14/02/2011

Maldita economia que nos rouba a elegância de uma mesa bem posta.
Joguei contra a parede o último cálice.  Marcava a minha diferença. 
Sou agora tão pobre quanto todos os outros miseráveis. 
Doença epidemica que prolonga a vida.
Não há pão que assista o meu ventre inchado de fome.
Ao meu lado, dorme o cão vadio. 
Maldita economia que nos roubou a elegância de um cão bem posto.
Branco de preferência.

Dançam borboletas na paisagem verde
Adormece a leoa coberta com amor
Vive a vida, a hora, sem pressa
Morna, suada, preguiçosa.
Deixo que o vinho escorregue pela garganta
Desenhe em mim um poema sem regras
Aqueça meu corpo.Encontre meu ventre e procrie.
Criança desejada, semente de amor.

Encontra a Besta o Anjo com sede
Amor adiado.

A Besta e o Anjo

Liberta agora a Besta, encontra o Anjo que nela habita
Não há Norte se não cruzares o Oriente
Mastiga cada palavra santificada, vem-te!
Quando a vida mostrar que o preto é também o branco
Confundirá a Morte o convidado, levando ambos.
A Besta e o Anjo.

09/02/2011

Cinema

Na escola, aos 16 anos, só gostava dos Lusíadas e da equações matemáticas. Fora dela, a vida acontecia todas as quartas- feiras, às seis da tarde, no cinema Império. Todos os outros dias eram a memória do último filme e o desejo da próxima quarta-feira.
Amores proibidos, paixões escaldantes e sempre um beijo prolongado na boca.
The End -  uma cortina imponente descansava o cinema. Meu corpo estremecia. Saliva na boca, a desejar nos meus lábios todos os beijos. Fui queimada e santificada, mulher da vida em todas as camas. Menina e moça sofri a morte do heroi. Vivi a dor injusta da guerra. Viajei pelo mundo. Andei de bicileta. 
Com o corpo suado dancei o tango nos braços fortes de cada um dos meus amados. Na calada da noite procurei em cada porto, o amor que embarcou sem dizer adeus. Com um lenço branco celebrei a paz. Fui a terra fertil de cada colheita. O sol quente em cada manhã.
Com cinema celebrei este amor sempre fiel, que se deita com todos os filmes. Sem nunca trair.


Entre partir e chegar - sentar. Apertada na poltrona cada vez mais estreita, coloco o cinto de segurança. Da janela vejo o branco que se perde na escuridão.
Tento dormir mas o queixo encontra o peito e sufoco. Fico com sono.
Tranquilo, viaja de olhos fechados. Um sorriso na face acompanha o homem sereno. Parece um poema contínuo. Sem fim. Contagia meu corpo. Endireito as costas. Pouso as mãos nas minhas coxas. Deixo-me estar. Devagar, escuto o ar que respiro. Meigo é o tempo que agora me abraça. Descoberta que emociona.
Uma lágrima dança na minha boca, como se fosse eu, o horizonte deste caminho novo.
Fecho os olhos. Sem pressa, sorrio.
Ao meu lado adormece o poema inacabado:

Dormi o sono dos justos, sem nunca ter acordado. Encontrei o sonho. Repousei os demónios.
Intervalo de tempo. Passado o engano, na fronteira do indizível encontro o silêncio. Aqui, onde o mar e o rio se unem e separam. Salgado e doce, dentro e fora, a mesma água. Repouso sem adormecer.



07/02/2011

dormiu o sono dos justos
sem nunca ter acordado
encontrou o sonho
repousou os demónios

...eis o engano!
Na fronteira do indizível encontro o silêncio
Aqui, onde o mar e o rio se unem e separam
salgado e doce, dentro e fora, a mesma água

Repouso sem adormecer

04/02/2011

Quero um homem feminino que faça amor, quando se deita comigo. E no momento do prazer, que o dele seja o meu, tão feliz eu fico com seu deleite.

03/02/2011

Falar de mim é fácil. Acordo todos os dias. Umas vezes feliz, noutras triste ou nem por isso. Falar das coisas, de tudo que faço parte e me acolhe, não sei.
Aproximo o meu olhar. Colo meus olhos no fio de cabelo. Sem perceber como, o desconhecido volta a encontrar-se comigo e eu assustada distancio-me.

Falar de mim era fácil. Desde essa viagem, deixei de saber onde começo e acabo. Perdi o meu eu, antes tão bem delimitado.
Olho-me ao espelho e vejo-me a continuar no outro e no outro sem dar conta de todos os outros onde pareço existir. Meu perfume na flor que desabrocha. O leito do rio que desagua em mim.
Falar de mim é falar das coisas. Que faço parte e me acolhem. Ainda, não sei.

01/02/2011

Não há nada que dure para sempre...

Sempre acreditei o contrário. Nunca tinha visto a vida acabar. Mas agora, havia uma despedida, e eu tinha de aceitar que Miguel dizia-me a verdade. Nesse dia, a dor casou-se com o sofrimento. Perdi o amanhecer, não dei conta da noite.
Mais do que a dor da despedida, roubaram-me a eternidade. Viver debaixo deste postulado, determinando que tudo tem um fim, fez do meu mundo um corredor estreito.
Começar tudo de novo. O tempo foi definido em intervalos. O dia acaba. A noite finda. Uma largarta morre. Uma borboleta nasce. "Tudo acaba um dia". Foi com essa afirmação que o meu corpo quase assumiu o seu fim.
O dia se prolonga na noite, todos os dias. Umas vezes fria e escura, à espera da cor no dia seguinte. Noutras quente e suada, pede o fresco do amanhecer. Muda a cor, muda a temperatura e é dia e noite todos os dias. Na Primavera, Verão, Outono, Inverno e de novo a Primavera o dia é sempre dia. A lagarta cresce bem devagar até ganhar a asas da borboleta.
Meu mundo cresceu, lá fora o dia é dia de novo. A borboleta nasce e morre. Entre nascer e morrer, voa.
Fosse a vida finita
com um início e um fim
o pecado seria só um
acreditar que a vida
não tem fim

quando tudo parece findar
nasces de novo
sem dares por isso
sorriso que prolonga no riso,
antes o pranto
outro sorriso de novo
entre inspirar e expirar
respiras
entre amanhecer e anoitecer
é dia

Quando voltar a ver Miguel, com um abraço, segredo bem de mansinho:
- A vida não existe sem mudança...