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15/01/2007


Entre nós e as palavras preguiçosas de noites idas passadas em prosa
Entre nós e as portas trancadas meninos vadios a rimarem com escória
Entre nós e os ais perdidos escuto a raiva silenciosa
Entre nós e as palavras mudas
Existe a vida vestida de prosa

Espera amor deixa que o sol pouse sem pressa
pelo tempo que prometemos existir

Petrónio casou com Canela como se tivesse o destino premeditado. Reza a lenda que Petrónio libertino consagrava o dia ao sono, abrindo a noite a outros prazeres. Augusto acreditava na força do nome a orientar a vida de quem sofre o baptismo, por isso disse à Maravilha que o filho seria Petrónio - o homem a quem fosse bastante existir.
À Canela caberia a tarefa de temperar a vida enquanto a Petrónio a de sorrir.
Encontrar a dose adequada do sal, gengibre, pimenta ou açúcar exige arte. Canela tinha na língua a memória de todos os paladares. Nos dias em que a alma ardia sua boca exalava hortelã.
- Petrónio, devagar com a malagueta! Saboreia.
Criança Canela saboreava o ritual de sua mãe quando se preparava para deitar. Devagar Virgínia tirava peça por peça que trazia colada no corpo. Docemente dobrava o vestido que seria o mesmo na manhã seguinte. Olhando para o espelho Virgínia penteava o cabelo. Mágico era o movimento dos seios libertos. Flácidos, caídos dançando felizes.
- Mamãe vamos brincar de vida?
- Agora?
- Sim mamãe. Deita na cama e fecha os olhos, agora é a minha vez.
Virgínia cansada, entregava seu corpo ao colchão de sua cama. De olhos fechados sorria. A pequena Canela empoleirava-se feliz em seu dorso.
- Mamãe vira para mim. Quero a tua cara.
Ritmadamente Virgínia rodava o corpo. Das ancas nascia o ventre, das omoplatas os seios, da nuca a face desejada pela filha.
- Agora vou te desenhar!
Atenta Canela demorava as mãozinhas em cada traço da mãe. Perdida no tempo viajava nas rugas que contornavam os olhos
- Mamãe quando nasceste já existia Terra? O mundo era feito de pó?
Quase dormindo Virgínia mantinha o sorriso.
- Mamãe você me empresta uma ruga? Quero uma que mostre o caminho do fim do mundo
Virgínia levava as mãos ao rosto, devagar acariciava cada ruga. Demoradamente escolhia a mais bonita
- Mamãe … quero essa!
Delicadamente colocava a ruga escolhida no peito da filha
- Quero na cara!
- Respira… deixa o ar entrar no teu peito. Agora larga tudo filhota
- E a ruga mamãe?
- Está viajando em ti. Um dia ela vai se fazer convidada na tua carinha marota.

Perdida no tempo, moça casada Canela encontrava a ruga emprestada.
Petrónio engolia a malagueta. Bebia água para apaziguar a dor. Sorria do gesto desajeitado. Vivia de acordo com a lenda – de dia dormia, à noite se abria a outros prazeres.

- Petrónio? Sabes brincar de vida?

Na mão direita de Canela repousa a memória do tempo que o sol levava a pousar. Tão longe esse tempo!

22/11/2006

Sei que havia luz porque ainda sinto na boca o sabor desse dia.




Canela cresceu acreditando que haveria alguém em algum lugar que a abraçasse com a intenção de abraçar.
Em Setembro quando Petrónio agarrou-a entre braços sentiu o corpo do amigo estremecer. Nem conseguiu contar o segundo e o abraço se vestiu num beijo na boca.
Em casa quando sua mãe a carregava em braços era um abraço embalado em lágrimas, vinculado à saudade que a mãe sentia da felicidade.
Canela sufocava tal a ilusão da espera de um abraço.
- Mas porque gostas de mim Canela?
- Porque sim
Era assim o gesto dessa menina. Gostava porque gostava. Chorava porque chorava. Ria porque sim.
- Canela! Este vestido está cheio de nódoas… Não podes sair assim!
Despreocupada com a aparência das coisas Canela respondia:
- Se eu engolir todo o ar que encontrar pelo caminho, achas que roubo também o teu ar mamã?
Sem esperar pela resposta Canela abria a boca e sugava todo o ar que a rodeava. Colocava-se em frente ao aquário e esperava. Com as bochechas quase roxas Canela suportava o ar quase morrendo de falta de ar. Somente o grito desesperado de sua mãe a fazia ceder. Era hora de vomitar.
- Um dia morres miúda!
- Esse dia existe mamã?
- ?
- O dia de morrer… Existe isso mamã? Ouvi João dizer que tudo é vida
- És muito nova para perceber. Mas um dia alguém vai te explicar melhor que eu
- Esse alguém fez o curso da Morte? Porque ouvi dizer que tudo nasce e morre e volta a nascer. Parece que é o curso da vida… Não percebi nada, mas ouvi
- Vá Canela. Despacha-te que chegas atrasada a escola…
Um dia Canela sentou-se a meio do caminho. Dizia que era o cansaço que a impedia de continuar o percurso. Sentou-se no meio da estrada. Tirou da mochila, linha e agulha e cozeu a saia por entre as pernas - uma menina bem comportada não deixa sugerir suas vergonhas. Veio a tarde e Canela viu o sol se despedir. Quase noite e Canela assistiu a gente da ilha a regressar a casa. A cada um explicava:
- Tenho um cansaço tão tão … cansaço que me impede de sair deste chão. Mas não se preocupe estou mesmo feliz. Só cansada…
Ao fim da terceira repetição Canela gravou a ladainha que justificava estar sentada no meio da rua. A cada nova abordagem Canela rebobinava a fita e reproduzia:
- Tenho um cansaço tão tão … cansaço que me impede de sair deste chão. Mas não se preocupe estou mesmo feliz. Só cansada…

