08/12/2008

Um casaco beje

Em criança pensava que umas pessoas nasciam nas esquinas e outras na maternidade. Quem nasce na maternidade cresce devagar, quem vem da esquina já nasce com rugas e morre sem dentes.

Quem determina que entre nascer e morrer alguns enlouqueçam de dor?

No inverno mudam a hora. O sol diz-nos adeus antes da hora marcada. O hábito se assusta e pede ao sol que se despeça devagar até que a noite seja companheira.
Marquei com ela às cinco no bar. Quando cheguei ainda era dia, ela atrasou-se dez minutos e chegou já noite cerrada. Alta, esguia trazia aos ombros um casaco beje de veludo recheado das histórias que vivi com ele no passado. Não há como não reconhecer que combina melhor com o tamanho dela tão pequena eu sou. Este ano o inverno chegou cedo , abrigou-se nos corpos de quem passeia na vida.
- Tenho comigo as chaves do meu carro que agora é teu, fica com ele por favor...
Olho para o casaco que ela veste com intimidade. Falta-me a força para dizer que não. Viajo no passado – um dia esse casaco que nunca vesti, vestiu o homem que amei sem limites.
- É bom esse casaco, não é? Tem um forro que protege sempre do frio. Vou pedir um chá porque morro de frio, queres um também? Como foi a visita ao médico? Já dormes?
Ela sorri distraída. Está tão escuro no bar que ninguém vai reparar nas lágrimas teimosas que lavam meu rosto.
- O médico é o máximo! Meu casamento ... Desde há quatro anos que vivo em função desse novo amor. Imagina que o médico também leu o livro As velas ardem até ao fim, incrível!
- Não queres tirar o casaco.? Tens a cara corada – deves estar cheia de calor
- Ele vai se mudar em Janeiro para minha casa. É melhor chamá-lo para tomar um café connosco, não achas? Já tens a chave do carro – fica-te barato. O seguro não é caro, o selo do carro baratíssimo. Estacionei-o à porta da tua casa. Não me deves nada amiga, é todo teu.
Não digo que sim, não digo que não. Despeço-me com um beijo. Meu coração combina com a chuva da noite - fria.
Esqueci as chaves do carro dela em cima da mesa do bar. Se eu tivesse um casaco daqueles nunca sentiria frio.

Tenho rugas na face – como se tivesse acabado de nascer.

Antes de deitar todas as noites esvaziava o coração

Antes de tudo, antes de qualquer começo deixa-me dizer-te que tenho comigo a caixinha de couro onde guardei todo meu tesouro. Não te apresses em querer saber, deixa-me contar devagar. Pouco resta na caixa, deixei que me roubassem cada beijo que guardei desde o primeiro que troquei. Não ficou um só. Nem aquele que ameaçou nossas linguas juntas sempre, nem todos outros.
Guardo na caixa a memória. Vou libertá-la. Deixar em paz quem roubou minha história.
Tocou cada um dos meus dedos envergonhados, pele crispada, boca seca, minha coxa no joelho dele. Foi assim o começo. Antes do primeiro beijo.
Invadiu minha boca. Inventou minha história.
Sem pedir licença, entrou no meu quarto, rebuscou minhas gavetas, espalhou meus segredos, abriu minha caixinha de couro. Quem rouba assim deve ter uma boa razão. Até hoje não sei quem foi o ladrão - que ele descanse.
Agora que te conto o resto Cleo, fico sem história.

Todos os dias
esvazio meu coração
Tão sagrados beijos
meu coração ainda cheio