29/12/2010

FESTA

Entre touros e porcos - sangue
O homem trabalha todos os dias
Num só, mata a sede e a fome
O corpo treme e fode

Aquele morreu de morte matada
Na cela o grito seco, calado
No corpo, a dor não revelada
Um buraco na terra
Dentro dela, a mulher adúltera
No rosto, a vergonha explorada
Na mão do justiceiro, pedras
Na procissão, um anjo de cera
Nas costas, o peso
 
Entre touros e porcos -  sangue
Ordena a tradição, submissão
Grita o porco por compaixão
Na mão do homem - faca afiada
De morta matada
Morreu apedrejada
Um é preto, outro pobre
Criança sem nome, com fome
Na rua, a procissão
Nas costas, um anjo
Pobres de espírito
Pobres, sem nome
 
Dia de festa

Dá-me teu corpo suado, em nome do Homem
Rega meu ventre de vinho, em nome do Homem
Rasga-me por dentro, em nome do Homem
Amanhã parte, em nome da Liberdade

Ama.

27/12/2010

JANTAR

Jantei ontem na casa da Aurora. Entre corredores e portas habitam quadros, livros, estantes. Preso ao tecto, no hall de entrada dança uma mandala azul, feita de lixo reciclado.
No caminho para a casa de banho pensei nas voltas que dou à procura de um espaço para respirar. Não fosse o lavagante à minha espera no prato e teria ficado mais um bocado sentada na sanita, ganhando folego.
Existir, nem sempre é fácil. Aqui todas as paredes estão decoradas. Aqui habita a cultura arrumada em prateleiras. Os castiçais são originais. Uns tem mais velas que outros. Perguntam-me se festejei o Hanukkak, no dia 2 de Dezembro.  Como o poderia? Nunca sei a data. A última vez que o celebrei foi na escola primária.
- O lavangante reclama tua presença!
Na sala de jantar, no canto direito um pinheiro lembra o Natal. No meu prato, um lavangante morto faz-se acompanhar de uma salada verde. Em seguida, um perú completa a festa dos animais sacrificados. Estamos na quadra onde todos fazem votos de felicidade. Enquanto ela corta a perna do animal, ele levanta o cálice em nome do amor ao próximo.
Na sala partilha-se um passado que me esqueci. Ele reclama, ela exclama. Se eu pudesse regressava à casa de banho. Não consegui contar todos os azulejos. Uns são mais verdes que os outros. Não sei quantos são.
- Vocês fizeram obras na casa?
- Só na casa de banho. Colocámos as máquinas, lá. Assim ficam longe da cozinha.
Lembro do forno. Dentro dele, restos de perú guardados. No lixo, as cascas dos lavagantes.
Peço desculpas, estou cansada e já passa da meia-noite. Despeço-me agradecida.
Entre abraços e beijos, ansiosa pergunto:
- Não se importam que eu volte cá um dia destes? Preciso acabar de contar os azulejos mais verdes.
A noite está fria. Na minha casa respiro entre quatro paredes namoradeiras. Um dia corro o risco da sala se transformar num corredor, tal é a tentação dessas paredes serem só uma.

24/12/2010

Neste Natal

Parto em busca do amanhã. Encontro assistido, presente. Dia em que todos lembram de todos. Quente é o ar que respiro. Abraço o dia. Invento a tua cama, nela me deito - até sempre.

10/12/2010

CIGARRA

Canta a cigarra. Desce a colina sem pressa. Inventa o passo, adorna o compasso. Equilíbrio descontinuado. Sonha com a  Primavera. Sorri da desfeita do tempo. Um dia nasce o sol, noutro vive apagado.
Abraça nos bares, o corpo do viajante. Um passo atrás dita o bom senso. Um passo à frente, adivinha o horizonte. Enquanto dorme, acorda. Enquanto canta, chora. Preguiçosa se entrega na madrugada. Suores a lembrar a montanha. Solitária descobre-se do outro lado.
Canta cigarrra
Canta
que o mal espantas.
No pântano nasce outra flor.