Passado umas horas já ninguém se importava se Canela dormia no chão.
Essa capacidade que o ser humano tem de a tudo se adaptar destrói qualquer esperança de rebeldia contra a injustiça. Assim o que parece estranho rapidamente passa a corrente.
Petronio acompanhou Canela desde o inicio. De noite foi para casa. Jantou e correu para se deitar com Canela que de tão cansada informou que por ali passaria a noite. De repente era normal dormir ao relento. E o amigo trouxe um cobertor para agasalhar a noite da amiga.
Enrolados na manta colaram seus corpos. Pés com pés, abraços a responder a vontade de amar. No meio do caminho, dois jovens amigos descobriram o desejo de um estar no outro tão dentro de cada corpo.
Esquecido o cansaço veio um abraço que selou o abraço.
Docemente Canela recorda:
- “Não sei de onde vinha a luz que envolvia o meu corpo, se era sol ou era lua. Pudesse pintar o sabor daquela noite que ainda trago no corpo”

20/11/2006

A menina será Canela! Vai temperar a vida, seja ela bonita ou feia

Na terra pura a semente dá fruto, assim é quando se ama. O corpo se abre ao ciclo da vida. Quando as regras faltaram Virgínia adivinhou outro movimento no seu ventre.
Nove meses no tempo corrente – a eternidade na esperança de quem acolhe no corpo a cria.

De longe o Mestre assiste cada capítulo da vida daqueles que um dia abandonou. A arrogância fez da dúvida a certeza, do relativo o absoluto. Quando o medo se instala a dúvida se transforma em verdade. Levantamos o corpo, inspiramos todo o ar com medo de não respirar, abrimos os olhos como se só arregalados soubéssemos poder ver a verdade, e por fim lentamente apontamos para o mal. Mal damos pelo ar que nos falta, tão pouco reparamos o nó que nos faz contorcer o ventre. Continuamos a apontar a poente como se fosse a lua culpada da noite. Sem voz ameaçamos um grito no escuro:
- Vem de fora o mal que atormenta minha paz!
Se nessa hora houvesse um espelho… Tremenda seria a surpresa do engano!


Nem João deu conta do medo do amigo Augusto. Deixou-o partir.
O Mestre palmilhou Setembro sem nunca deixar de ouvir Petronio. Se chorava de fome ou se ria de nada. Adivinhou a língua enrolada imitando a mãe. Recolhido Augusto escutou seu corpo lamentando o desejo. Vontade de voltar. Disse alguém que o tempo não recua ao passado. E assim sem saber como nem porquê Augusto foi ficando por lá. Do lado de fora da ilha.
Quando Canela nasceu Augusto assistiu. Julgou adivinhar nela a solidão. Vestidinho de cambraia cor de rosa. Uma cabeça que teima em sair do lugar. O sorriso que disfarça o desconforto do não entendimento.
- Canela! Por onde viaja a tua cabeça menina?????
- CANELA!!!
Canela, Caanela, Caneeela! Fosse na clave de sol, fosse na clave de fá Canela - agudo ou grave. CANELA sem nunca acertar.
A menina foi crescendo com o som do seu nome feito ladainha de um mal sempre presente. Nunca respondia porque simplesmente nunca soube a resposta. Ouvia simplesmente. Espantada não reagia. Como dizer que lhe faltava o entendimento dos gritos desesperados a pedirem justificativas de cada um dos seus actos?
Com o correr dos tempos Canela deixou de se importar com a resposta. Seria isso a tolerância? Seria isso a solidão?
- Mãe que importa se nove e dois são onze se conto noves fora dois? Vale o onze? Eu vejo dois números que se namoram sem descanso…Mãe! Nunca ouviste a história do onze?

Só passados onze segundos,
onze horas, onze dias,
onze anos, onze séculos,
voltas a encontrar sintonia.

No intervalo somas, multiplicas, substrais,
divides num resultado sempre diverso.

Olhas o rio. Aceitas a corrente,
Se fores budista aceitas a vida.
Se for diverso o que sentes
Aceitas sempre

Enquanto aguardas
Por um novo ciclo.

Onze segundos, onze séculos
Redonda sintonia …

- CANEEELAAAAAAAAA! Cala-te!

- Mãe que importa … o onze se vejo dois num eterno namoro?

Canela e Petrónio são os primeiros nascidos em Setembro. No notário ficou escrito em edital:
“Os nascidos na aldeia de Setembro serão Setembrinos”.
Assim como quem nasce em Lisboa é alfacinha, quem nasceu em Setembro é desgarrado. Apesar da lei ter ditado o contrário.

