28/06/2006

Vês a janela? Aquela amarela?
Fui eu que a bordei - enquanto dormias
No despertar basta
Bom dia

Tão pobre a rima da dor
Rico o poema da vida que sou

- Esse tempo é o nosso tempo Cleo...
- O passado, o futuro ?
- O passado é a memória visitando o presente
- ...
- O futuro é a memória desejando o presente
- ...
- Sempre! O nosso é o tempo de sempre. Não me perco se você está ausente.
Tão parecido ao presente o tempo de sempre

23/06/2006










Helena esquecida largou a estação da vida. No inverso dormia quando todos acordavam. Na contra-mão deixou de saber quando existia..

Cleo faz quase um ano que estive por essas paragens. As cores definidas, o contorno do olhar desenhando a fronteira do nosso esquecimento. De longe ouvíamos as gargalhadas de quem passava e restava no Passante.
E foi lá que ouvimos de passagem a história de Helena Serena. Quem conta um conto acrescenta sempre um ponto, não sei quantos nós desataram os viajantes mas Helena Serena com certeza não se importa com nenhum acrescento.
Um dia, é assim que começam as histórias não é? Pois bem, um dia, lembras-te Cleo? Helena Serena atendeu sem vontade a porta. A campainha insistente soou feito o lamento contínuo de quem sofre.
Desde esse dia Helena Serena esqueceu o presente. Abriu a porta e como se fosse um jogo de esconde-esconde resolveu se esconder noutro tempo. Num passe de mágica parou. Comia ao contrário, conjugava o verbo no tempo passado.
Todos os dias tudo se ia. Só Helena restava. De vez um quando um choro escondido no meio da sala.
Helena esquecida largou a estação da vida. No inverso dormia quando todos acordavam. Na contra-mão deixou de saber quando existia..
- Senhor Manuel quanto custa o aipim?
- O senhor Manuel morreu Helena Serena…
Nebuloso o olhar, tão triste Helena perdida. Assim Helena vive o passado julgando o presente. Resistente seu realejo canta a saudade doutro tempo. Desafinado embala o engano até que o sono tome seu corpo e descanse..
Nunca soube o fim da história Cleo. Lembro da Gueixa feliz no Passante distraindo as viagerinas turistas contando a lenda
Andei pelo bairro da Boa Morte, perguntei por Helena. Na rua os meninos gritavam:
- Brasileirinha. Branca. Helena viveu num tempo inventado. Serena se foi numa hora sem hora. Perdida perdeu-se no espaço…Brasileirinha branquinha procuras que tempo?
- Procuro o tempo… que Helena perdeu
- Vens de onde brasileira?
- Venho de um compasso desafinado. Procuro quem roubou o tempo de Helena, que também era meu
- Brasileirinha olha o horizonte, vês?
-….
- Vês o sol a dizer até amanhã?
-….
- Sempre o mesmo todos os dias
- Enquanto te perdes por Helena Serena perdes quem te visita todos os dias
-….
- A Luz teve um filho maroto. O galo acorda as seis da manhã. Na roça o cacau está quase maduro. Seis da tarde há peixe pescado na rede do pescador. Queres uma banana? Está tão doce!
Nesse dia voltei ao Passante contigo Cleo. Lá estava a Gueixa, lã estava a miss Universo – transformistas da vida inventando Helena. Nosso olhar desenhou o contorno da vida tão presente o sorriso delas.


Faz um ano que o presente regressou a ditar a vida.
O sol é tão laranja Cleo!

21/06/2006




Bolas BABU que percebes de tu da bola?
BABUUUUUUUUUUUUU!


