30/09/2010

AZUL

Azul foi ontem quando te ouvi e hoje depois que te li. Azul é quando sonho com o mar e o céu, que se misturam no meu olhar. Brilham as estrelas quando te canto. Fco azul, tão azul como ontem quando te ouvi. Tocas devagar o concerto nº2 de Chopin e o Maestro desmaia no acorde onde tudo é azul, tão azul como hoje quando te li. Se o silêncio pede por pausa, um bater de palmas tímido chama por ti, mais uma vez. Estás azul, tão azul como o céu que agora sorri. No fechar das cortinas descubro o vermelho carmim abraçando com paixão o azul do mundo que veio de ti. Na mistura do branco com o negro, do verde com o azul, és azul, tão azul como nunca vi. Nasce em nós a cor que doce se mistura sem nunca ser única. Dou-te um filho quase azul que abraça o verde sem preconceito. Dou-te um beijo vermelho da cor do sangue que corre entre nós. Azul, quase azul seremos tais na mistura do teu sorriso com meu. 
Descansa agora que a noite regressa quase sem cor.

11/09/2010

Fico com o teu beijo, porque esse me inspira, sejas tu o anjo ou diabo, nele me detenho por um pedaço e beijo o teu beijo como se nunca tivesse antes beijado. Branco enquanto vazio, pausa que teimas na escrita. Sente, pequeno príncipe, meu beijo no teu. Entre nós uma rosa nasce em forma de flor, entre nós a dor é partilhada com amor.

Diana esculpia a areia. Umas vezes eram sereias, doutras os minorauros ganhavam a forma provisória. Quando o mar se aproximava e levava com ele a arte, Diana sorria. Ver a vida ganhando vida, ver a vida deixando a vida era o exercíco diário da menina que tinha nascido já vai um par de anos. Ninguém sabia de onde vinha, nem onde se escondia nos dias de chuva. Nos dias de sol, Diana aparecia na praia do Nosso Senhor. Quando a madrugada adivinhava bom tempo, Diana corria e despia-se até o sol chegar e cobrir-lhe a vontade com calor. Nessas horas não se entendia se era o desejo de Diana quente, ou se era o sol que aquecia a areia. Quando adivinhava gente, Diana cobria-se de branco e começava a esculpir. Um dia Diana esculpiu um homem. Delicadamente contornou o corpo daquele ser. Pela primeira vez quis proteger a sua escultura do mar. Deitou-se sem peso em cima do homem que acabara de nascer. Assim quando o mar se aproximasse ela lutaria por cada pedaço da sua arte. Diana sentiu o mar molhar os corpos. Debaixo dela seu homem ganhava peso e Diana teve esperança de ganhar ao mar a derrota anunciada. Quando devagar o seu primeiro amor partiu, Diana chorou e praguejou contra a natureza que tudo tirou. Teimosa moldou um coração longe do mar, mas choveu e o coração desfez-se na areia. Esquecida dos dias em que disciplinada moldava a impermanência, Diana voltou a chorar.

As noites na aldeia eram solitárias. De longe ouviam-se as ondas a cantar ritmadamente. Diana dormiu na areia na esperança de uma nova manhã. De manhãzinha tentou moldar outro homem, mas seu coração ainda chorava pelo primeiro e Diana deixou de tentar.

Triste cantou a ladainha que ouvira da avó desde que nascera:


Sente, pequeno príncipe, meu beijo no teu. Entre nós uma rosa nasce em forma de flor, entre nós a dor é partilhada com amor. Todos os dias o mar te leva. Todas os dias voltas a nascer. Se já não és o mesmo. Pouco me importa. És certamente o homem nascido comigo na areia. Neste vai e vém, beija meu beijo e volta a nascer....

Diana vestida de branco é lenda em toda Setembro. O pescador perde-se por ela, a mulheres se ficam viúvas praguejam contra a sereia.

Entre nós uma rosa nasce em forma de flor. Entre nós a dor é partilhada com amor. Todos os dias o mar te leva. Todas os dias voltas a nascer. Neste vai e vém, beija meu beijo e volta a nascer....
Fico com o teu beijo, porque esse me inspira, sejas tu o anjo ou diabo, nele me detenho por um pedaço e beijo o teu beijo como se nunca tivesse antes beijado. Branco enquanto vazio, pausa que teimas na escrita. Sente, pequeno príncipe, meu beijo no teu. Entre nós uma rosa nasce em forma de flor, entre nós a dor é partilhada com amor.


