30/04/2010


A vida é uma narrativa onde a única regra cumprida é que ela acaba. Não importa se a vírgula está desajustada, sequer interessa se o conteúdo é pobre. A vida acaba mesmo que o texto seja criança ou velho. A vida acaba em cada oração impressa. A vida acaba no fim do soneto. A vida acaba em cada rima perdida.

A vida reaparece no teu traço eterno antes que eu te leia o poema.

Doce sem medo a vida diz que é hora de atravessar o espaço, de finalizar o texto, de rimar com fim.

FIM

Deixo o passado adivinhar o gesto enquanto perco a memória do que fui quando parti de ti.

ah ! A vida agora sem verso acaba no FIM.

olha o desenho! lembras de ti outrora, presa no A4? Sem mãos à espera do milagre da ressurreição
olha o desenho! lembras da dor que te invadiu o compasso e sequer um círculo soubeste cumprir?

esquece enquanto recordas.

a vida acabou.


já foste embora.

ADEUS

vou deixar a palavra ser assoprada devagarinho. se começar por uma vogal deixo que a língua passeie pelo céu da boca até se cansar, quando for uma consoante a língua estará pousada à saída da minha boca. vou assoprar como se assobiasse uma canção devagar, tão devagar que me esqueço do sentido dela. assim a palavra cresce e morre entre o inspirar e expirar. liberta do pensamento a palavra voa sem destino. o silêncio mostra a face em cada intervalo desse meu jeito de estar. um dia quando eu crescer serei somente esse intervalo - um modo de ser sem ser.

12/04/2010

Doce é o momento quando me esqueço
Floresce o campo na Primavera
Abunda a neve no cimo da montanha
Canta o rouxinol no bosque
E o dia cede lugar à noite gentilmente

Como o poema que nasce em cada estrofe
Morrendo abro caminho à vida

11/04/2010

Enganei-me no verbo. Um verso bem feito deve ser todo refeito. Feito e refeito.
Antes que eu tivesse tempo de apagar e reescrever o sentimento, a verdade mostrou-me que todo o verso estava no avesso. Quem não conhece não sofre.


Faz um par de anos que estou à porta do Paraíso.
Dizia-se que uns merecem mais, outros que quase não merecem nada e por fim existem uns outros tantos que não deveriam merecer mesmo nada, mas o universo é generoso e fá-los acreditar que até a miséria é um bem a ser apreciado.
Estes últimos fazem-me lembrar aquelas meninas nos bailes de escola, que ficam sempre sentadas sabendo desde o primeiro momento que nunca serão convidadas para dançar.
Ainda agora cedi o meu lugar a dois amigos que mostraram pressa em entrar. Assustei-me com a voracidade dos dois. Esse querer tão claro contrasta com a ausência do meu.
Perto de alcançar o Paraíso, regressa o medo. Não basta chegar.

Sou como as meninas do baile que passam a noite sentadas.
Na sala há suor. Na cadeira a vontade de suar.