo de antes
A utopia é coisa estranha 
keep on pushing the sky away.

sede

Há homens que constroem calçadas pontiagudas, na esperança de que das costelas dos vagabundos nasça a sabedoria. 
Há homens sem rosto, com gosto de mofo de quem não se espera nada, senão o oposto.

Um homem nada, entre o rio e o mar, em busca do limite. Cansado do tempo, desiste.
O presente pede ao passado que o represente. Não há quem o habite.

A água que mata o peixe salva o homem da sede.

manifestação

Desfilámos na avenida
e eu gritei contigo
fascismo nunca mais
roubei-te um beijo
segredei na tua boca 
o povo unido jamais será vencido

chorei o acaso
amei-te na derrota
que a esperança não era morta
nem a vida, alheia

na despedida, prometi resistir

No poder reina a ganância
Uma gralha ri de ti
Prometes e desistes
Rumba la rumba la rumba la

Deixaste a vontade dormir
Tal a preguiça de existir
Prometes e desistes
Rumba la rumba la rumba la

Abre as asas, dança
Ama sem pudor
Rumba la rumba la rumba la

Prometemos resistir!

gratidão

ele pediu um cigarro. ela respondeu que só lhe dava um bolo. ele virou costas. ela praguejou contra o orgulho do pedinte.
ela foi selecionada para o trabalho. ele sorriu e celebrou a sorte de oferecer um estágio não remunerado. ela disse que não. ele irritou-se com a altivez da candidata ao cargo.
eles comem a sopa numa tigela improvisada. um diz que não e quem dá, ofende-se com a raiva do esfomeado.

há quem aconselhe a quem não tem casa - higiene.
há quem acuse o povo do mal que o assiste.
há quem pergunte por onde anda a gratidão dos ingratos.

há quem se esqueça.

16/03/2014

por onde andei?

“(...) Pois nós somos de ontem, e nada sabemos, Porque os nossos dias sobre a terra são uma sombra (...)”
Jó 8:8-14

Na gaveta da cómoda vive a natureza do que fui.
Sou de ontem e nada sei...
Nada aprendi com os meus pais, nada ensinei aos meus filhos.
Pecadora, amei sem nunca dar conta do quanto odiei.
Sou de ontem e nada sei...
Por onde andei?

Um povo sem memória é como a lapa que se agarra à rocha. Por dentro mole.



09/02/2014

liberdade

Em dias de tempestade o corpo pode vergar
Espera que adormeça a tormenta e respira
Será no silêncio que se prolonga em cada
palavra esquecida que abraçarás a liberdade.



03/02/2014

ainda é cedo

vou te dar a mão e só a largo quando for dia | amanhã é cedo, dizem que vai estar de chuva | espera que chegue o verão | damos um mergulho antes da despedida | até lá, não deixes que o tempo nos atravesse | antes que chegue a primavera | um caldo verde de madrugada | um pão quente às cinco da manhã | abriu uma padaria na nossa rua | de manhã atravessamos a ponte de comboio | tiras uma foto ao Tejo em cada ‘V’ | regressamos no cacilheiro da Trafaria | Lisboa afinal é tão perto | há águas-vivas que não se decidem onde morar | se no rio ou no mar | quando os jacarandás estiverem floridos | descemos a avenida e a tua mão vai me abraçar | amanhã é cedo | espera | há ondas na marginal.
até que seja dia | talvez amanhã.