Diana esculpia a areia. Umas vezes eram sereias, doutras os minorauros ganhavam a forma provisória. Quando o mar se aproximava e levava com ele a arte, Diana sorria. Ver a vida ganhando vida, ver a vida deixando a vida era o exercíco diário da menina que tinha nascido já vai um par de anos. Ninguém sabia de onde vinha, nem onde se escondia nos dias de chuva. Nos dias de sol, Diana aparecia na praia do Nosso Senhor. Quando a madrugada adivinhava bom tempo, Diana corria e despia-se até o sol chegar e cobrir-lhe a vontade com calor. Nessas horas não se entendia se era o desejo de Diana quente, ou se era o sol que aquecia a areia. Quando adivinhava gente, Diana cobria-se de branco e começava a esculpir. Um dia Diana esculpiu um homem. Delicadamente contornou o corpo daquele ser. Pela primeira vez quis proteger a sua escultura do mar. Deitou-se sem peso em cima do homem que acabara de nascer. Assim quando o mar se aproximasse ela lutaria por cada pedaço da sua arte. Diana sentiu o mar molhar os corpos. Debaixo dela seu homem ganhava peso e Diana teve esperança de ganhar ao mar a derrota anunciada. Quando devagar o seu primeiro amor partiu, Diana chorou e praguejou contra a natureza que tudo tirou. Teimosa moldou um coração longe do mar, mas choveu e o coração desfez-se na areia. Esquecida dos dias em que disciplinada moldava a impermanência, Diana voltou a chorar.
As noites na aldeia eram solitárias. De longe ouviam-se as ondas a cantar ritmadamente. Diana dormiu na areia na esperança de uma nova manhã. De manhãzinha tentou moldar outro homem, mas seu coração ainda chorava pelo primeiro e Diana deixou de tentar.
Triste cantou a ladainha que ouvira da avó desde que nascera:

Sente, pequeno príncipe, meu beijo no teu. Entre nós uma rosa nasce em forma de flor, entre nós a dor é partilhada com amor. Todos os dias o mar te leva. Todas os dias voltas a nascer. Se já não és o mesmo. Pouco me importa. És certamente o homem nascido comigo na areia. Neste vai e vém, beija meu beijo e volta a nascer....

 
Diana vestida de branco é lenda em toda Setembro. O pescador perde-se por ela, a mulheres se ficam viúvas praguejam contra a sereia.

 
Entre nós uma rosa nasce em forma de flor. Entre nós a dor é partilhada com amor. Todos os dias o mar te leva. Todas os dias voltas a nascer. Neste vai e vém, beija meu beijo e volta a nascer....

08/09/2010

Dá-me o leite que tenho sede de ti/Mel que se espalha por nós/ Lembras do nosso último passeio? beijei-te sem pudor até pedires com um sorriso um intervalo/beija-me que tenho mel pelo corpo/ descansa tua boca no seio que te ofereço/azul é memória que tenho de nós/tão azul como o branco que agora espanto/ Dá-me leite, amor/ que tenho sede de nós.

07/09/2010

assim devagar vou-me calando, saudades da chuva vestindo o mar, febril me tomei por todos os seres, doente inventei o presente. Setembro molhado, cheiro da terra com gosto. na rua me dispo, lavo com a chuva meu corpo suado. ah, este Setembro que com ele me fico, sonhos passados nunca vividos. era assim a memória de tudo que lembro, minha vida por Setembro dos Desgarrados. Se te conto  só agora, é porque a hora se fez hora e contigo e ele partilho tudo que lá foi acontecido. não percas tempo em procurar a verdade, não pares na mentira, pouco importa se o que conto existiu, fecha os olhos e sente: (...)"Bem abençoado quem nasceu, sofreu no parto a primeira dor da existência, no sangue materno a promessa de cor, no primeiro choro a certeza do riso. Cada desgarrado trouxe no rosto a marca do sofrimento, em Setembro fez dela o desenho da felicidade. Em cada homem o universo se exibe inteiro. Em Setembro se ama como o mar quando se espreguiça na areia. (...)". Se nada te pára, nem te comove, sente a chuva que te corre por dentro. Senta  devagar,  vê a semente por onde ela cresce. Se da tua mão nasce agora uma flor foi porque te deixaste adubar, neste Setembro que agora me abraça.