Quando Maravilha menstruava restava na cama febril todo o ciclo. Um aperto no peito parecido com a saudade acompanhava o derrame.

- Mestre por onde andas? Saudades que tenho do amor que te tinha… Mestre quantos anos serão precisos?

Toda Setembro escutava o lamento. Todos fingiam nada ouvir.

- Maravilha…
- Canela. Cala-te!

- Mestre! Quantos anos meu amor, serão precisos para apagar essa saudade que tenho do amor que te tinha?

Quando Canela menstruou pela primeira vez. Adoeceu. Arriscou:
- Mestre!
- Cala-te Canela. Enlouqueceste?
- Sofro do mal de Maravilha? Meu corpo perde sangue… Mas não entendo a saudade mãe… A dor no corpo? O nome do espasmo?
- Cala-te miúda. Vais sangrar durante oito dias. Depois o corpo seca. Passados 28 dias voltas a sangrar…
- Mas porquê? É alguma maldição?
- Canela… coloca a toalha dentro das cuecas. Quando estiver encharcada troca por outra.
- Mas mãe…
- Filha… Cala-te.

Por muitos anos Canela acreditou ter traído a vida. Um castigo igual ao de Maravilha.

- Mestre! Quantos anos? Ai a saudade do amor que te tinha…

23/09/2006

SETEMBRO

Augusto
Augusto lembra do nascimento de outro filho. Entrou na praça a cavalo, sacou do revólver e gritou:
- Hoje pago todas as bebidas. Que o povo comemore porque nasceu meu filho varão!
Outro tempo. Terra batida. Poeira que se entranha no corpo quando respira. No canto direito - um banco de um homem só. Tem no bolso a miséria de toda uma aldeia. Ao lado a igreja do padre Ernesto. No centro da praça uma homenagem à branca de neve e seus sete anões. Ninguém sabe de onde veio a estátua da menina encantada.
Contornando o banco, virando à direita, no fundo da rua, dona Aurora recruta as meninas desencantadas da vida. Promessa de noites molhadas. Aurora, a puta sem idade, faz do prazer dos outros a garantia do seu almoço.
A morte vai apagando a vida. Na terra o suor de uma colheita perdida.
- Filhos já pari vinte… Será que o teu Maria, vai vingar?
Augusto vai povoando o ventre das mulheres que ama, na esperança de vencer o destino dessa terra maldita. Nas ruas os porcos comem as promissórias vencidas. Matar o bicho, dar de comer a fome.
- Onde está a mãe desse porco? Falta cria para matar este!
Duas semanas não chegaram para o varão sentir a dor da vida. A morte vinga o desejo de Augusto.
- Maria! Onde está essa mãe desnaturada?
Dói o peito de Augusto. Tira do bolso uma carteira curtida. Falta dinheiro sobram documentos. O bilhete de identidade diz que Augusto existe.
- Quero um papel a dizer que estou morto! Acompanho meus filhos. Nados-mortos. Padre, diga ao povo que beba na praça, se enrole com Aurora, comemore a minha partida.
Augusto desapareceu nessa noite. Teria morrido?
- Eufrásio faça a certidão de óbito. Augusto deixou de existir.
Maria viúva volta a casar. António invade seu sexo. No ventre a promessa de mais um filho.
Augusto leva nas costas a vontade do mar. Tanto chorou que se acostumou ao sal de suas lágrimas. Quer seu corpo mergulhado no oceano e expulsar o passado.
Escolheu por caminho o poente. Dias, meses, anos foi esse o tempo que Augusto levou para encontrar Setembro.
Petrónio nasceu. Augusto lembra a dor de cada filho perdido. João se relembra padre. Quem vive recorda a vontade de esquecer o passado.
Setembro não tem branca de neve. Setembro viveu sem igreja. Nenhuma Aurora cobra os fluidos do corpo. Setembro namora sem compromisso de futuro.
- Tudo de novo João?
- Descansa mestre que em Setembro é diferente. O povo vai fazer uma igreja só para comemorar em comunhão o nascimento dos seus filhos…
- chorar seus mortos
- rezar pelo futuro de quem vive
- NÂO! Não tentes ressuscitar feito Jesus na cruz. Não amigo. Não caias em tentação
- Mas Petrónio nasceu na véspera de Setembro,,, Uma força maior diz que isso é presságio …
- coincidência
- isso não existe Augusto. Nada existe ao acaso
- nosso corpo traz a memória de uma vida passada que eu tinha por enterrada. Apagada
- Hoje nasceu Perónio teu filho. É dia de festa
- Hoje nasceu a lembrança daqueles que não vingaram a morte. De uma Aurora agiota do sexo. Hoje Maria, viúva sem morto, ressuscita a dor da perda. Hoje vi no mar meu reflexo, feito um espelho do que sou. Voltei a chorar. Onde antes era paz, hoje é o medo instalado do futuro que conheci no passado. Tudo mudou num intervalo que deveria ter sido eterno. JOÃO NÃO RESSUCITES O MENINO NA CRUZ!
- Trago comigo a bebida que abençoa a noite do primeiro nascido em Setembro. Cura a ressaca da ausência do álcool. Embebeda–te mestre Augusto. Não te esqueças de primeiro oferecer ao santo. Pede a deusa que mora no mar que permaneça nestas águas ameaçando a ilusão do prazer eterno
- Daqui a duas semanas voltamos a falar. Nessa hora João, se voltares a padre te peço a bênção da vida ou da morte. Hoje me calo. Suspendo o ar que percorre meu corpo até o dia 15 de Setembro. Vai João volta à praça. Não contes a ninguém que me viste. Deixa-me esperar. `
- Abraça-me então mestre. Porque do peito vem uma dor que conheço. Abraça-me Augusto como se fosse a primeira festa dos desgarrados.
João se aconchega nos braços do mestre. No peito o coração agitado no compasso do seu.
Setembro inventou a eternidade. Até quando?

