17/08/2008

UM PEIXE FORA DO AQUÁRIO

Todos os anos a família comemora o seu aniversário. Meu pai diz que a família é uma coisa que sempre existiu, minha mãe afirma que a família é mais que uma coisa mas concorda com seu tempo de vida. Numa data ao acaso festejamos o nosso aniversário.

Houve um tempo em que os velhos eram os responsáveis pelos festejos. Bons vinhos, queijos e presuntos eram escolhidos com todo requinte. Uma prima austríaca, obesa pela ausência da nicotina, trazia o esperado bolo moca como se este fosse o seu ingresso na festa.

Dos funerais lembro de dois, os dos últimos personagens que zelaram pelas nossas risadas. Os mesmos que reclamavam cansados dos nossos excessos. Depois deles as festas foram ganhando a cor da saudade. O vinho descobria sem vergonha a amargura das nossas risadas teimosas. O bolo que é agora comprado na pastelaria da esquina é tão indigesto como o resto da refeição.

Esperançados do sabor do passado a família reúne-se teimosamente todos os anos.

Enquanto a risada corre à solta nervosa, um grita EXISTO! o outro questiona DESDE QUANDO?

Ninguém dá pela tristeza, ninguém dá pela dor porque a vontade de outrora inventa a verdade. Se no fim da noite precisamos de um antiácido é somente porque abusamos do álcool.

Este ano acreditei na festa. Passei o dia a preparar um sorriso. Acordei a lembrar-me criança – um tempo que perco todos os dias.

Mal passava das oito quando meu pai telefonou:

- Já cá estamos todos filha! Estás Minha irmã telefonou bem cedo avisando que o jantar seria num restaurante indiano. Lembrei com saudade a casa da minha avó. Lá ninguém vendia flores no meio da refeição.

atrasada ...

Peço desculpas explicando que me perdera pelo caminho. Dei várias voltas à praça sem nunca encontrar a saída. Afinal bastava virar o rosto para a esquerda. Uma casa iluminada como se fosse Natal convida sem pudor quem passa na rua.

Uma sala vazia de gente. No canto esquerdo várias mesas esperam os clientes. À direita dois sofás para quem venha necessitado de algum descanso.
Pergunto pela reserva da família Alcobia. Um rapaz tímido aponta para o centro da sala. Espantada reclamo:

- Lá onde você aponta só tem um aquário...

O indiano teimoso repete:

- A família Alcobia está a jantar ali...

Julguei ser o português enviesado do simpático indiano responsável pela minha dificuldade de entendimento. Certa de esclarecer o equívoco corro para o centro da sala.

Não sei como explicar mas a verdade é que a minha família jantava no interior de um enorme aquário. Timidamente soco uma das paredes. Todos me acenam contentes.

Ninguém dá conta porque não entro, nem eu consigo descobrir como transpor o obstáculo. Quando o vinho aparece encho o copo. Na hora do brinde meu cálice encontra a parede de vidro num dó sustenido que contrasta com o eco surdo dos copos do lado de dentro.

O empregado de mesa sabe como entrar e sair, enquanto eu brigo com uma galinha massala no meu prato.

Será que mataram os peixes? Não consigo entender o que faz aquele carangueijo abraçado ao pescoço do meu primo...

Desta vez vou poder me despedir sem remorsos. Abro um sorriso. Volto a pedir desculpas pelo meu atraso.

Meu pai solta uma gargalhada sonora (uma daquelas quase igual às de antes)

- Pois, se fosses pontual não jantavas do lado de fora...

No próximo ano, quando a minha irmã telefonar não posso esquecer de perguntar se me dão umas garrafas de mergulho caso eu chegue a horas.

Tenho medo que me falte o ar.

KANJI

Por vezes preciso suspirar
antes de esboçar um ‘sim’
Em japonês
‘HAI’

A vida é assim
feito um kanji
que aprendi no passado

suspiro
antes de escrever ‘HAI’
Ganho o ar
antes de o expirar
Nesse ir e partir
a vida existe
do lado de lá

não sei
se é mentira
o que me lembro
de outrora

em kanji desenho
a montanha

num canto abrigado
descanso

enquanto respiro
a vida existe
do lado de fora

tão breve te sonhei
que cedo parti
sem sentir teu braço
no meu abraço

desenho
um kanji inventado
enquanto
a vida existe
dentro e fora
do arame farpado

Num longo eco
Descanso
meu nome

Se tudo é mentira
Enquanto verdade
Invento o silêncio
Enquanto existo

Posso agora entender-me
Em japonês, francês ou chinês
Aprendi o alfabeto
do meu avô judeu