19/01/2014

tarde demais

Tarde demais

Hoje foi o meu primeiro dia no Centro de reeducação para a preservação dos bons costumes. Desde que descobriram que dormia num quarto e meu companheiro noutro, fui colocada no programa. As tias de Cleo, também lá estão, mas essas é porque dormiam juntas.
Alfredo, o meu ‘reeducador’ disse-me que eu sofro de graves desvios comportamentais.
- No Natal do ano passado, usou uma árvore da felicidade em vez de um pinheiro. Os enfeites eram pássaros de origami e não havia presépio…
- ...
- Desde quando dormem em quartos separados?
- Desde sempre. Tenho insónias e não quero incomodar o meu companheiro…
- Quer dizer marido…
- Não estou casada com o Flávio. Vivemos juntos há 20 anos.
- Deverá casar-se ainda este mês. Vou marcar a igreja
- Sou judia…
- Terá de se converter. Não há nada pior que um judeu, um negro, um cigano e um homossexual.
Alfredo é um jovem esguio, com pouco mais de 21 anos. Louro, disfarça a idade com um bigode farto. Tenho vontade de perguntar como veio aqui parar, mas desisto mal vejo Isabela e Antonia passarem pelo corredor algemadas.
- Aquelas fufas!
Durante muitos anos as mães de Cleo foram conhecidas por serem suas tias. Duas senhoras discretas.
- Duas santas mulheres que adotaram a menina, dizia o pároco.
Cleo foi colocada num orfanato para meninas educadas por lésbicas. Isabela e e Antonia estão presas.
- Onde está Flávio?
- Não sei dele há mais de um mês.
- Será julgado a revelia.
Olho para aquele garoto com cara de anjo e pergunto-me como foi possível chegarmos a isto. Quando nasci, meu pai falava que o amor era livre. Deixei de entender a classificação que fazem. Cada vez mais apertada, cada vez mais segmentada. O governo diz acreditar que todo o ser humano pode ser recuperado. Assim há programas de acordo com cada demência. Meu pai avisou-me que deveria ter cuidado. Aconselhou-me a cobrir o corpo de preto, usar chapéu e esconder a minha cabeça ruiva. Que não me esquecesse de usar um crucifixo no peito.
- Mas és tu que me dizes isso, pai?
- Olha a tempestade! O céu está coberto de nuvens pretas.
Flávio pediu-me que fugisse com ele, mas eu pensava em Fernando. Como explicar ao nosso filho que o que fazíamos era errado. Fugirmos do que?
- Mãe, quando Cleo contou que as tias eram mães, o professor de religião expulsou-a da sala aos gritos. Vai-te embora satanás. A ti caberá um lugar no limbo!
Flávio decidiu partir nessa noite. Teimosa, eu insisti que isto não passava de fase má. Com certeza o povo não deixaria que esse horror se instalasse.
- Acorda, Ana!
- Teremos de a deter para um programa intensivo. Seu filho ficará numa instituição.
- Fernando…
- Com ele estarão outras crianças cujos pais tiveram um comportamento semelhante ao seu.  
- Manuela! Podes levar Ana para a ala amarela.

Quando um grupo de deputados se assumiu detentor da moral e bons costumes da nação, entendi. Tarde demais.

15/01/2014

naquele tempo, no teu tempo, como era no teu tempo?

- No teu tempo já havia disto?
Olho para ela sem perceber bem a pergunta. No meu tempo?
Desde pequena que fico aflita quando não sei a resposta ou não entendo a pergunta. Na escola ficava vermelha, enchia a boca com ar como se ele me ajudasse a encontrar uma resposta inteligente.
- Ainda ontem demos isto e já te esqueceste? Qual é nome deste mineral?
A minha professora de Ciências encosta a cara à pedra antes de anunciar o seu nome. Com a mão direita leva-a bem junto ao nariz, cheira-a, rodopia-a junto aos seus olhos para em seguida dizer:
- Quartzo!
O nome não me diz nada, ao contrário do ritual de amor celebrado entre ela e o mineral.
Ontem foi quarta-feira, o meu dia preferido da semana. Ontem foi dia de sessão clássica no cinema Império. Ontem foi dia de descer a avenida de Roma, encontrar a avenida Guerra Junqueiro, atravessar a Alameda, comprar o bilhete do segundo balcão e esperar a cortina abrir. Se ela me perguntasse pelo filme que assisti, como eu estava quando saí do cinema e visse que o filme ainda permanecia em mim, eu saberia responder. Um beijo apaixonado a mostrar que há amores proibidos. As guerras, os homens, as lutas, a fome, a luxúria e de novo e sempre o amor. Se ela me perguntasse como eram os outros dias, eu dizia que eram dias de espera. Que nesse intervalo sonhava e que os filmes me davam vontade de ler. E que os livros me davam vontade de ver outros filmes. E que uns e outros ensinavam-me mais que o diamante e o quartzo.
- Ainda ontem demos isto, Rosa…
Com a cara vermelha insuflada de ar, baixo os olhos e espero que a tortura acabe. Que venha um zero, mas que venha algo além desta ladainha insistente:
- Ainda ontem demos isto...
- Vai-te sentar, Rosa.
Aliviada regresso ao meu lugar. Estou sempre no fundo da sala na esperança de ser esquecida. Nada me apazigua mais do que desenhar nas aulas. Assim o tempo passa por mim sem que seja um sacrifício manter-me acordada.
Sou pequena, sempre fui a mais baixa em todas as turmas. Minha mãe lutou durante alguns anos para que eu crescesse. Procurou médicos, transformando a minha altura num assunto presente da minha vida.
- Can I call you, Mini?
Era assim que o meu professor de inglês me chamava até ao dia em que contei à minha mãe e ela ofendida proibiu-o de fazer.
Nunca me entendi bem com a educação física. A minha cabeça dizia esquerda e era a perna direita que respondia. O mesmo se passava nas aulas de canto coral. Fui proibida de cantar porque segundo a professora eu desafinava. Nos festas, só conseguia dançar Je t’aime moi nom plus, porque meu corpo ficava colado ao do meu parceiro e não era preciso fazer mais nada que não fosse ouvir os gemidos da Jane Birkin.
- No teu tempo já havia disto que há agora?
- Que tempo?
- Ora o teu tempo!
Baixo os olhos e respondo baixinho:
- De que tempo falas?
- Ora, bolas quando eras nova.
- Vi o António das Mortes no Estúdio do Cinema Império. Não te sei dizer se tinha 16 ou 20 anos quando vi o O Último Tango em Paris. O que mudou? O Império é da Igreja Maná.