A vida
Setembro anoitece sempre à mesma hora. Depois do peixe enredado o sol se despede. Nunca se atrasa. Nunca se antecipa. Os membros endurecidos anunciam o fim do dia. É hora de amar. No corpo o sal engrossa a pele daqueles que vivem no mar. Como um relógio correm para casa debaixo da ordem de um membro independente. Depois do amor despem as camisas suadas. Cansados perguntam pela comida.
Um dia nascerá o fruto dos suores trocados. Conta Setembro que amar é bom com quem gosta de ser gostado.
Quem alcançou Setembro matou a sede do passado. A primeira água que o corpo recebeu. Devagar. Cristalina, fresca encontrou o caminho da alma. As mortes vividas foram esquecidas. Se Cristo ressuscitou a dor. Setembro fez dela receita para a vida.
Bem abençoado quem nasceu, sofreu no parto a primeira dor da existência.
Do sangue materno a promessa de cor. No primeiro choro a certeza do riso. Cada desgarrado trouxe no rosto a marca do sofrimento. Em Setembro fez dela o desenho da felicidade. Em cada homem o universo se exibe inteiro. Em Setembro se ama como o mar quando se espreguiça na areia.
Quando Petrónio nasceu Augusto lembrou-se de seu pai. Jardineiro nas três casas grandes da aldeia. De tarde Mourão endireitava o tronco, guardava as ferramentas. Soltava um breve ‘ai’. Seis da tarde a noite ainda tímida lembrava a família. No caminho de casa uma garagem guardava aguardente de cana. Lá os amigos bebiam até que o corpo todo ardesse. As oito Augusto a mando da mãe ia buscar seu pai antes que esquecido da vida adormecesse em cima da mesa.
- Pai a mãe tem o peixe na mesa
Mourão acordava sem pressa, dava uma volta inteira ao pescoço. No queixo a mão suportava o peso da vida.
- Já vou filho. Já vou.
O tempo passava sem hora marcada. A conta dos copos bebidos somava um total sem prova dos nove. Mourão, pai de Augusto, só contava um mais um.
- Pai bebeste dez copos! O tamanho da garrafa de leite que dorme na prateleira da nossa despensa.
Petronio nasceu na véspera. Augusto queria o pai a somar a felicidade que parece escapar de Setembro. Memória esquecida agora saudade.
Perto da morte Mourão delirava lembrando seu pai.
- Um dia eu vi o mar. Meu pai agarrou na minha mão e em silêncio caminhámos horas. Na estrada vi um anão que cantava o amor nunca cumprido. Meu pai tapou meus olhos e pediu a Deus que a loucura nunca me visitasse. Não me lembro quando o mar se atravessou no nosso caminho. Só sei dele no meu corpo aliviando o cansaço…
- Mas pai nunca viste o mar!
- Meu pai João dizia que eu era Mourão porque sim
A cada dia uma nova verdade a dar conta da mentira diária. Pouco tempo depois Mourão se foi. Na campa Augusto desenhou: Aqui jaz Mourão filho de João.
Augusto relembra um passado há muito enterrado. Petrónio vingou a vontade de Augusto ser pai. Nada vem de graça. O menino devolveu a memória aos desgarrados.