Calei minha dor
Rezei ao senhor
num terço budista

Pedi
a quem me inventou
Que ...

se esquecesse

Nada é verdade
Quando
tudo existe

Enquanto
silêncio - existo

Nossas palavras que já não se entendem


quando te digo
Boa Noite

respondes
Boa Noite

E

viras o rosto para o lado oposto


ENTÃO

meu corpo cala
perdido

Nossas palavras
doentes
perdem

o rumo

Desnorteados

SONHAMOS

um dialecto
em cada silêncio trocado
um passo
em cada compasso
a cor da despedida
em cada porto visitado

Inventamos a língua


A minha
na tua
a cada jura de Amor

A DESPEDIDA

- João! Você viu minha perna por aí? A esquerda...

- De novo Dona Maria! Por onde anda a sua cabeça?

Os últimos meses de Maria passaram-se numa busca constante aos pedaços de corpo que perdia em cada um dos seus passeios à rua. A perna esquerda brigava com a direita, o braço direito tomava partido num pranto sufocado entre lamurias. Tantas lutas perdidas, mil desculpas exclamadas. Todos pecados em catadupa a comporem a culpa.

Foi um pedaço de mulher. Nas horas vazias gritava por Deus, nas outras fingia. Nas horas fingidas amava.

Com a idade seu corpo foi-se fazendo à tormenta. De madrugada acordava com uma perna encostada à cabeça. Perdida no tempo cegou o futuro.

- João! Agarre a perna que ela se perde. ..

- De novo Dona Maria? E a coleira que o sr. Nuno lhe deu?

- Está na perna direita

Com um sorriso desajeitado levantava a saia mostrando a perna acorrentada.

- Está muito apertada, Dona Maria. Assim estrangula

- Doutra forma a perco João

A memória despediu-se quando Maria deixou de saber coordenar os seus membros. Inventou o passado só para poder sentir saudades do que nunca viveu.

Um dia sossegou. Quieta na cama esperou. Sempre lutou contra todas as despedidas, mas essa era por fim bem vinda.

As pernas deixaram-na estar descansada, os braços abraçaram seu peito delicadamente, a cabeça largou-se sem medo entre os ombros, o ventre sempre tão dilatado deixou de brigar.

Maria sorriu na partida. Sozinha.

Zé Ninguém

Em criança pensava que algumas pessoas nasciam nas esquinas, outras na maternidade. Quem nascia na maternidade crescia devagar, quem vinha da esquina nascia com rugas – morria sem dentes.

Da minha janela via o senhor José todos os dias. Umas vezes deitado, enroscado feito criança. Doutras sentado de olhos fechados. Nas pernas o chapéu barrento pedia ajuda. Na boca um obrigado apressado a quem com pressa largava a esmola. Não me lembro de o ver comer. Não sei de cor o cheiro dele. Não sei a cor dos seus olhos - nunca cruzei seu olhar.

Sinto frio quando me lembro do seu corpo durante o Inverno. No chão restos de papelão. No corpo um cobertor velho. No Verão tirava o casaco e mostrava sem pudor uma camisa sem cor.

Na memória seu nome por mim inventado – Senhor José, Zé da Esquina, Zé do Estrago, Zé sem sobrenome a rimar com Ninguém.

A esquina da rua Nossa Senhora de Jesus com a da Rua da Boa Morte era seu território ocupado.

Sempre pensei que os homens que dormem na rua, na rua nascem.

Hoje quando me deito sufoco de medo. Se me tirarem o cartão amassado no chão vou morrer de frio.

Nasci na Lapa, numa cama aquecida. Meu endereço? Desculpe, não me lembro do nome da esquina.

Um lugar desconhecido

Venho de um lugar distante que não precisa de carimbo para certificar a verdade. Se me perguntarem se fica a leste não vou saber o que responder. Trago ele na memória.

Quando me casei bastou um abraço e um beijo melado, promessa de amor. Não havia notários, nem padres para selarem as juras eternas segredadas na cama.

Venho de um lugar desconhecido – tão sonhado que acredito verdade.

Venho de um lugar que abraça o trabalho como se abraça um filho. Sem horas não bato o ponto – danço a cada encontro. Sem dinheiro compro a maçã no lugar do Senhor João. Sem cerimonia dou em troca o que sei fazer.

Sem horas trabalho sem dar conta da hora.