09/12/2010

PALADAR DA LOUCURA | PREFÁCIO DE PAULO BORGES

PREFÁCIO
“A vida sem fim”

Conheci a poesia intensa de Ethel Feldman quando a sua paixão incendiária e luminosa visitou o meu blogue
Serpente Emplumada e o da revista Cultura Entre Culturas. Porque a poesia de Ethel é isso: fogo e luz. Fogo de um amor cuja saudade o recria em tudo e luz de quem redescobre a eternidade dessa fusão a cada instante. Poesia de mulher total, que assume todas as possibilidades do feminino, da carne ao espírito, em seu âmago se celebra o encontro-beijo redentor que suspende a ilusão de haver dois:

“Sou a puta da esquina, sou a virgem Maria.
Se o teu tempo for só de um segundo será nele que inventarei a eternidade.
Se o teu tempo for de um compasso, que seja de pausa, porque urge o silêncio.
Se for um desenho que seja branco – tão intenso.
Eterno é o momento quando me beijas por dentro”

É esse o tempo “sem hora marcada”, o “tempo sem tempo” e por isso “com tempo de ser”, epifania que advém no seio da mais funda embriaguez, essa em que a amada se torna o vinho que o amante bebe, em versos cúmplices da atmosfera do grande Rumi:

“Dá-me vinho antes do amanhecer
Com o cálice a transbordar
Banha-me nele até que embriagada
Eu seja o vinho que agora bebes”

O beijo dos amantes culmina num “eterno abraço” que fulgura no “intervalo” do existir, vazio e espaçoso, “modo de ser sem ser”, pois esta poesia, de paixão e “fogo-posto” sob a pele, também o é de desprendimento, o sapiencial desprendimento da vida que, tal o poema, renasce a cada instante da própria morte e voa ainda para além de si, pela comunhão desse “presente” onde cessa todo o “enredo”:

“Como o poema que nasce em cada estrofe
Morrendo abro caminho à vida”

“Nascer e morrer no mesmo dia. Entre nascer e morrer – voar.
[…]
Qual é o enredo da vida quando se encontra o presente?”

Tal como a vida que há nela, também de si mesma esta poesia se evade, ciente de só se habitar o mundo a partir do tácito abandono das prisões do dizer:

“Se quiseres continuar a estar
Abandona a palavra que te prende”
            Unindo o que visões mais estreitas separam, aqui é a própria paixão que conduz ao cume meditativo em que a presença do mundo se avoluma na consciência de como é “preciosa” essa “vida” que nas mínimas coisas se agiganta, pelos silêncios intervalares que as fazem cintilar na plenitude do vazio que entremostram:
            “Parece que o mundo cresce dia após dia. Uma flor que nunca vi. Uma nota que passou desapercebida. A migalha de pão esquecida na mesa. Preciosa é a vida. Cada intervalo de silêncio ampliado até à plenitude deste imenso e fantástico vazio”
            Tudo isto porque Ethel, ou quem por seu nome assina, vem de “Outras Paragens”, esse “lugar desconhecido” que afinal todos trazemos “mesmo junto do coração”. Se “em cada homem o universo se exibe inteiro”, este belo e comovente livro é também de cada um e de todos nós. Assim nos deixemos adubar da consciência disso, para que, como diz a poeta, em nossa mão também possa nascer uma “flor”, a flor de na sua leitura nos lermos, desencantando esse mais fundo sem fundo que em tudo sem tardar nos espera.
            Obra cuja “façanha” é nascer do coração, bem entremostra toda a imensidade de onde tão singelas e fundas palavras brotam:
            “Quem dera a vida nascesse do fim
            E os que tudo esqueceram
            Amassem quem nunca aprendeu
            Quem dera a vida fosse
            Um leve calafrio na espinha
            Um beijo na boca
            Um tímido ai
            Um dia sem data
            A vida sem fim”
            A vida não é porventura senão isso, Ethel. E este Paladar da Loucura, tão “sem fim” como a vida que canta, confirma o que escreveu Platão:
            “[…] o delírio, segundo o testemunho da Antiguidade, é uma coisa mais bela do que o bom senso: o delírio que vem de um Deus é melhor que um bom senso cuja origem é humana” (Fedro, 244 d).
            Assim é. Assim seja.