Outono
No primeiro dia do mês de Setembro, no segundo dia de vida de Petrónio, apareceu pela primeira vez o Outono em Setembro. A manhã fez-se preguiçosa. Trouxe uma cor nunca vista à aldeia. Uma chuva tímida anunciou a primeira estação. Surpresos os moradores vieram para a rua. Teo ainda perguntou a Virgínia se ela via o mesmo que ele. Virgínia que nunca soube fazer uso da palavra pois seu corpo contava o verbo que lhe faltava, agarrou na mão de Teo e fê-la deslizar por seus braços desnudos Tão molhados! Abrigado numa alcofa improvisada Petronio sintonizado com a natureza chorava.
João agora padre confesso rezava a Deus pela oferta da mudança de tempo. Tudo voltava ao normal. O dia amanhecia mais tarde, a noite aparecia mais cedo. Quem pescava tinha de se sintonizar com o sol para aprender a sair na hora certa da pescaria.
Um ano tem quatro estações! O dia - vinte e quatro horas. Num lugar sem idade onde o velho era velho apenas, como repartir o dia?
O leite era de quem tivesse sede. Com a chegada do tempo medido, a garrafa passou a ter dono. O litro passou a ser dividido como o tempo daquele novo presente.
João sonhava com um sino numa igreja a badalar de hora em hora. Em cada casa um relógio a marcar a hora do regresso a casa.
A criança chorava em horas marcadas. De duas em duas horas pedia o peito da mãe. Quando cada coisa tem um tempo acordado, nasce a pressa do tempo esgotado.
No primeiro dia do mês de Setembro a memória aflorou a lembrar o engano de quem fugiu de um tempo apertado. Como recusar o que o corpo sem dono expressa?
Pouco a pouco, mais depressa que nunca Setembro se organizava. A ordem tomava conta de cada esquina. Sem demora em cada casa uma nova rotina. Igual aos lugares da partida.
Na cama as mulheres passaram a fazer contas. Depois da menstruação o amor passou a ter dia marcado para a procriação.
Nos outros dias – descansavam. Os intervalos ganharam o enfado. Com afinco num prazer tornado trabalho abriam as pernas à espera do esperma.
E se a vizinha achava que estava de esperanças raivosas as outras rogavam pragas aos maridos incapazes. Veio o esquecimento do tempo sem pressa. Essa memória levou Augusto quando assustado pressentiu a dor.
Não foram precisas duas semanas para Augusto decidir seguir caminho.
Sem ver o filho tantas vezes desejado Augusto partiu sem deixar rastro.
Maravilha viúva sem morto para enterrar pediu a João um manto preto que desse bem conta da sua dor.
Petrónio foi o primeiro menino sem pai. No seu corpo a memória de um Setembro um dia prometido.

28/08/2006

Tudo mudou


Tudo afinal muda. Criança Canela rouba a goiaba da vizinha sempre que a fruta se coloca a jeito de ser colhida. Verdes ou maduras sempre vermelhas por dentro. Cada semente prometendo mais um fruto adiante.
Na panela sua mãe faz da fruta sobremesa. Na mesa quando o queijo se faz companheiro da goiabada completa-se o ciclo da vida.
De manhã as vizinhas despedem-se de seus homens que partem em busca de boa pescaria. Quase às cinco da tarde voltam a praia para dar as boas vindas aos companheiros que todos os dias fazem da vida uma despedida.
- Eh, oh…
Uma fila de braços cantam
- Eh, ôooooooooooooooo
- Cuidado Canela! A rede corta…
Alguns peixes ainda saltam em busca do mar até sufocarem de ar.
- Augusto? Larga os que lutam …
- Canela! Olha a rede que corta! Mulher esses que lutam são o nosso jantar
- Ehhhh, ôoooooooooooooo
Em Setembro as ruas são feitas dos caminhos que os pescadores vão construindo todos os dias. Os mais atravessados já tem a poeira acamada. Pouco chove na terra de Canela. Nesse lugar que nasceu com nome de mês o tempo tem tempo de ser.
- Canela! A dona Mariana diz que você se perde no caminho para a escola…
- Mamã desculpa. Sempre encontro um caminho novo…
- Sempre distraída!
Canela cresceu assim. Às vezes encosta a cabeça ao ombro para descansar. Nesse momento, que com o correr dos tempos Canela apelidou de intervalo, vive noutro paralelo. Em cada intervalo, que a mãe apelida de distracção, uma nova descoberta.
Na escola cantam o alfabeto. Cada letra acompanhada uma nova palavra. Assim Canela vai conjugando o verbo. Quando dona Mariana aponta o dedo Canela se apressa e soletra orgulhosa:
- Eu SOU! E se dois mais dois são quatro já tenho prato!
- Canela… acrescentas sempre o desnecessário. Ias tão bem! Que distraída!
Canela encolhida sorri. Acha tão bonita a rima e não se importa se ela tem nexo. Afinal que importa se o prato não vem de um quatro? O r se troca, o t se confunde com o ‘o’, e a boca saliva feliz. É disso que se trata.
Em Setembro, naquele tempo, todas as famílias eram vizinhas. Seu Francisco, dona Emília, o mestre Augusto e sua mulher Maravilha eram os mais próximos da casa de Canela. Do lado direito Emília e Francisco tentavam filhos. Do lado esquerdo Petronio fazia a felicidade de Maravilha e Augusto.
Teo casou com Virgínia. Na travessia nasceu Canela. Menina pequena, tão desenxabida que Teo apelou ao aroma do nome para matizar a filha.
- A menina será Canela! Vai temperar a vida, seja ela bonita ou feia
- Teo, convide a vizinhança. Faça pastéis de nata, tempere todos eles com muita canela. Dê a quem queira, o sabor doce da nossa filha que agora nasce. Festeje com o povo na rua. Enfeite a jangada. Doe a Iracema todo seu amor, mas não se enfeite com ela! Confira com o Padre João se baptiza sem Missa. Que abençoe Canela, mas proíba qualquer oração a Jesus. Vá Teo apresse a festa. Qualquer hora te alcanço
- Quando?
- Quando a hora for hora de estar presente
As crianças de Setembro já sabem quando vai haver festa. As mulheres pintam os lábios, tiram do armário um vestido decotado sugerindo seus seios partilhados por todas crianças da aldeia. Os homens descobrem o rosto escondido pela barba nunca feita. E a bebida se espalha generosamente entre as gargalhadas das anedotas repetidas.
Na cozinha Felícia, mãe de Virgínia, envolve o fundo da panela com tomates, cebolas, pimentos, muito alho e malagueta. O peixe abusado de tanta coragem mergulha no tacho. Setembro comemora Canela. Um pedaço de gente que promete temperar a vida, seja ela feia ou bonita.
Com um vestidinho de cambraia cor-de-rosa e os pezinhos nus Canela se apresenta na praia. Em vez de chorar - sorri timidamente. Para surpresa de todos vira o pescoço para direita e a seguir para a esquerda. Movimenta os olhos como se procurasse focar. Este movimento seguirá Canela pela vida fora.
Festa de arromba pede um feriado. Merecido o descanso para quem se perdeu na areia toda noite a dançar.
Setembro dorme todos os anos no dia 27 de Agosto. Um dia depois do nascimento da menina que lembra os pastéis de nata.