Venho doutras paragens. Não sei de cor a conta da luz, nem a do gas. Sequer sei a conta da água. Na mercearia me espanto, no supermercado sucumbo. Na esquina me amasso contra o vizinho apressado. No trabalho o chefe me ensurdece com a pergunta:

- Quantos 500 vale o teu trabalho?

Não faço ideia se muitos ou poucos. Não me lembro quantas de mim fui eu na troca da maçã.

- Quantos 500 pagam o teu aluguel? E a tua comida? E a escola do teu filho?

- Somam esses tantos 500...

- O teu salário não vale um quinto desses 500!

Venho de um lugar que não sabe responder quantos 500 são precisos para se viver com dignidade.

Venho de outras paragens – de um lugar desconhecido. Quem sabe sonhado.

Mesmo junto do coração.

Mulher

Poeta-cantador que poemas serão os teus
se te contar que carrego em meu ventre
nada

Qual será a tua canção
Quando souberes que irrigas uma terra
Sempre seca – estéril

Quais serão as trovas do amor anunciado
Se teu sémen se alaga
Na minha esperança perdida

Onde estou nos teus versos
que não me encontro

Abraço teu sexo com o mesmo calor
Que o da vizinha Maria
Mas nada aduba meu ventre

Nem mesmo a vontade que tenho
De ser cultivada

Diz-me poeta- trovador
Onde estou nos teus versos
Se parideira não sou?

Meu nome se confunde
Com o das terras do norte
Onde se morre de sede

Ainda antes de nascer
Qual é a tua homenagem poeta
A essas donas
Damas sem cor?

ILUSÃO

É assim que somos
Ilusão de dois
Quando somos um

Choro tua dor
Quando sorris
Porque somos um



Na ilusão de dois

Quando te vais
Que pedaço de mim
Se despede em ti
Se somos um

Na ilusão de dois

Somos dois
Somos o todo
Ilusão de um

Sendo nenhum

CARTAS EM ANDAMENTO

Quem dera que a felicidade fosse feita dessa vontade que tenho em não existir. Depois tu sorris e eu esqueço tudo que aprendi.


Não me lembro com clareza de como vim parar aqui. Quando os burocratas tomaram o poder substituíram a censura pela leitura seletiva, fui colocada no ministério da cultura como 'leitora profissional'.
A vida é feita de regras e a mim destinaram a tarefa de ler cartas e em seguida arquivá-las na caixa das 'cartas lidas'.
Recordo agora que no primeiro dia li todas num ápice e o meu colega Sebastião aconselhou-me a voltar a colocar as cartas já lidas na caixa das 'cartas por ler', doutra forma seria despedida.
Lembro-me de ter sorrido. Ignorando o conselho corri ao gabinete do secretário de Estado.
- As cartas já foram lidas. Devo responder?
- Todas? Se não há mais cartas para ler, sou obrigado a despedi-la.
Tremi e menti:
- Penso que ainda tenho algumas em atraso. Mas não devo responder às que já li?
- Seu trabalho é de leitura. Ninguém escreve à espera de uma resposta. E se esperar, paciência. Continue lendo. Quando já não houver cartas para ler,  acaba o seu trabalho.


Quem dera que a felicidade fosse feita dessa vontade que tenho em não existir.Depois tu sorris e eu esqueço de tudo o que aprendi

Porque agora a ladainha da velha? Porque esta dor que rompe o som?)

No corredor, Sebastião consolou-me:
- Eu avisei. Coloque as cartas lidas no caixote das 'cartas por ler', se quiser este emprego…
Passaram 20 anos e o meu sorriso perdeu-se pelo caminho. Não sei quantas voltas já dei ao caixote.
Há cartas que sei de cor, outras o tempo tratou de engolir o texto. 

Passados seis meses o secretário de Estado foi demitido e eu já me habituara à rotina das caixas.
Ninguém se preocupou. O trabalho quando é bem feito não deve ser alterado.Encontrei uma metodologia que rentabilizava o circuito. Quem precisa de mudar quando tudo se mostra perfeito?
Amanhã vou acompanhar o corpo de Sebastião. Morreu de morte natural – foi o que li na carta que a esposa enviou aos colegas. Esta vai para o caixote das 'cartas lidas'.


Quem dera que a felicidade fosse feita dessa vontade que tenho em não existir.Depois tu sorris e eu esqueço de tudo o que aprendi

(Sempre a ladainha da velha. A mesma dor que rompe o som – todos os dias!)