O meu tempo? Qual é o teu?

11/01/2014

amendoeira em flor

Francisco morreu numa tarde de sol. Na manhã seguinte, Mira pediu-me que tirasse os lençóis do seu enxoval que estavam na última gaveta da cómoda.
- Vê se estão os sete jogos completos...
Quando abri a gaveta, um cheiro intenso de naftalina invadiu o quarto.
- Parece que nunca foram usados, Mira.
- Foram usados uma única vez. O último foi o da nossa primeira noite, até ao primeiro que celebrou o início da nossa vida de casados. Cobre o espelho do corredor e o da casa de banho com as rendas de sal. Faz-me um chá de perpetuas roxas e outro de jasmim e deixa-os repousar. Traz-me o castiçal e as velas. Os fósforos são os que estão na gaveta do móvel da sala.
Durante sete noites, Mira deitou-se num novo lençol e recordou como o corpo gosta de ser amado.
Ao oitavo dia, desfez a cama e com uma tesoura de costura picotou-os pacientemente em dezenas de pequenos retalhos. As noites seguintes foram passadas a casá-los.
- Esta é manta que me vai vestir quando eu partir. O ciclo estará completo.
Mira e Francisco vieram viver para a serra, quando se reformaram. Francisco diz que aqui o tempo é como a sua velhice: molengo.
Acorda às seis da manhã com a ajuda da bicharada - um relógio que nunca se atrasa.
Ninguém se aborrece com os seus passos lentos. A caminhada que outrora fazia em dez minutos demora agora uma hora. Francisco diz que assim pode descansar o olhar no
no sabiá que namora. O amor é sereno. Preguiçoso deixa-se estar feliz com o beijo que não se esquece de abraçar.
A fome é tão reduzida quanto o sono. O mundo fica maior dando a real dimensão do mistério da existência.
Aos fins de semana, Joana visita-os com os netos, antes que eles cresçam e percam a vontade de não de terem pressa. Ana aprende a fazer a tarte de maçã com passas que a avó de Mira ensinou-lhe quando era criança. José sobe na oliveira e diz que do último galho, consegue ver onde acaba o mundo.
Quando a noite chega, Francisco conversa em silêncio com cada estrela. Mira senta-se a seu lado e faz escalas numa caixa de madeira velha.
O corpo acomoda o compasso e relaxa. Aprende a gostar da demora e da palavra devagar. Saboreia-a como se a soletrasse. Cada sílaba pronunciada por dentro com tempo de se fazer acompanhar sem que seja atropelada na língua.
- Avó, o galo canta e o gato reclama!
- Conversas de bichos, Ana.
- Avó, olha o Tareco no ombro do avô!
- O Tareco sabe que já foi pássaro. De vez em quando descansa no ombro do avô, porque o conheceu quando ele era uma amendoeira.
Com os olhos muito abertos Ana desata-se a rir.
- O avô foi uma amendoeira!
Um dia o sol aqueceu o corpo de Francisco e convidou-o a partir. Antes, deixou que ele descansasse o olhar onde a sua vista pudesse alcançar. Então ele viu, sem precisar de subir à oliveira, onde acaba e começa o mundo.

No fim da serra há uma amendoeira que tem sempre flor.

paragem certa

seja onde for que estejas
um dia
quem sabe te encontro
guardei a foto no armário
comprei uma agulha nova
e o teu vinil ecoa pela sala

cresce a poeira na estante
deixo de perguntar por ti

vela a velha o morto
sem esperar o milagre
sem mágoa nem dor
não diz até já

na mão direita a terra
lembra o ciclo da natureza

seja onde for que estejas
moras em parte incerta
até que eu encontre
o meu paradeiro.