Petronio

Petronio nasceu sem cabelo um ano antes de Canela. Quando chora abre um sorriso largo e sonoro. Tão forte que Setembro inteira dá conta da revolta do garoto. Maravilha, sua mãe, fugida da casa materna conheceu Augusto numa esquina. Perdida.
- Moça bonita!
- Me deixe…
Augusto é o homem mais bonito de Setembro. Ninguém sabe quantos anos de vida ele tem. Alto, Negro.. Sorridente mostra uma dentadura perfeita. Branca.
- Você vem de onde moça?
- Da casa de ninguém. Que interessa isso?
- Assim tão raivosa … adivinho uma dor
- Me deixe moço
Augusto ameaça a despedida. Vira as costas oferecendo a Maravilha as suas omoplatas - visão de um futuro desejado.
- Moço desculpe. Espere
Lentamente o ombro direito diz que sim ao esquerdo. O pescoço que sustenta a cabeça aceita o convite.
- Venha daí moça. Amanhã há festa em Setembro.
- Me diga primeiro seu nome que vim de não sei onde. No lugar onde nasci deixei de existir. Faz dois quilómetros que disseram que meu nome é Maravilha. Aceitei o baptismo. Agora é a sua vez. Você já sabe muito de mim
- Augusto
Maravilha estende a mão esquerda. Augusto reage com sua mão direita. No horizonte se adivinha festa. Em Setembro é quase Natal.
Petronio nasce em 30 de Agosto. Um ano e quatro dias antes de Canela. Augusto é o pai. Maravilha – menina antes perdida – é a mãe.
Setembro existiu sempre. Ninguém sabe quando apareceram as pessoas. Conta-se que todas vieram fugidas de algum lugar. Sem família. Sozinhos. Desgarrados foram chegando. Petronio foi o primeiro habitante que nasceu em Setembro.
Nesse dia aqueles que fugiram em busca da vida lembraram. O corpo do Mestre tremeu de medo enquanto a felicidade dos outros num som colectivo gritava:
- Nasceu o menino
Em Dezembro, Setembro comemorou o primeiro Natal dos Desgarrados.
Padre João que ninguém sabia que era padre confessou:
- Cresci na Igreja de Santo Estêvão, sinagoga de outrora. Li a cabala, fui ordenado por um bispo nascido na aldeia. Não conheci o monge que pregava o abraço. Mas de tanto ouvir falar fiz dele meu herói. Falava de Budha. Sou padre, amigos. Se houver Natal em Setembro rezarei a Missa do Galo…
Desta vez o Mestre não só tremeu. Do peito uma dor conhecida gritou:
- Não! Tudo de novo NÃO!
Distraído o povo comemorou. Afinal Setembro já tinha Padre. No Natal já teria uma igreja
O Mestre se afastou. Na praia lavou seu rosto marcado de rugas profundas. Em cada prega o sal abrindo caminho.
- Reinventaram o pecado. Fugi da maldade alheia.. No horizonte sempre acreditei que Setembro existia. Acolhi todos os desgarrados como eu. Amei Iracema, amei Joana. Inventámos a amizade. O desgarrado João afinal reza a missa! Que interessa o passado? Não sei do meu. No dia que parti larguei quem fui. Homem novo em Setembro. Recomeçar do zero. Construir o presente. Não desejei. Vivi simplesmente. Foi neste recanto que deixei de sofrer. Porque volta tudo a acontecer?
João procurou o Mestre por toda aldeia. Onde estava o homem que o ensinou abraçar?
- Mestre! Mestre não me abraças? Já posso ser quem sou
- Engano seu João
- …
- Deixaste o passado invadir o presente. Deixaste de ser
- Abraça-me Mestre porque a minha felicidade está carregada de uma dor que não entendo
Mestre chora em silêncio. Levanta-se com esforço. Abre os braços
- abraça-me
Mestre contorna seus braços no amigo. Peito contra peito. Dois corações que num breve instante se entendem num pulsar único. Era assim a eternidade em Setembro.

Canela? Canela minha amiga me diga o que você vai fazer quando a mão sentir a falta do braço para te dar um abraço, feito o abraço do Mestre?