NATAL

Sonhei que te abracei num dia sem fim

sonhei que eras todos sendo nenhum

sonhei com esta época todos os dias

sonhei connosco sorrindo

desejando sem desejar

esta época todos os dias

BATISMO

A dona Aurora era assim. Um erro no ditado – uma reguada acompanhada de um sorriso maldoso. Cansada respondi ao interrogatório. Mal via a hora de poder dar o nome da minha menina.

- Nome do pai...

- Desconhecido

Uma mulher cinzenta levanta a cara, baixa os óculos para a ponta do nariz. Com um sorriso auroriano, acrescenta:

- E a mãe – existe?

Nunca gostei de cartórios. São lugares escuros que cheiram a mofo. Na entrada um número sem fim de setas indicam os serviços. Perdidos, os utentes erram os guichés de atendimento. Após vários grunhidos, encontro a fila das certidões de nascimento.

- Nome da criança?

- Tenho aqui escrito, por favor leia:

“Me deixe inventar um nome. Moro na beira do rio. Deste lado conheço cada canto do mundo. Do outro vejo um horizonte sem fim. Se a senhora me deixar, a minha menina terá o nome da ponte que sempre sonhei.

Em criança encostava minhas mãos nos joelhos para deixar que meus companheiros saltassem por cima – eu era a passagem em cada risada.

Deste lado crescem as oliveiras. Do outro adivinho um pomar. Fiz um barco, mas o caminho é tão longo que tenho medo de afundar antes da outra margem alcançar. Se meus companheiros tivessem deixado crescer as pernas, todos juntos, curvados, teríamos aberto caminho. Mas cresci sem conseguir encontrar a forma.”

- Tem que prestar atenção! Veja só como coloca as vírgulas - separa sempre o sujeito do predicado. Depois de escrever tem que tirar uma folga do texto e voltar a ele para fazer revisão.

- Que ponha a vírgula o leitor onde lhe faltar a respiração…

- Nem falo na aparência. Acha isto aceitável?

- Mas a senhora leu. Posso inventar um nome?

- A lei protege as crianças de todos os estrangeirismos. Os nomes não se inventam...

- Antes que recuse, escute o resto, por favor. Se ela for Maria encontrará João do outro lado do rio. Juntos serão a ponte. Uma sombra protegerá os novos caminhantes. Quem teimar em atravessar o rio a nado poderá descansar um intervalo em cada pilar – o tempo de uma respiração. Quando o Norte se unir ao Sul...

O pó vai se acumulando nas mesas de cada funcionário. Na parede um relógio dita o fim do expediente. Uma mão malcriada fecha a boca da janela. Uma mulher cinzenta oferece-me as omoplatas.

Da janela do meu quarto cheiro o rio. Adivinho do outro lado um horizonte sem fim. Malgrado as vírgulas que esqueci, a minha menina será a ponte que eu não soube construir.

AUGUSTO

Augusto acordou com um peso estranho na cabeça. A noite tinha corrido sem tempo medido – escura. Melancólica. Nauseado levou a mão à boca numa tentativa frustrada para conter as tripas revoltas. Limpas as vísceras, resta um cheiro desobediente que invade toda existência. Se conseguisse lembrar como é a primavera talvez aliviasse este presente fétido. Há momentos em que a memória inventa o passado, traindo a verdade do sofrimento. Como inventar a dignidade se ela fugiu sem avisar da partida?·
Augusto forra o colchão com os últimos lençóis limpos. Um branco fingido veste a cama. Algumas nódoas fazem prova das noites descuidadas. Mesmo que tingisse de preto não conseguiria disfarçar o passado. E preto, nem pensar! Passaria a noite acordado com um medo de morte. Na mesa de cabeceira improvisada repousa um cinzeiro imundo. Nenhum candeeiro resistiu às quedas diárias. No tecto uma lâmpada mal ilumina o chão gasto, disfarçando a poeira acumulada de anos. Um móvel de estilo rococó, encontrado no lixo, arruma o que resta da vida deste homem cansado.·
Em pé recorda as noites felizes vividas naqueles lençóis. Uma lágrima tímida dança em seu rosto. Quem inventou que a felicidade não magoa? Assim são as tempestades, furacões, terramotos, tsunamis. Belos quadros recheados de dor.·
Deitado quer sonhar, ocupar o tempo que resta entre hoje e amanhã. De lado finge a natureza antes da infância. De longe ecoa a voz esperançada da mulher que o abriga:

- Quero que seja Augusto. Li no dicionário que significa grandioso; sumptuoso; respeitável; majestoso. O meu menino merece essa esperança...