05/09/2010

Amor Eterno

Se ele disser que me ama, faço um poema, porque sempre acreditei nele. Quando disser que acabou, como tudo acaba um dia, não vou acredita. Ele mente quando respira.

Se me abraçar e der um beijo na boca, vou estar certa de tudo que sente e não sente.
Vou confundir o presente com o passado, e chorando direi: - Nunca me amaste!
Se ele insistir que no passado o sentimento era outro. Indignada gritarei: - Mentiroso!
Quando partir estarei fechada no quarto acariciando a dor.
À noite, abraçarei o vazio, com um nó na garganta, soletrarei: - ele sempre me amou! Perdida no tempo, entre o que é e o que foi, entre o que quero e perdi, passeio entre bosques, vejo fadas e anões. Pergunto pela raposa. Ninguém me responde.
Quando ele voltar e disser envergonhado que o nosso amor é eterno, vou acreditar.

- Luis, olha o jantar que esfria...

- Só janto quando acabar o futebol....

- Mas...

- Deixa-me em paz! Nem aqui descanso... GOOOOOOOOOOOOL

Sonhando com Alberto Caeiro

Não sinto nada, se nada sinto
Não sinto nada, se nada sinto, enquanto sinto. Não sei a cor do poema, nem a tonalidade da cor. Se o que que sinto, fosse sentido, tudo teria feito sentido.

Um dia se não me faltar coragem

Digo a ele que quero casar. Por detrás de uma coluna, escondida, acompanho-o todos os dias. Chega às nove, pede um café. Enrola um cigarro. Quando tira a caneta estremeço.
- Uma aguardente José...
Com o copo na mão esquerda, no bloco de notas escreve um verso. Se a minha sombra tocasse seus pés sentiria de leve o seu pulsar. Quando cruzasse as pernas saberia se era feliz a rima.
- Mais um café...
No almoço ele se vai. No jantar sonho que come o dia.
Quando me deito ajoelho, junto as mãos em respeito a Nosso Senhor e prometo:
- Amanhã Senhor, digo ao senhor Caeiro que é de Sua vontade que eu seja sua esposa até que a morte nos separe.
Se me beijar vou beber todas suas palavras já escritas. Quando suspirar vou sentir seu coração inquieto.
Ah, Senhor o amor terá o tempo da borboleta que ele escreve em seus versos.
Se o senhor Caeiro hesitar abro meus braços, dou de boa vontade um abraço. Peço em segredo mais um poema.
Amanhã Senhor, amanhã.
Sinto a noite agora noite, tão noite, que noite me sinto 

04/09/2010

Brilharam teus olhos
Alcançou tua voz a natureza
Fazendo de ti amigo
do peixe que te vence

Pode a loucura matar-te
Tua lonjura será alívio
dos homens bem comportados
que surdos, perderam há anos
o som que os rodeia

Entre o velho e o mar
Nasces tu desencontrado
na cidade que não te acolhe
e gritas sem educação:
Sinto-me bem na natureza
Que ela não fala!

Grito contigo em surdina
o que não se explica
ancas generosas
desejo que se transcende

silenciosa é a poesia
amor que se sente
um olhar fugaz
fazendo do tempo
nosso presente. 

01/09/2010

Tive o corpo coberto de medo, suor que não se disfarça. Prometemos a vida, metade cumprida. Resta outro tanto de medo vivida. Pedaço de mim perdida no Tejo. Resgatados dois homens do rio, um meio morto, outro ainda vivo. Na face alheia o eterno medo.
- Compras-me o super-hommem, mamã? pediu a criança na beira do rio.
Não sinto nada, se nada sinto, enquanto sinto.
Não sei a cor do poema, nem a tonalidade da cor
Se o que que sinto fosse sentido, tudo teria feito sentido.

Sinto a noite agora noite, tão noite, que noite me sinto