10/08/2006

Canela


Canela está saudosa das mãos que se encontravam simplesmente para dar um passeio. Agora os tempos são outros sua mão direita só encontra a esquerda. Em criança levantava o braço e havia sempre uma mão a indicar um caminho. Mesmo nos passeios conhecidos da sala para o quarto de dormir. Deitada antes que o sono fosse senhor e dono do seu corpo uma mão embalava seus dedos pequenos. Mais tarde eram mãos agitadas que descobriam com as suas o suor de cada passo.
- A menina dança?
Timidamente entregava sua mão direita antes que o abraço rodopiasse na sala. Antes do amor, as mãos davam as mãos prometendo uma aventura sem fim.
Hoje Canela tem suas mãos solitárias. Cansada da saudade já tentou matar a memória de um tempo que nem ela sabe se é mesmo verdade.
Francisca almoça todos os dias com ela. Ao meio-dia pontualmente Francisca beija a face de Canela
- Olá mamã, boa tarde. Estás melhor hoje? Podemos almoçar já? Desculpa mas estou atrasada…
Canela esboça um sorriso esperado. Francisca de dia para dia se atrasa cada vez mais. Há-de chegar o dia em que Francisca vai telefonar avisando que já não pode vir tal é o atraso. Até que chegue esse dia Canela vai fazendo o almoço da praxe.
- Hoje pareces melhor mamã Até já adivinho um sorriso no teu rosto. O que houve? A dona Felícia morreu?
Canela volta a sorrir. Francisca fez da ironia sua fiel companheira
- Vá lá mamã, conta-me. Eu te conheço e nunca te vi essa cara
- Vi na televisão um anúncio de mãos
- ?
- Francisca, hoje já se vende mãos lá na cidade
- Oh mamã são próteses. É de uma empresa de próteses esse anúncio
- Mas já há lojas. Lojas de rua. Eu vi no anúncio. Há uma bem perto da casa da Tia Josefa, na rua de São Paulo quase na esquina da Rua Aprazível
- Mamã, mamã… Cada vez percebo menos a tua fraca cabeça. Olha a massa está muito cozida, o ovo está salgado, o feijão tem chouriço e tu estás farta de saber que não como carne! Gaita, até parece que não me queres cá. E eu ameaço ouvir um sermão do meu chefe e tu te distrais sempre! Cada vez mais! Olha vou-me embora. Quando colocares a cabeça no devido lugar apareço. Meu Deus mamã! O que faço contigo?
Canela leva as mãos à cabeça numa tentativa frustrada de encaixar o crânio sem deslocar os olhos. Num sorriso agora patético desculpa-se da indelicadeza da sua distracção
Com beijo irritado Francisca apressa a despedida.
Canela levanta a mesa ritmadamente. Com mãos firmes lava a louça, arruma a cozinha, belisca o ovo salgado, o chouriço proibido, em vez de deitar toda a comida da filha para o lixo.
Canela não sabe bem porquê mas está quase feliz. Despe a roupa suada e como sempre prepara-se para a sesta. Todos os dias sempre dias tão parecidos que podia jurar que eram sempre os mesmos de todos os dias.
Deitada na cama entrega seu corpo ao descanso. O anúncio da TV visita o desejo. Canela não dorme mas sonha
- E se eu fosse ver essas mãos? Um arrepio percorre seu corpo ansioso.
Apressadamente abre as gavetas de uma cómoda mofada. Sem fôlego procura seu uniforme de enfermeira-chefe.
- Será que preciso do chapéu? E do casaco azul? Mas está tanto calor! Mas não me esqueço dos óculos, ah isso não! Se Francisca me visse agora? Falta meu baton vermelho…
Canela está pronta. Um ameaço do que foi outrora. Delicadamente, pacientemente atravessa a rua. Acena para um táxi e pede:
- Leve-me à Rua de São Paulo na esquina com a Rua Aprazível por favor
Canela disfarça seu nervosismo sorrindo, falando do tempo, que lhe tem passado ao lado há tantos anos.
A cidade fica distante, bem uma hora de caminho - o tempo de uma vida, de um ameaço de morte. O tempo de um coração agora acelerado. No caminho adormece embalada pelos buracos da estrada. Uma mão, nem bonita nem feia, convida Canela. Aponta o mar que contorna o passeio, agitada se esconde do sol, marota dança em cada esquina, Canela sabe agora que está mesmo feliz.
- Senhora? Dona? Acorde que chegámos!
Envergonhada essa mulher de mãos solitárias desculpa-se mais uma vez da sua distracção. Afinal deixou-se dormir, não impediu o sonho no banco do carro público.
Bem em frente, no outro lado da rua uma vitrine repleta de mãos! Amarelas, azuis, cor da pele, com luvas rendadas, outras rugas. Mãos, mãos, mãos!
Num passo apressado atravessa a rua. Em frente da loja para. Respira, inspira. Sem sucesso tenta o encontro do eixo. Leva as mãos à cabeça, desloca o pescoço num gesto firme e rápido para a direita e esquerda. Por fim o crânio encaixa, os olhos focam e a face encontra a paz desejada. Abre uma porta elegante num gesto fresco, feliz de quem sempre soube como é bom existir.
Pernas, pés, braços e .. Mãos! Uma loja que promete um membro a quem o tem amputado.