Tão ingénuas as mães! Como se o nome ditasse a essência do ser.

Augusto lembra do rio que banhava o terreno da casa dos pais. Nem sempre acolhia o obstáculo. Às vezes sem força se dividia em dois. Tantas vezes Augusto fugiu da dor que foi se dividindo em pedaços cada vez mais fracos. Para respirar Augusto se apoia de uma bomba de ar.
De costas encontra o tecto. De bruços o cheiro das penas de um travesseiro antigo. Por mais voltas que dê Augusto está sempre entre quatro paredes.

Longe vai o tempo das caminhadas em Sintra. Qual era o caminho que o distanciava do abismo? Fosse ele qual fosse Augusto o desprezou.

Torturado leva a mão a cabeça. É aí que dói. Nesta ferida que não pára de abrir! Entretido Augusto pesquisa cada saliência. Um líquido desconhecido molha seus dedos. Em criança bastava o leite para alimentar a fome. Depois aprendeu a ler e saciou a curiosidade de outras vidas. Foi temperando o pensamento de condimentos sofisticados.
Talvez o corpo estivesse expulsando o excesso! Esperança de uma nova vida – que seja drenado pântano. Augusto procura seu canivete – presente da mulher que o amou um dia. Leva devagar, com cuidado a lâmina à ferida. Sem hesitar vai abrindo a cabeça como se construísse um caminho. Doía mas Augusto não sofria, tal era a esperança de um ser renovado. O sangue banhou a cama e Augusto achou que estava no leito de criança.

- Mamã ajuda-me a crescer...

Majestoso, Augusto partiu sem dizer adeus.

Sabedoras mães que sabem que cedo ou tarde seus filhos justificarão seu nome de baptismo

A saga de uma leitora que queria ser escritora

Na escola era a melhor no ditado. Apesar de não saber gramática escrevia com predicado. Melhor aluna de português, sabia de cor os poetas - em português.

O destino (é uma coisa que dá sempre jeito) trocou-lhe o tempo do verbo. Seu bem amado fugiu e ela passou a viver no passado. Memória do dia em que ele a tinha beijado pela primeira vez. Da língua que se passeou no seu corpo. Daquela vontade quando a tomava em seus braços.

A saudade desse bem-querer fez dela escritora. Transformar o passado em presente é uma coisa que só a escrita consegue. O futuro correu em sentido contrário e se fez convidado confundindo o presente.

Pouco importa, ela agora era escritora. Verdade ou mentira, loucura ou sanidade são adjectivos que neste caso não encaixam.

- Espelho, espelho meu existe alguém que escreva melhor do que eu?

Do lado de lá o silêncio era a confirmação do novo talento nas artes escritas.

Os amigos apoiavam:

- Você devia publicar esses textos! São tão bons. Além disso há tanta porcaria que vai sendo publicada. De certeza que mal você se disponha, será um sucesso!

Negando a vida, seu ego brilhou. Não houve pastor que a contrariasse, a fé ressuscita os mortos. Dela vem a certeza da nossa existência. Neste caso, do seu sucesso no mercado editorial.

Antes de publicar, enviava seus textos a uma rede de amigos. Ansiosa esperava a resposta. Um elogio que confirmasse o que já sabia. Era uma escritora como nunca tinha havido na história.

Duvidava da capacidade de discernimento de um qualquer editor. Ainda para mais a lógica de mercado impunha os diários das garotas de programas. Ou os livros de auto-ajuda. Os de culinária também vendiam bem. Para não falar num corpo saudável de acordo com o tipo de sangue.

Poderia um editor de tanto entulho entender a sua literatura?

- Espelho, espelho meu haverá no mundo algum editor inteligente?

O silêncio desta vez não ajudava. O espelho parecia estar fora de prazo.

Um amigo do meio avisou:

- Nasceu uma editora que só aposta em novos talentos. Manda para lá os teus textos…

Desconfiada, encontrou o medo. E se afinal houvesse um engano. E se ela não era o que pensava ser?

A vida ensinara que a vaidade enganava. Lembrou-se da história " O rei vai nu". Seria a sua escrita afinal um streapteese de botequim?

Com tantos apelos, estava encurralada. Não tinha outra saída que não fosse enviar seus textos para a editora indicada.

A editora fez parceria com o espelho e remeteu-se ao silêncio. Estaria também fora de prazo?

Educadamente pediu confirmação da boa recepção da correspondência. Recebeu logo um sim. Assustada percebeu que seu nome era coisa desconhecida para quem respondia. Tratou-a como se fosse um homem. E informou-a:

"Caro,

Recebemos o seu e-mail, desculpe-me por não responder.

