30/04/2011

Esperei-te em silêncio, num recanto qualquer da minha existência.
Esperei sem descanso,tua  visita sempre adiada.
Esperei, sem dar conta da hora. Mas tu não vieste.

Faz-me acreditar que o tempo não existe.
Cala os meus lábios nos teus.

Lembrança

tantos abraços dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida

fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam

amor que agora sinto
um dia, tão longe, pó
no corpo, lembrança

27/04/2011

Juras de amor

em cada beijo trocado
teu corpo embriagado
compasso binário
meu corpo no teu
eterna é a pausa
quando chega a primavera
desabrocha a flor, o beija -flor

espalha o polen, a borboleta

encontra a noite o amanhecer

ama sem tento, com intento

semeia meu corpo manso.

26/04/2011

quando o nosso olhar
vazio, procurar o tempo
serei tua noite quente

estarei contigo na despedida
no despertar, entre o que sou

25/04/2011

BRISA DE OESTE - Pintura de João Serrano

Deixa-me voltar atrás. Prometeste-me a brisa de oeste. Abriste a janela. Deixaste entrar o vento e com ele o resto. Prometeste-me a maresia, odor ausente. Salgado. 
Tuas mãos pintaram a cor... no meu corpo febril.
Prometeste-me a brisa, abriste a janela … vento de oeste, maresia perdida.
Tuas mãos azuis no meu corpo vermelho. 
 Devolve-me o branco antes que eu aconteça!

22/04/2011

ROTINA

Adriano chegou ontem mais cedo. Fiquei perturbada com a mudança. A rotina era chegar sempre mais tarde. Nunca conseguíamos jantar antes das nove e meia. Teimosa colocava a mesa sempre às oito - esperança vã.
Ainda não são sete da noite e Adriano já está em casa.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não - responde-me, sorridente.
Meu coração dispara. Se ele está assim é porque aconteceu mesmo alguma coisa e não me quer contar. Disfarço o medo.
- Tens fome? Ainda não tenho jantar feito. Sempre chegas tarde. Logo hoje que me atraso, tu adiantas-te...
- Querida, está tudo bem. Queres ir jantar fora?
Meu corpo treme de raiva. Como pode ele convidar-me assim do nada. Nunca o fez em mais de uma decada de casamento. Nem antes, quando namorávamos.
- Queres jantar fora, amor?
- Adriano, por favor, diz-me. O que se passa?
Franze o sobrolho, começa a ficar zangado. Vira-me as costas. Vai para o quarto e regressa de pijama.
- Faltam-te as pantufas, não vês que estás descalço?
Sem responder, senta-se em frente à televisão. Devagar despe a camisa, em seguida as calças. Sem expressão pergunta-me:
- O que falta agora?
Fujo para a cozinha. Assim nem às dez jantamos!
É sempre a mesma coisa. Detesto a rotina.

14/04/2011

MARESIA

Vem de oeste o vento
maresia
doce vontade de continuar


Ama sem nunca acabar de amar
Invade o corpo sem pressa
Intervalo que prolonga a vida


Vem de oeste o vento
tudo traz sem nada ter
momento desperto - vazio