30/11/2010

Inverno

as abelhas morrem antes do tempo, neste inverno que se prolonga.
o sol nasce timidamente, o dia despede-se cedo

é surdo o lamento do tempo 

ganhou o inverno saudade do tempo, quer ser inverno sempre.
nasce a flor de laranjeira, fora de tempo
anuncia a sombra o espanto
deste tempo que recusa a ser tempo
tão fora do tempo está

o velho declara amor eterno à beira da morte 
a velha sorri no leito do amado

muda o tempo e eu permaneço neste inverno que se prolonga teimoso.

29/11/2010

semente

natureza apetecida,
doce, molhada
semente somente

natureza reconhecida
no teu corpo presente
suado, molhado
semente somente

entre nós e ela
o oceano índico
o Tejo somente
semente

alonga-se o tempo
na esperança 
de outra esperança
semente

28/11/2010

BAIXIO

cala a gargalhada, solta o pranto, soluça baixo o escárnio, dança sem modos o canto.
desagua o rio quando nasce. ri quando chora, cala o pranto.
grita em silêncio o  engano.

voa a gaivota outro canto. branco tão branco
mar ou rio, salgado ou doce, nada o peixe
não ri
não chora
nada

nada/oco/vazio
espanto/branco
dor/sem cor/sabor
amargo/azia/azedo
medo/começo/morto
terra/semen/fértil-estéril
ventre/entre/mente/
vazio/oco/nada

cala a gargalhada - nada
solta o pranto - oco
Soluça baixo o escárnio - vazio
dança sem modos - branco
nada o peixe - ventre
caminha - mente


nada/oco/vazio

grita em silêncio o engano
lodo/lama/lótus


nasce a lua na noite

despe o sol o dia

morre a poente

no colo do ausente

21/11/2010

Perdida de paixão, a cor inventa o carmim. Azul, adormece serena. Negra, a cor se perde. 
Livre ama a cor o branco. Sem cor

14/11/2010

Disse o poeta

A borboleta cheira a flor e morre sem pudor,

Longa é a noite antes do amanhecer.

Se eu soubesse, mostrava a cor do Inverno em cada manhã.

O sino da Igreja toca todos os dias antes do meio-dia. Não sei se anuncia a morte ou uma vida agora nascida.
Diz-me o poeta que não fale de amor. Dou milho aos pombos, procuro o segredo antes do tempo.
Chove na minha rua, abro a janela antes que o tempo se vá e eu me esqueça.
Vi o sol de manhã, mal despertei. Perdi-o assim que acordei.
Se eu soubesse, mostrava a cor desse amor que o poeta anunciou.


Sei dele quando me perco.

13/11/2010

Os meus avós

Era Páscoa e ela levantava o cálice da avó  em tributo da terra prometida. Da cor do vinho doce era a vontade daqueles que motivados pela mesma vontade estampavam o sorriso na face. No decorrer das tardes as canções ninavam as crianças ainda de colo e ela aprendia a cantar porque o futuro prometia bem-estar.
Os velhos contavam histórias de uma terra sem nome onde o homem mata outro homem, sem nunca saber porquê.
Na minha infância, minha mãe falava da guerra, da dor e miséria dos homens sacrificados. Antes de morrer cantavam.
No fim da rua a padaria vendia pão ázimo. Na esquina o rabino apertava o passo em busca da esperança.
Meu avô vendia relógios, de porta em porta. Minha avó ajustava a vida, dia a dia.
As escadas da escola cresciam a cada degrau consumido. As brincadeiras de roda prometiam um namorado casamenteiro.
As mulheres eram putas porque o país que as acolheu dava o pão em troca da fornicação.
Os homens vendiam chapéus de chuva em pleno Verão, esperando a colheita no Inverno seguinte.
À noite fechavam as mãos em cada mão, faziam uma roda e riam da vida que a miséria não assistia.
Cantavam o hino da terra que sonharam em busca de paz.
O mundo sabia de cor,  a cor da dor de quem nunca teve a sorte de nascer imperador.
O peixe era doce e cru. A beterraba avinagrada.
A vontade de ser feliz era tanta como a tua agora que acabas de nascer.
O jejum era dos pobres que o faziam dia após dia.
Na rua Newton Prado moravam os meus avós. Vizinhos da vida viajaram sem regresso com um sorriso que não esqueço.
O homem mata o homem e nunca sabe porquê.
As mulheres vendem o prazer em troca da vida apetecida.
Bendita a memória que me assombra com um sorriso sem fim.
Nasce o dia agora, promessa de outro dia que nasce outra vez.