Paulo Borges 




NEVE

Neva na montanha. Em cada vale o abismo tenta a felicidade de quem se perde pelo caminho.
Gritam as gaivotas no alto mar.  Fogem as raposas do caçador.
O Outono ambienta o Inverno. Um colibri descobre-se fora da estação. Perdido, alivia o canto.
Na casa amarela o branco dá conta da cor. Dentro dela, um homem sozinho lamenta o engano. 
Adormece, alivia a dor.  
Acorda, pede socorro.
Lá fora, neva. 
Em cada vale, um rio congelado.
Rema o pescador contra corrente, inventa o isco, mata o peixe.
Fogem as raposas, silencia o colibri.
Uma folha amarela molhada de neve.
Uma flor que não se descobre. Nasce o sol em cada manhã. 
Escorrega a neve, pesada de tanto nevar.
Excesso que atormenta.
Foge o peixe da morte certa.
Uiva o lobo com fome.
Uma ovelha desgarrada, grita.
Nascem  meninos com frio.
Primavera que tarda.
Monta o cavalo a fémea em hora de fome.
Relincha a égua a violência.
Nasce o pobre.
Sacrifício que não se sustenta.
Na beira da estrada, uma vala.
Em todas descobre-se lama.
Na beira do rio um barco sem dono.
Abandonado
Um homem morre.
Desperta na Primavera.

04/12/2010

Visitante

Abriu a porta. Do lado de lá um sorriso deixava adivinhar boa gente.Abriu a janela para arejar a sala. Ofereceu a poltrona do avô. Pediu que se acomodasse enquanto ia à cozinha buscar chá quente do Himalaya. Aquelo rosto era familiar. Reconhecia em seu corpo, abrigo. 

Todos as manhãs preparava um chá para quem pudesse aparecer no fim da tarde com frio. Anos a fio, bebeu o chá sozinha.
Sentada em frente à poltrona vazia, aquecia as mãos na chávena de chá. Olhava o vazio. Enrolada na manta, lembrava de nada. Não conheceu o dono da casa, seu avô. Inventou que a poltrona teria sido dele  e respeitou essa propriedade sem nunca lá se sentar.
A despensa estava cheia de bolachas de canela e gengibre. Quando saía para as compras comprava sempre um pacote, não fosse a casa ficar cheia de gente e faltarem as bolachinhas na hora do chá. Abriu um pacote, esqueceu de verificar que a data de expiração já era de há cinco anos. Pouco importa a data agora. As bolachinhas velhas ainda estavam crocantes.
O tempo dita o limite da vida. É tão curto o tempo de agora. Já quase nascemos fora de prazo.
Da janela da cozinha sentiu a brisa fria do mar. As gaivotas anunciavam peixe morto na beira-mar. A noite estava próxima e corria o risco de passar a hora do chá.
Numa bandeja de prata colocou o bule herdado da casa, as chavenas brancas a lembrarem papel de arroz, um pratinho sem cor repleto de bolachinhas. Umas mais doces, outras picantes. 
Ajoelhou-se delicadamente como se seu corpo tivesse perdido o peso. Serviu o chá. Ofereceu ao visitante uma bolacha fora de prazo.
Em frente, sentou-se. Abraçou com as mãos a sua chávena. Enrolou-se na manta velha da casa. Esperou.
Sorriu. Largou a vontade. Notou o cansaço. Sentou-se criança. Partiu.
Dizem que a morte aparece sem avisar.


Poesia do Eu

A neve tomou conta da minha rua.  Abro a janela, deixo que o frio abrace meu corpo. No céu o fumo é testemunha de outrora. Esvazia a memória, morre a poesia.  Entre a dor que foi e volta, um sorriso intervala o eu.

Lotus

Chove no pantanal, 
molha o rio,
abraça o lodo

Joga a noiva
arroz semeado
Povoa a colónia 
enquanto for viva


Chora a viúva atrasada
Diz ao amante, 
amo-te  agora que és pó

Voa a borboleta
Encontra o dia
tempo de estar