29/11/2006



Se tivesse três centimetros de cera negra encontraria a forma. Modelaria a existência. De olhos fechados saberia se é amorosa a curva de cada sentir.Bastaria ouvir o pulsar para saber se é branca a cor daquele que respira. Se eu tivesse três centimetros de cera preta eu ouviria o silêncio e saberia a hora de partir.Parece que a neve se instalou na montanha. Tão longe.

27/11/2006

entre nós






















Entre nós e as palavras preguiçosas de noites idas passadas em prosa
entre nós e as portas trancadas meninos vadios a rimarem com escória
Entre nós e os ais perdidos escuto a raiva
branda de Ofélia

Entre nós e as palavras mudas
a guerra se escreve num compasso sem nexo
Entre nós amor .... e todo o resto

Existe a vida vestida de prosa

22/11/2006

Sei que havia luz porque ainda sinto na boca o sabor desse dia.




Canela cresceu acreditando que haveria alguém em algum lugar que a abraçasse com a intenção de abraçar.
Em Setembro quando Petrónio agarrou-a entre braços sentiu o corpo do amigo estremecer. Nem conseguiu contar o segundo e o abraço se vestiu num beijo na boca.
Em casa quando sua mãe a carregava em braços era um abraço embalado em lágrimas, vinculado à saudade que a mãe sentia da felicidade.
Canela sufocava tal a ilusão da espera de um abraço.
- Mas porque gostas de mim Canela?
- Porque sim
Era assim o gesto dessa menina. Gostava porque gostava. Chorava porque chorava. Ria porque sim.
- Canela! Este vestido está cheio de nódoas… Não podes sair assim!
Despreocupada com a aparência das coisas Canela respondia:
- Se eu engolir todo o ar que encontrar pelo caminho, achas que roubo também o teu ar mamã?
Sem esperar pela resposta Canela abria a boca e sugava todo o ar que a rodeava. Colocava-se em frente ao aquário e esperava. Com as bochechas quase roxas Canela suportava o ar quase morrendo de falta de ar. Somente o grito desesperado de sua mãe a fazia ceder. Era hora de vomitar.
- Um dia morres miúda!
- Esse dia existe mamã?
- ?
- O dia de morrer… Existe isso mamã? Ouvi João dizer que tudo é vida
- És muito nova para perceber. Mas um dia alguém vai te explicar melhor que eu
- Esse alguém fez o curso da Morte? Porque ouvi dizer que tudo nasce e morre e volta a nascer. Parece que é o curso da vida… Não percebi nada, mas ouvi
- Vá Canela. Despacha-te que chegas atrasada a escola…
Um dia Canela sentou-se a meio do caminho. Dizia que era o cansaço que a impedia de continuar o percurso. Sentou-se no meio da estrada. Tirou da mochila, linha e agulha e cozeu a saia por entre as pernas - uma menina bem comportada não deixa sugerir suas vergonhas. Veio a tarde e Canela viu o sol se despedir. Quase noite e Canela assistiu a gente da ilha a regressar a casa. A cada um explicava:
- Tenho um cansaço tão tão … cansaço que me impede de sair deste chão. Mas não se preocupe estou mesmo feliz. Só cansada…
Ao fim da terceira repetição Canela gravou a ladainha que justificava estar sentada no meio da rua. A cada nova abordagem Canela rebobinava a fita e reproduzia:
- Tenho um cansaço tão tão … cansaço que me impede de sair deste chão. Mas não se preocupe estou mesmo feliz. Só cansada…