Ele foi passado para a produção editorial, se for aprovado entraremos em contato.

Atenciosamente

Editora"

Só teria direito a uma resposta se ela fosse um SIM?!

Um dia minha filha (uma menina de 4 anos) informou-me que no Centro de Saúde do nosso bairro, só aceitavam meninas que se chamassem Maria! Será que o editor passou sua infância no meu Centro de Saúde?

Era boa a resposta porque o silêncio, neste caso, se parecia com um NIN. Talvez eles não tivessem tido tempo de ler. Talvez os textos fossem tão bons que estavam a espera de uma hora mais acertada para o publicarem. Talvez a editora fosse composta de ignorantes que não distinguiam o feminino do masculino...

A dúvida crescia de dia para dia.

- Espelho, espelho meu que silêncio é o teu?

Com a fé abalada resolveu dar por terminada uma carreira que no passado se adivinhara tão promissora. Em tom de desfecho, escreveu para a editora:

Caro editor,

Já ensaiei a modéstia, depois timidamente cobrei a boa educação de uma resposta.

As notícias informam que este é o hábito dos tempos modernos. Epidémica é a distracção do gestor contemporâneo. Seja o negócio de parafusos, detergentes, medicamentos, sabonetes, livros e afins.

Hesitei entre enviar uma colecção de textos, aliás muito bem escritos, ou me masturbar com a prosa das Brumas de Avalon...

Mal por mal, venha o diabo e escolha!

Um abraço

E.

Não fosse a fuga do bem amado não teria ela sofrido com tanto predicado!

ENTRE O CAOS E A ORDEM – QUEM SOU?

Preâmbulo

Qual é o ritual que preparas para demonstrares uma equação matemática?

E quando vais recitar um poema - como te inspiras na véspera de o anunciar?

Quando vais cantar para uma audiência vazia – como alcanças o dó sustenido?

Como abres a porta que te leva ao transe?

Oeiurewoiuwoeitueroitueroiutioer

É assim mesmo o título deste intervalo, porque absolutamente não sei o que quero dizer – apenas o sinto. Sem forma se entranha no meu tacto. Sem som explode no meu coração. Sem história é a memória arquivada do que venho esquecendo.

Sem memória é o presente: aqui e agora

O início do transe ou a vontade de acreditar que ele existe (continuação do preâmbulo)

Pura imaginação. Minha mesa está cheia de jornais. Os cd’s arrumados na estante e o transe ....

Ah, o transe! Foi o que experimentei um dia quando a sintonia do meu corpo dançou no homem amado. Desde então escrevo. Desde então medito. Quero tocar o invisível, sentir o que não existe, cheirar o que invento. Quero me ver de fora enquanto estiver por dentro. Quero alcançar a lua inventando um soneto.

Quero não querer enquanto penso que existo.

Sou somente a memória daquilo do que julgo lembrar. Sou a memória do que invento. Sou a memória do que ouvi contar.

Não sou nada do que julgo pensar - não existo.

Sou a memória da história que segue – testamento/testemunha do que vivi

Por agora vou escrevendo como se vomitasse o verbo, o predicado e o sujeito que não sei dele. Quando o texto rima faço um parágrafo e finjo poesia.

Só haverá enredo quando o ruido de fora calar em mim como silêncio. Só haverá testemunho do que quero contar quando não for preciso mais respirar. Nessa hora estarei ciente de todos meus sentidos.

Abre o coração (tentativa de escrever a última linha do preâmbulo – como se isso existisse. Como se fosse possível determinar o início)

Aquele beijo que parecia não acabar, durou um minuto no ecrã do cinema Aurora – 144 fotogramas.

Quantas vezes se divide o segundo do que somos quando inspiramos?

Na escola quando o professor Aurélio explicou que Euclides definiu o ponto como “o que não tem partes”, uma posição no espaço – entendi o caos.

Essa compulsão de ordenar determinando a origem, impondo o fim determinou o choro a cada fim anunciado. Por isso não acabo esse preâmbulo inventado. Quem te disse que comecei se ainda mal acabei?

Abre o teu coração - infinitamente

16/08/2008


Nos retratos dos outros
daqueles que não os meus
sonho com o suor do teu corpo
alagado – em mim

No relaxo descuidado do teu braço
anunciando a partida em cada paragem

Sonho com esse amor que se esfrega
enquanto promete o fim

Nos retratos dos outros
invento o começo e o fim