31/03/2011

AUGUSTO

Augusto acordou com um peso estranho na cabeça. A noite tinha corrido sem tempo medido – escura. Melancólica. Nauseado  levou  a mão à boca  numa tentativa frustrada para conter as tripas revoltas. Limpas as vísceras, resta um cheiro desobediente que invade toda existência.  Se conseguisse lembrar como é a primavera talvez aliviasse este presente fétido. Há momentos em que a memória inventa o passado, traindo a verdade do sofrimento. Como inventar a dignidade se ela fugiu sem avisar da partida?

Augusto forra o colchão com os últimos lençóis limpos. Um branco fingido veste a cama. Algumas nódoas fazem prova das noites descuidadas. Mesmo que tingisse de preto não conseguiria disfarçar o passado. E preto, nem pensar! Passaria a noite acordado com um medo de morte. Na mesa de cabeceira improvisada repousa um cinzeiro imundo. Nenhum candeeiro resistiu às quedas diárias. No tecto uma lâmpada mal ilumina o chão gasto, disfarçando a poeira acumulada de anos. Um móvel de estilo rococó, encontrado no lixo, arruma o que resta da vida deste homem cansado.

Em pé recorda as noites felizes vividas naqueles lençóis. Uma lágrima tímida dança em seu rosto. Quem inventou que a felicidade não magoa? Assim são as tempestades, furacões, terramotos, tsunamis. Belos quadros recheados de dor.


Deitado quer sonhar, ocupar o tempo que resta entre hoje e amanhã.
Augusto lembra-se do rio que banhava o terreno da casa dos pais. Nem sempre acolhia o obstáculo. Às vezes sem força dividia-se em dois. Tantas vezes Augusto fugiu da dor que dividiu-se em pedaços cada vez mais fracos. De costas encontra o tecto. De bruços encontra o cheiro das penas de um travesseiro antigo.
Longe vai o tempo das caminhadas em Sintra. Qual era o caminho que o distanciava do abismo? Fosse ele qual fosse Augusto o desprezou.

Torturado leva a mão a cabeça. É aí que dói. Nesta ferida que não pára de abrir. Entretido Augusto pesquisa cada saliência. Um líquido desconhecido molha seus dedos. Em  criança bastava o leite para alimentar a fome. Depois aprendeu a ler e saciou a curiosidade de outras vidas. Foi temperando o pensamento de condimentos sofisticados.

Talvez o corpo estivesse expulsando o excesso. Esperança de uma nova vida – que seja drenado o pântano. Augusto procura seu canivete – presente da mulher que o amou um dia. Leva devagar, com cuidado a lâmina à ferida. Sem hesitar vai abrindo a cabeça como se construísse um caminho. Doía mas Augusto não sofria, tal era a esperança de um ser renovado.

O sangue banhou a cama. Majestoso, partiu sem dizer adeus.

29/03/2011

Qual a cor do mar de agora?

Vila Celeste, 11 de Maio de 2000

Um panfleto circulou pelas ruas chamando o povo. Rezava assim a publicidade:
Não perca o  "Primeiro Desfile Primavera/Verão das Trabalhadoras de Sexo

Da aldeia meia dúzia de jovens, meia centena de velhos. Mais de um milhar de estrangeiros curiosos. Maria envergonhada escondia a mão direita nervosa. A  velha espiava pelos binóculos do falecido. Seu José na esquina lambia os beiços. No palco, uma bandeira esvoaçava ao som do refrão:

Somos putas, somos putas
a mais velha profissão
Somos putas, porque não?


Ninoca,  trabalhadora da ONG distribuia sorrisos. Com uma embalagem na mão esquerda, gritava:
- Sexo é bom com camisinha! Verdes, amarelas, azuis com sabor a hortelã...
 Nenhum partido polí­tico compareceu. Nem para apoiar ou censurar. Nestes eventos os polí­ticos perdem-se. Um ou outro ousou aparecer disfarçado de povo.
Com um sorriso desavergonhado, Oncinha anunciou:

- Povo Celestino! Esta é uma data histórica para todas nós, mulheres.  Aqui nesta vila com o nome da nossa padroeira, inauguramos o nosso primeiro desfile.Uma roupa democrática que não escraviza gordas, ou magras e não escolhe idade. A estudante, a senhora casada e até a viúva enlutada pode vestir. Uma roupa que atende a ricos e pobres.

Entre santos e pecadores, o sexo comercial foi legalizado, contra a vontade da igreja pela voz de Régio.

Em Novembro desse ano, Dario resolve moralizar  os costumes e toma o poder com Régio.
Anuncia novos impostos. Joga golfe todos os dias. Num campo verde de mentira, feito a dor que a gente sente.
Brutti, sporchi e cattivi e o povo unido jamais será vencido!

Nosso povo virou plástico. Ao menor sinal de fogo - derrete!
Um ginásio a cada esquina. No bar, tofu e aguardente. Em cada semáforo um oriental falsificado que faz Tai-Chi. Na mão direita envergam uma bandeira vermelha.

Queimaram os filmes e do mar só resta o som. Desde então o céu mudou de cor - cinzento. No horizonte ergueu-se um muro a esconder o infinito.

Deus segreda todos os dias qual a cor do mar de outrora. Não sabe qual a cor dele agora.