Passado umas horas já ninguém se importava se Canela dormia no chão.
Essa capacidade que o ser humano tem de a tudo se adaptar destrói qualquer esperança de rebeldia contra a injustiça. Assim o que parece estranho rapidamente passa a corrente.
Petronio acompanhou Canela desde o inicio. De noite foi para casa. Jantou e correu para se deitar com Canela que de tão cansada informou que por ali passaria a noite. De repente era normal dormir ao relento. E o amigo trouxe um cobertor para agasalhar a noite da amiga.
Enrolados na manta colaram seus corpos. Pés com pés, abraços a responder a vontade de amar. No meio do caminho, dois jovens amigos descobriram o desejo de um estar no outro tão dentro de cada corpo.
Esquecido o cansaço veio um abraço que selou o abraço.
Docemente Canela recorda:
- “Não sei de onde vinha a luz que envolvia o meu corpo, se era sol ou era lua. Pudesse pintar o sabor daquela noite que ainda trago no corpo”

20/11/2006

Comunicação - Que armadilha!


Um dia qualquer de agosto de 1988. Conto pelos dedos - 18 anos? A Simone sem rugas. A Geninha a falar brasileiro com sotaque açoreano... É na RTP - O canal dos anos passados. A memória feito fotografia em visita ao presente - TRETA!

No odisseia - espanto! RealDolls... bonecas articuladas que fazem companhia aos japoneses solitários. Num quarto o fulano de tal guarda 30 delas. Todas vestidinhas. Num golpe de mágica tira-se a cabeça para trocar a roupa da boneca. Sem a cabeça parecem todas iguais.
Esse tal leva Kia - a preferida - a passear pela floresta.
- Ela não tem como resistir. Se quero tirar-lhe uma foto - tiro! Esta é a mais temperamental...

Trinta e oito anos, olhos em bico o novo Gepeto comenta:
- O homem não é sensível à pura beleza mas à sensação de algo que intui o belo... é isso que quero quando construo uma boneca. Não sei se é normal. tenho 38 anos em vez de fazer filhos, faço bonecos...
Por trás um casal pequenino de bonecos a sugerirem real felicidade.
Parece que é médico, psicológo, antropólogo ou sociólogo. A verdade é que comenta seriamente o que arrisco apelidar de distúrbio:
- Aqui a comunicação faz-se! O homem alcançou o intangível. Deu vida ao corpo inerte. Projecta a boa comunicação...
E como tudo faz parte de uma sociedade sem problemas de comunicação, um executivo que não pode se identificar mostra as habilidades da cabeça para os pés. Primeiro eram as insufláveis, pouco jeitosas. Agora são já perto de 50. Nunca as abandona. Mesmo velhas mantêm-se fiel.

Na net esses brinquedos custam quase 7000 dólares.

Arrepio que atravessa minha espinha. Ontem propus fazer um boneco que me desse adeus quando saísse para viajar. Ou que recebesse as visitas que viessem jantar.
Um amigo disparou: - Queres um boneco virtual...
No ar adivinho o medo. Não o defino - sinto!
Tento explicar que só quero esculpir um boneco como pinto um quadro - a minha expressão sintetizada num gesto...
Nada a fazer. Não me faço entender.

Fazer amor com LoveDolls. Haverá moral da história nesta história?

A menina será Canela! Vai temperar a vida, seja ela bonita ou feia

Na terra pura a semente dá fruto, assim é quando se ama. O corpo se abre ao ciclo da vida. Quando as regras faltaram Virgínia adivinhou outro movimento no seu ventre.
Nove meses no tempo corrente – a eternidade na esperança de quem acolhe no corpo a cria.

De longe o Mestre assiste cada capítulo da vida daqueles que um dia abandonou. A arrogância fez da dúvida a certeza, do relativo o absoluto. Quando o medo se instala a dúvida se transforma em verdade. Levantamos o corpo, inspiramos todo o ar com medo de não respirar, abrimos os olhos como se só arregalados soubéssemos poder ver a verdade, e por fim lentamente apontamos para o mal. Mal damos pelo ar que nos falta, tão pouco reparamos o nó que nos faz contorcer o ventre. Continuamos a apontar a poente como se fosse a lua culpada da noite. Sem voz ameaçamos um grito no escuro:
- Vem de fora o mal que atormenta minha paz!
Se nessa hora houvesse um espelho… Tremenda seria a surpresa do engano!