Canela encontra sem dificuldade o que precisa. Bem no centro de uma enorme sala um cilindro de acrílico expõe mãos. De todos os tipos, para todos os gostos. Se você nasceu para a música e por desgraça teve a mão amputada aqui encontra a mão substituta que trará de novo o som da sua alma.
Canela decidida pergunta ao jovem vestido com o logotipo da marca:
- Boa tarde procuro uma mão, não importa o tamanho
- Só vendemos com receita
- Não vê que sou enfermeira? Venho de uma urgência hospitalar
- É necessário o tamanho entende? Não podemos vender uma mão de um anão para ser colocada num terminal de um gigante! E depois há os velhos - esses não se adaptam a uma mão de um adolescente. O inverso continua sendo verdadeiro. E as nossas mãos além do mais são articuladas!
- Ah sim? Para que a compatibilidade se elas já se mexem? Não basta?
- Percebo que não está familiarizada. Uma mão de um velho nervoso fará muito mal a um jovem estudante. Todas nossas mãos são feitas de varias memórias. Assim o ritmo varia. É complexo. Isto não é um hipermercado.
- Sou enfermeira. Sei do que falo. Tenho aqui a receita. Basta-me uma mão, Seja qual for. A única preferência é que saiba dar um bom aperto de mão. O paciente é caloroso. Tinha uma mão que em tudo tocava. Um tacto apurado. Uma vontade de ser..
- Vou perguntar ao meu gerente senhora?
- Canela
- Um momento por favor
O jovem volta as costas, vira à esquerda e se esconde num canto onde a luz deixa de existir. Cansado se agacha e chora baixinho. Miguel já não suporta tantos pedidos sem nexo. Diariamente aparecem dezenas deles da boca de supostos bombeiros, enfermeiros ou médicos. Ninguém quer ver o catálogo. Ninguém pede uma mão definida. Que epidemia é esta? O gerente não reclama. Sorri sempre e diz:
- Faz de conta que percebeste e vende! È para isso que estás aqui!
- Mas e a ética?
- A nossa é satisfazer o cliente
- E se as receitas forem falsas?
- Não sou polícia Miguel. E que mal há em vender uma mão a quem quiser comprar? És dono da mão alheia?
Miguel desistiu de entender. Desde há um tempo que sua mão direita sofre de dormência. Foi perdendo a força lentamente. Nada em casa restitui a alegria que tinha. A noite quando adormece sonha com os membros desmembrados. Miguel quer fugir, queimar todos os catálogos que não explicam que mãos ele deve vender.
Mais calmo regressa ao centro da sala.
- Senhora Canela
- Diga
- Quer ver o nosso catálogo?
- Jovem preste atenção: a mão que preciso já lhe expliquei. Se é grande ou pequena, jovem ou velha, pele amarela ou negra não me interessa. Basta simplesmente saber dar um aperto de mão
Miguel ainda ameaça um ‘mas’ enquanto Canela lhe sorri carinhosamente. Abre o expositor, tira uma mão de um rosa desmaiado – sem vida.
Canela se assusta – que mão era aquela? Com tantas outras coloridas e ele lhe oferece a mão mais morta da loja!
Miguel segura então o que deveria ser o cotovelo e num gesto educado cumprimenta Canela
- Muito prazer…
Um arrepio percorre o dorso da enfermeira-chefe. A memória de um calor tantas vezes vivido vai acordando os sentidos. Mamilos erectos, a boca alagada, um estremecer esquecido no baixo ventre e de repente um grito:
- FICO COM ESTA!
- Vou embrulha-la então…
- Não, não é preciso eu a levo assim mesmo. Vou pagar e já volto. Não fuja daqui Miguel.
O jovem cansado sorri e promete que dali não sairá nunca. Os jovens são mesmo dramáticos.
Canela volta do caixa ansiosa. Pega na mão que não sabe se é Maria ou João. Discretamente a agarra em sua mão. E de novo a vida volta a ter sentido.
De mãos dadas sai da loja. Com a mão esquerda que está livre chama um táxi. Com a direita vive.
Perto de chegar a casa pede ao táxi que pare. Está um lindo pôr-do-sol e Canela quer mostrar à mão amiga a paisagem na praia. De mãos dadas passeia na areia, arrojada mergulha na água salgada - sempre com a mão direita bem apertada à mão companheira.
- Hoje é noite de lua cheia amiga. Vou te mostrar como é bonita a vida longe do expositor
No caminho para casa a enfermeira-chefe joga fora o chapéu. Mais leve despe o casaco. E se tirasse a roupa? Despida do uniforme que pautou sua vida? Não seria isso a liberdade?
Canela tem vontade mas não se atreve. Deixa-se estar com a saia branca mofada. Quando chega à casa leva a mão companheira ao peito e pede carinhosamente que a ajude a despir-se. Sem vergonha Canela explica que na sua idade o corpo não tem idade. A mão amiga então abre botão a botão da camisa. Devagar empurra a gola - o busto de Canela descobre-se. Sem cerimonia a mão – sempre agarrada à mão de Canela – acaricia-lhe a nuca. Como se conhecesse a viagem desce aos seios da mulher sem idade. Mamilos erectos, baixo ventre molhado. Canela mulher. Canela a folgar de prazer. Chega a noite e Canela se deita. Na sua mão direita uma mão por companheira. Não interessa se é Maria ou João. Certamente importa que sabe dar um aperto de mão.