30/10/2010

A menina

Vou só falar dela, dessa menina que acabo de conhecer. Diz sempre não.

- É tão pequenina!
Não sei se é velha ou criança. Não sei!
Tem sempre a mão na barriga e uma lágrima lenta na face.
Sempre a tive por dentro, sem corpo nem rosto. Quando seu coração apertava, doía-me o corpo todo.
Assim, uma pontada que se espalha como se eu fosse sua seara.
Sempre a tive por dentro, descompassada sem espaço,  nem tempo
Agora que a vejo fora de mim, é tão pequenina!
Diz o menino que acaba de nascer que a embale em meu colo, limpe a lágrima que persiste em sua face.
Diz-me o menino, agora homem que abrace a pequena
até que volte a crescer-me por dentro
com um sorriso na face.

29/10/2010

TÃO PERTO PARTO




tão perto de mim
confundo o espaço
assim quase eu
confundo o tempo
Depois
Sou dois de novo

Neve tão branca, que se confunde na cor

Quando abre os braços
Veleja
Quando adormece
Viaja
Por cada poro 
uma gota transparente 
convida-me, inspira-me 
em cada beijo que dou

tão perto
parto 
sem dor

28/10/2010

VERDE

Verde te sinto/suado, molhado em mim
Terra húmida que acolhe a semente/esperança de vida
Verde, tão verde te sinto/molhada, suada em ti
Molhada, suada /Verde, tão verde que sou
Pulsa a vida sem corpo/tão verde somos
Amor

27/10/2010

No surprises

Passo todos os dias nesta esquina. Conheço-a de cor, desde menina. Já passei criança, adolescente, mais tarde enamorada, depois casada. Noutro dia, voltei descasada. É a esquina conhecida. Tem um angulo recto. Volto à direita, retono à esquerda. No passado não lhe deslumbrava o vértice, agora perco-o de vista. É a esquina que tudo conta em silêncio. Memória viva dos meus passos enquanto viva.
Tudo mudou. A barbearia agora é um bar de gente culta. A mercearia hoje vende papel reciclado. A padaria ainda vende pão pelas mãos das netas da Dona Virginia, já morta.
Tudo muda, menos a esquina sempre bonita. Alí, naquele canto é o único lugar que conheço que faz um ângulo recto.
Não importa quantos passos. Se dez ou mil chega um momento que devo virar à esquerda e se quero voltar viro de novo à direita, certa de que saí do lugar.
Vinha aqui para contar do amor que acabo de fazer. Escrever um poema molhado de poesia, repleto de beijos roubados que silenciam o passado. Vinha aqui timidamente falar de como acariciei o corpo suado do meu amado. Minha boca perdida em seus lábios, meu ventre vivo sem limites a ditar que existo.
Acabo de chegar quase pronta para outra viagem onde invento o amor amado sem vírgulas onde tropeçar.
Vinha a isto que é bonito de se contar, mas só me lembro da esquina - a minha conhecida, onde viro à esquerda e retorno à direita. Aquí nesse canto onde desenho o triângulo da minha existência.
Um ângulo recto. Sem surpresas, por vezes.

03/10/2010

Domingo de Outono

Nesta manhã de Domingo acordei Maria Silva, a lembrar-me da lista de todos os nomes perdidos nas celas, aprisionados por terem outros nomes. Hoje acordei Maria, mulher do povo, desconhecida, sem precisar de mais um nome de novo. Hoje sou Maria, como a Madalena que beijou-te sem medo, despudorada amante sem nome, Maria de novo. Hoje acordei Maria e rezei por eles, de morte matada, cristãos, ateus, budistas, mulçumanos, poetas, pintores, operários, negros, judeus, homens, Maria de novo.

Hoje acordei sem ar, sem nome algum para contar, história que quero enterrar.
Maria como a flor amarela que sorria enquanto morria.
verde é a terra
castanha regada
floresta sem nome
reconhece o corpo
que a ti regressa de novo
noutra terra vermelha
nascido antes
branca é a montanha
que te guarda
coberta de neve
em tempos doce
quase sem cor
negra tão negra é a dor
que te leva sem rumo

amanhece no campo
feliz o trigo por ti cultivado
brota na terra a flor
outrora sem dono
colhe sem pressa o tempo
descansa em ti um sorriso
verde, castanho molhado
de amor.

01/10/2010

Milonga del Angel

Deixa-me estar por aqui. Fazer um intervalo em cada compasso. Alinhar a rima na tua harmonia. Repousar contigo do som,  de cada palavra.


[O menino nasceu sem mãe
 O homem perdeu-se na cama
 A guerra fez-se senhora
A miséria atravessa a esquina
E dizem que a virgem pariu-te sem dor]


Deixa-me estar assim contigo nesse som que se escapa, lembrando que a vida tem outra cor neste segundo que respiro feliz.