Nem João deu conta do medo do amigo Augusto. Deixou-o partir.
O Mestre palmilhou Setembro sem nunca deixar de ouvir Petronio. Se chorava de fome ou se ria de nada. Adivinhou a língua enrolada imitando a mãe. Recolhido Augusto escutou seu corpo lamentando o desejo. Vontade de voltar. Disse alguém que o tempo não recua ao passado. E assim sem saber como nem porquê Augusto foi ficando por lá. Do lado de fora da ilha.
Quando Canela nasceu Augusto assistiu. Julgou adivinhar nela a solidão. Vestidinho de cambraia cor de rosa. Uma cabeça que teima em sair do lugar. O sorriso que disfarça o desconforto do não entendimento.
- Canela! Por onde viaja a tua cabeça menina?????
- CANELA!!!
Canela, Caanela, Caneeela! Fosse na clave de sol, fosse na clave de fá Canela - agudo ou grave. CANELA sem nunca acertar.
A menina foi crescendo com o som do seu nome feito ladainha de um mal sempre presente. Nunca respondia porque simplesmente nunca soube a resposta. Ouvia simplesmente. Espantada não reagia. Como dizer que lhe faltava o entendimento dos gritos desesperados a pedirem justificativas de cada um dos seus actos?
Com o correr dos tempos Canela deixou de se importar com a resposta. Seria isso a tolerância? Seria isso a solidão?
- Mãe que importa se nove e dois são onze se conto noves fora dois? Vale o onze? Eu vejo dois números que se namoram sem descanso…Mãe! Nunca ouviste a história do onze?

Só passados onze segundos,
onze horas, onze dias,
onze anos, onze séculos,
voltas a encontrar sintonia.

No intervalo somas, multiplicas, substrais,
divides num resultado sempre diverso.

Olhas o rio. Aceitas a corrente,
Se fores budista aceitas a vida.
Se for diverso o que sentes
Aceitas sempre

Enquanto aguardas
Por um novo ciclo.

Onze segundos, onze séculos
Redonda sintonia …

- CANEEELAAAAAAAAA! Cala-te!

- Mãe que importa … o onze se vejo dois num eterno namoro?

Canela e Petrónio são os primeiros nascidos em Setembro. No notário ficou escrito em edital:
“Os nascidos na aldeia de Setembro serão Setembrinos”.
Assim como quem nasce em Lisboa é alfacinha, quem nasceu em Setembro é desgarrado. Apesar da lei ter ditado o contrário.

Quando Maravilha menstruava restava na cama febril todo o ciclo. Um aperto no peito parecido com a saudade acompanhava o derrame.

- Mestre por onde andas? Saudades que tenho do amor que te tinha… Mestre quantos anos serão precisos?

Toda Setembro escutava o lamento. Todos fingiam nada ouvir.

- Maravilha…
- Canela. Cala-te!

- Mestre! Quantos anos meu amor, serão precisos para apagar essa saudade que tenho do amor que te tinha?

Quando Canela menstruou pela primeira vez. Adoeceu. Arriscou:
- Mestre!
- Cala-te Canela. Enlouqueceste?
- Sofro do mal de Maravilha? Meu corpo perde sangue… Mas não entendo a saudade mãe… A dor no corpo? O nome do espasmo?
- Cala-te miúda. Vais sangrar durante oito dias. Depois o corpo seca. Passados 28 dias voltas a sangrar…
- Mas porquê? É alguma maldição?
- Canela… coloca a toalha dentro das cuecas. Quando estiver encharcada troca por outra.
- Mas mãe…
- Filha… Cala-te.

Por muitos anos Canela acreditou ter traído a vida. Um castigo igual ao de Maravilha.

- Mestre! Quantos anos? Ai a saudade do amor que te tinha…