31/12/2013

bem querença


A neve vestiu a montanha, um corpo salgado 
Meu olhar perdido no branco
A natureza ensina, o tempo não se desfaz
Moro no intervalo da tristeza e felicidade
Em busca da vida longe, meu corpo falece. 
Entre a vida e a morte, desperta. 

(Fico feliz quando leio um poema, abraço uma árvore, mergulho no mar ou ouço Bach. Momentos sublimes sem adjetivos)

Aos que conheço e não conheço:
Somo os números do ano que se aproxima, são quase todos pares e na sua soma ímpar. Que seja essa qualidade expressa em bem querença.

19/12/2013

vi meninos grávidos | de fome |livres | de serem pobres




amor

seja o homem da esquina | ou quem me vê na cama | acedo ao pedido | porque o meu corpo reclama | deixo que cresça como se fosse um poema | antes que floresça | e a palavra rebente | por dentro conjugo o verbo |até que seja amor | sem nome, sexo, idade | sem história ou passado | verde ou marrom | deixo que cresça | até que seja de novo, amor.

14/12/2013

a morte


rouba um pedaço de dentro | abre espaço ao vazio | memória teimosa do tempo | que lembra gente

os mortos sobejam no corpo velho.

quando um amigo parte, a saudade recorda todos que morreram, o silencio cresce até que surdo o corpo lembre que é urgente o presente. quando a morte visita quem nos acompanhou em vida, a tristeza ocupa o vazio de quem nos deixou. profundo é o pesar, das coisas não vividas, do beijo arrependido na nossa boca, do abraço que não foi dado, do amor nunca declarado, do risco nunca experimentado, das aventuras que ficaram sempre para amanhã, do sorriso que se esqueceu de acordar. quando um amigo parte, lembramos e voltamos a esquecer. breve é o nosso despertar.

02/12/2013

beijo

No barco sentou-se com a vontade
No carro sentou-se com ele
Abraçou-a como se a conhecesse
Ela deixou
Descobriu-lhe o ombro e beijou
Ela deixou
De olhos fechados procurou os lábios
Ele deixou
Descobriu-lhe a língua e beijou
Ele deixou
Entre um e outro, uma palavra que beija
Entre ele e ela, um beijo falado
No barco sentou-se com a saudade
De ter deixado
Em casa abraça a janela
liga a tv e finge que vê
Na cama rebola a insónia
inventa-se nua
Navega em seu corpo

a saudade de ter deixado.

01/12/2013

vontade

tenho meu corpo tatuado
de amigos e amantes

entre o meio dia e as quatro
que eu possa lembrar de todos
na tua boca, sem pressa.

banco alimentar

Na cidade crescem árvores de Natal. Em cada uma um pai natal barrigudo e bem disposto cheio de prendas. Os pobrezinhos trazem significado à vida. Adormecidos, encontramos a felicidade com a fome alheia.

19/11/2013

ano da fé

No lado esquerdo da cama descansava a cabeça que eu usava durante o dia. Dormia com outra - uma cabeça que amava a noite e tirava-me o sono antes do sonho. Quando as confundia o mundo parecia ficar de pernas para o ar. 
Saí da consulta com uma nova cabeça debaixo do braço. Veio penteada e maquiada. Na face algumas rugas de expressão que não denunciarão a minha idade.
Segundo a minha médica, esta nova cabeça ditará a minha conduta.
Em cima da mesa de jantar, a cabeça da noite serve agora de vaso. A de dia, foi jogada no lixo.
Um vizinho crente ofereceu sua cabeça ao regime. Vi-o noutro dia a servir de candeeiro.
Uma Hidra eleita, engravidou. Não é fácil alimentar uma família com tantas cabeças.
Cada vez que passo perto da mesa de jantar, meu coração acelera.
A cabeça fica com medo, ajoelha e reza. Não fosse este, o ano da fé.

07/11/2013

Agora que te encontro

Senta comigo antes que amanheça. Espera só mais um pouco. Promete-me que não inventas. O velho disse que por dentro a terra sempre foi verde. Não sabe quem nunca a viu nua. Dia e noite, noite e dia um relógio marca o compasso da vida. Subo a montanha e perco-me em cada cascalho. O dia e a noite, a noite e o dia, reféns do segundo. Por dentro de nós, o verbo encontra caminho e o corpo cego, obedece. De dia, o dia de novo que não sabe descansar. Um e dois, um e dois, peço que pare a canção e aprenda a contar. 
Quem abre a boca espera que o insecto recorde a palavra que foi esquecida. Arde a língua que já não consegue lembrar. 
Agora que te encontro, não partas. Ensina-me como se despe o olhar.