10/03/2011

Domingo

Lethe limpava o teatro sempre depois da meia-noite. Papeis de rebuçados, catálogos rasgados, o lixo que os pés trouxeram da rua.
Como forma de aliviar o trabalho, entretinha-se a inventar histórias entre as filas pares e ímpares.
‘Se as filas fossem divididas entre vogais e consoantes, onde se sentariam os casais?
Com o tempo a limpeza ficou-se em exclusivo pela limpeza e o lixo passou a ser um universo de coisas diversas. Uma folha colorida, um lenço perdido, o pó teimoso acumulado nas frestas. Cada cadeira era uma descoberta. A vassoura ganhou a solidão. O balde ficou seco. A sala ficou maior, a noite ficou pequena.
No Domingo passado, Lethe saíu de casa sem as chaves do teatro. Ainda ia tempo de encontrar Ernesto na bilheteira a fechar o caixa.
- Sr. Ernesto, esqueci-me das chaves em casa...
- Lethe, onde anda a tua cabeça?
Tímida, pede desculpas.
- Entra aqui pela frente. No meu escritório tenho outras chaves. Quando saíres tranca tudo. Deixa as chaves debaixo do tapete da porta da minha casa.
Pela primeira vez em vinte anos de trabalho, Leta entra pela porta da frente. Para no hall ainda iluminado por um imponente lustre de cristal e dirige-se para a galeria dos números pares.  Seus olhos colam-se à cortina de veludo vermelho.
Com pressa corre em direcção ao palco. Pouco importa se anda de Sul para Norte. Andou sempre ao contrário. Tropeça e cai. No chão liberta a voz sumida:
“Cheira a crisântemos vermelhos...”
- Lethe, o que te aconteceu? Acorda rapariga...
- Sr. Ernesto, o que há depois da cortina?
- Como assim, ficaste maluca?
Envergonhada disfarça a ignorância.
- Ando mesmo cansada. Vou ficar aqui um bocadinho e já saio. Amanhã limpo tudo. Pode ser?
Ernesto ajuda-a a sentar-se. Lethe espera ansiosa que a deixe sozinha.
Quando Ernesto bate a porta, Lethe solta um suspiro profundo. Todas as noites limpou o teatro de costas voltadas para o palco. Nunca se perguntou o que faziam tantas cadeiras alinhadas sempre voltadas para sul.
- O que esconde esta cortina?
Devagar aproxima-se do palco, do lado direito uma pequena escada ajuda a subir.
Por baixo, o fosso da orquestra. No horizonte de Lethe, a plateia que limpa, agora vista de outro ângulo. Por trás, uma cortina vermelha à italiana.
Para quem se encantava com a descoberta da diversidade do pequeno lixo, o mundo acabava de ganhar uma dimensão brutal. O que escondia a cortina?
Lethe nunca foi pessoa de grandes questionamentos. De madrugada quando regressava do teatro, deitava-se até a hora do almoço. Por volta das duas almoçava. Na parte da tarde limpava a casa de uma velhota. Às oito jantava e deitava-se até a hora de ir para o teatro. Entre intervalos, distraía-se com a televisão. Viveu sempre sozinha. Nunca ninguém a viu acompanhada.
A descoberta do lixo das pequenas coisas alterou a rotina de Lethe que deixou de se interessar pela televisão. Como sempre foi uma pessoa disciplinada arranjou pequenas caixinhas de papel onde passou a separar o lixo por famílias. Os papeis de rebuçados eram tantos que Lethe teve de subdividir em mais caixinhas. Os papéis verdes de alumínio, os papeis de celofane vermelho, os papeis para a tosse, etc.
Arrumar o mundo dá trabalho. Encontrar uma ordem para que se consiga depois esquecer a mesma. Lethe ainda estava a tentar encontrar a ordem lógica das coisas pequenas, quando esqueceu as chaves do teatro.
Em criança quando sentia medo, sua mãe cantarolava:

O pó faz no chão a sua cama
Uma cortina esconde a vida
Cheira a crisântemos vermelhos

A mesma que escuta agora baixinho do outro lado do palco.

Abre a cortina, Lethe. Deixa-me ver o resto.

05/03/2011

Fungagá


Quando tocou a campainha Dulce pediu-meque abrisse a porta. O pedido fez-me sentir elevada a um estatuto de amiga, até há cinco minutos desconhecido.
Do outro lado, estava um homem com um bigode que não ultrapassava a fronteira das narinas. Um chapéu na mão direita, vários embrulhos na mão esquerda.
Entrou atrás de mim, beijou  Dulce rapidamente e fugiu para outro lado da casa.
- João, onde vais?
- Vou ao quarto...
No regresso, olhou-me e disse:
- Eu conheço-te! Trabalhaste no Funfagá...
Respondi logo que não, mas a certeza dele começou a deixar-me insegura.
- No Fungagá?
- Tenho a certeza, tinha lá uma Lexa...
Nunca conheci outra pessoa com o meu nome, só podia ser eu.
- Mas em que ano?
-1974...
Será que eu trabalhei no Fungagá e não me lembro?
A verdade dele é tão mais segura que a minha que ainda peço desculpas pela minha falta de memória.
Porém algo em mim impede-me de embarcar na segurança de João que feito uma borboleta esbraceja deixando a minha afirmação fraca e mentirosa.
- Nunca trabalhei no Fungagá...
No elevador conto de 1 a 10 para ter a certeza de que ainda sei contar sem tropeçar no intervalo da dezena.
Há dias em que o sublime da vida é saber-me viva, apenas.

02/03/2011

Crisântemos

À noite o pó faz do chão sua cama
Nele se deita com intimidade.
Uma cortina esconde
Do lado de lá  a vida.

Cheira a crisântemo
a vontade que tenho
Quando o azul
atravessa o vermelho