Quero uma fita amarela
tão rosa feito a donzela
Sou virgem! Tão virgem como a donzela
e patati, patatá
tão pateta como a rima dela, zela, ela- amarela
BABUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU

20/06/2006



Faz de conta que a verdade não é senão a verdade – sem tempo.
Faz de conta que o desejo não é senão o desejo – sem dor.
Faz de conta que o principio se confude com o fim – no vazio.
Faz de conta




Levantou o braço em comunhão com o queixo que parecia querer chegar ao céu, num sinal claro de sabedoria. Lentamente mastigou a palavra como se mascasse uma pastilha elástica. E foi assim seguro do seu sentir que finalmente declarou:
- Os teus textos… são textos minha querida Florbela
O silêncio ganhou a medida do tempo onde a verdade não é senão a verdade.
Florbela olhou para Amadeu, fez dele um espelho. Arrebitou o queixo.. No meio de uma gargalhada proibida por fim arrotou a palavra:
- Os meus quadros… são quadros meu amor. Os meus beijos são beijos.
Amadeu lembra do beijo. Tão beijo como nenhum outro beijo onde o tempo se esqueceu do tempo. Amadeu quer a casa organizada. Foge do discurso alucinado de Florbela.
- Não tens história. Nada começa, nada acaba. Algumas frases bonitas… O contexto do texto? Onde está?
- Quando nasceste foi este o começo? Hoje é o entretanto – o meio? Quando morreres é o fim?
- Não tem nada a ver…
- Onde começa o desenho? Olhas para ele de cima para baixo? Da esquerda para a direita? Eu começo pelo fim dos livros. Leio o jornal as avessas.
Amadeu encolhe os ombros. E as histórias do Eça. E o ensandecido do KafKa? Será que Florbela nunca leu “era uma vez”? Será que nunca ouviu “e acabaram felizes para sempre”?
Florbela abre a boca, ameaça de novo a palavra que se esgota no espaço de um beijo sem inicio, sem meio nem fim na boca de Amadeu.
Faz de conta que a verdade não é senão a verdade – sem tempo. Faz de conta que o desejo não é senão o desejo – sem dor. Faz de conta que o principio se confude com o fim – no vazio.
Faz de conta

19/06/2006


Faz de conta que o tempo não é tempo e…larga.
Inventa o espaço.
Mergulha no vazio, estás a ver?

Ali mesmo onde o branco inventa a cor do teu sentimento.

- E depois os veados passeiam-se pelas ruas! Até parece o faroeste…
- Mas elas não foram para a montanha?
- Pois foram, mas os gansos também cruzam as ruas. Só há verde!
- E o faroeste?
- O dono do hotel foi buscá-las ao aeroporto. Levou-as para o anexo..
- No faroeste?
- Ela já ligou para a mãe a falar da saudades que sente…
- Lembras do Lenine?
- ?
- dois passos à frente e um atrás. Eu sempre percebi que era um passo á frente e dois atrás e nunca saí do mesmo lugar!
- ?
- agora falas-me em veados, gansos… e dizes que é o faroeste! Ai mãe – que lugar é esse?
- No movimento o círculo dá o contorno do momento. Venho de um lugar onde um quadrado é redondo! Se há veados, gansos, areia e bang-bang? Que importa? Senta, olha e depois … anda dois passos. Pode ser que encontres o luar .

- Amigo por onde andas tu? Lembras do beijo? Aquele onde querias sufocar? Promete-me que um dia...

01/06/2006

melado - o celofane amarrotado

Na lingua - a minha
um beijo nesperado
feito o da Velha - encapuçado
feito o de Outrora - amordaçado
Oh mãe parte a janela
dá um beijo. A sério


- Mãe, mãe, mãaaeee… Olha a Virgínia e o Alberto quando se beijam soltam fumaça!
- Shiuuuu Vera….O Alberto e a Virgínia não se beijam. Pura ilusão. Mas ainda não percebes nada disso. O chupa amarelo sabe a quê?
- Vi a boca dela na dele como na novela da TV. Mas não se tocavam. Porquê?
- O chupa amarelo quando entra na boca fica de que cor Vera?
- Mãe olha, olha, OLHA! As mãos deles, eles querem dar as mãos. Porque a Vi não consegue segurar a mão do Alberto?
- VERA! O chupa é amarelo, laranja ou vermelho? Qual é o sabor da saudade dos beijos trocados?
Encosto-me à porta de vidro. Do outro lado Virgínia sorri. Esborracho meu ventre: Amasso um riso contido, escondido. Abro a boca. Mordo o vidro. Grito UM BEIJO! Do lado de lá Virgínia encena o adeus.
- Sabe a nêspera o chupa que era amarelo…
Tem sabor de tristeza a saudade daqueles beijos – celofane amarrotado

- Joga o chupa no lixo filha. Tanto açúcar faz mal…