07/11/2013

Agora que te encontro

Senta comigo antes que amanheça. Espera só mais um pouco. Promete-me que não inventas. O velho disse que por dentro a terra sempre foi verde. Não sabe quem nunca a viu nua. Dia e noite, noite e dia um relógio marca o compasso da vida. Subo a montanha e perco-me em cada cascalho. O dia e a noite, a noite e o dia, reféns do segundo. Por dentro de nós, o verbo encontra caminho e o corpo cego, obedece. De dia, o dia de novo que não sabe descansar. Um e dois, um e dois, peço que pare a canção e aprenda a contar. 
Quem abre a boca espera que o insecto recorde a palavra que foi esquecida. Arde a língua que já não consegue lembrar. 
Agora que te encontro, não partas. Ensina-me como se despe o olhar.

02/11/2013

voo

a águia mãe
num voo rasante 
alimenta a cria
mata a presa
sonha o louco
outro mundo
sombra apagada
que não distingo
invento o sopro
verbo que perco
preso no corpo
desenho o silencio

quero da águia
as asas
num voo novo

falta

Se ela estiver de acordo comemoramos o Natal em Novembro.
Reclama das coisas que faltam fazer. Lamenta as viagens que nunca fez.
Falta o cigarro e o charro. Falta o vinho e o amor. A vontade a pedir mais.
O abraço emocionado do camarada que de longe sorri cúmplice.
Os amigos fingem que a vida é eterna e acreditam que nunca partimos.
O silêncio engole o pranto, porque a vida só vale a pena se for feita a sorrir.
Falta o cigarro e o charro. Falta o vinho e o amor suado. A vontade de regressar e ficar.
Falta dizer até amanhã.



29/10/2013

Palavras

Tenho poucas palavras no meu vocabulário, ou porque as perdi ou porque me cansei do seu excesso. Não preciso de sinónimos que relativizam o medo, nem de adjectivos que qualifiquem a liberdade. Amor não precisa de ser azul, nem de rimar com cor, ou ser acompanhado da ira. Cada vez que falo, traio. Por isso um dia, me calo.

22/10/2013

chuva

A chuva bate na janela e acorda. Quem assiste tv, não ouve nem vê. O meu cão abriga-se debaixo da cadeira. Sou como ele. Mergulho na cama certa de que fico a salvo da intempérie. Queria ser como a árvore que não se importa de ficar verde. Nem pede a Deus que seque o tempo.

festa

Dizia que um dia, o dia seria feito de festa. Com estrelas, chuva e confetes. Que a deixariam dançar sem temer a rua, nem o homem do povo que a levaria em bicos de pés até à avenida. 
Fez dos vestidos fantasia, da roupa usada cenário e fotografia. Pés descalços porque nem o inverno a vencia. Pés molhados porque era assim que a natureza pedia. Contou aos pais, enquanto era criança, a cada homem que amou, aos filhos e aos netos, que um dia seria dia de festa. Com estrelas, chuva e confetes. Deixou comigo o desejo dela. Tenho de dar um nome ao eucalipto que me vê pela janela. É como ela era, velho. Tem o tronco sempre a descascar e não se importa.

20/10/2013

travessia

Um corpo grita mudança
a um estrangeiro surdo
que resiste ao apelo.
Entre o hemisfério norte e sul
por uma semana de sete dias
o relógio não se acerta
deixando o tempo livre
da coincidência de datas.
Obediente a hora, por fim
acata a sintonia imposta.


Um corpo cansado do medo
vislumbra entre os claustros
onde repousa a Arca
que salvou Noé.

menino-homem

Enfermo desde nascença, sofria de doença rara. Uma vontade que não se explica nem se cala. A mão irrequieta, uma dor contínua no peito que pede clemência. Em criança sonhava em ser aceite no coro da igreja. Com o peito desnudado, junto ao altar cantaria o amor pela graça de Deus. Padre Dominico castigou o desejo do menino que nasceu com um violino no coração proibindo-o de sonhar.
Nas noites de tempestade, abria a janela e tirava a camisa do seu pijama de flanela. Quando a chuva encontrava o seu corpo, o violino desabrochava e o menino-homem tocava até que a chuva calasse.
Tenho entre os dedos, sementes de onde brotam poemas.

Em cada vão de escada a memória de um compasso que se perdeu. Um velho demente foi para rua de tronco nu e tocou meditação. Um velho doente morreu. Tinha um violino velho e gasto, colado ao seu coração.


19/10/2013

avesso

Aqui estou eu do lado do avesso na parte que perco e não me conheço. Tão próxima de mim. Tão longe de quem sou. 
Pertenço à multidão que grita por justiça. Tão perto está ela do meu lado que ama. 
Retirado da terra morre o cravo na lapela. 
Aqui estou eu amor, desmemoriada, sem me lembrar onde nasce e morre o poema.

ver

ver é estar aqui presente
reconhecer a mente 
quando mente
sentir isto e aquilo
o sol e saber que é calor
a chuva e saber que é água
a dor e não acrescentar cor
notar o enredo que não existe.

a árvore em frente da minha janela
tem folhas verdes, depois amarelas
antes de serem castanhas na terra.

18/10/2013

asas

Acordou num colete de forças, imobilizado pelo medo. Lutou com raiva e o corpo inchou. Em busca do ar serenou quando o encontrou. Um colete de forças lasso foi jogado no lixo. Um homem ganhou asas. Voou.

dúvida

tenho um lado teimoso
que reclama de sentir sono
e ao mesmo tempo lamenta
que sofre de insónia

quando dorme, acorda
mal desperta, adormece
e entre os dois estados
lamenta a doença

determinada apago a palavra
indecisão do meu dicionário
agora encontro o descanso
quando abro e fecho os olhos

encontro marcado

Marcaram encontro junto ao museu. Ela não sabia dele, nem ele dela. No carro dele, um beijo roubou dela a conversa de ocasião. O desejo venceu a palavra na boca dele e dela. Memória secular do pecado de quem, de repente, ama. Na despedida ela não o reconheceu, sequer o conheceu. Nem ele a ela. No carro dela, do lado direito o museu. Do outro lado, o Tejo. No carro dele, entre o museu e o Tejo - ela.

08/10/2013

lamento

Uma folha amarela lamenta o verão. A água que mata o peixe salva o homem da sede.
Ladainha que me assiste no silêncio que resiste.
Um homem nada, entre o rio e o mar, em busca do limite. Cansado do tempo, desiste.
O presente pede ao passado que o represente. Não há quem o habite.
Esta manhã o galo não cantou. Uma ninhada de gatos chorou. Uma gaivota serviu de isco.
O espelho é meu avesso, finjo que vivo. Nessa mentira, existo.


(Há homens que constroem calçadas pontiagudas, na esperança de que das costelas dos vagabundos nasça a sabedoria.
Há homens sem rosto, com gosto de mofo de quem não se espera nada, senão o oposto).

Meu coração silencia a noite neste lamento surdo.

02/10/2013

adágio

Quando a noite é madrugada
um anjo branco sem asas
descobre no mar
o sal que Deus negou 

na alvorada
quando os peixes nadam
chora o anjo imaculado
as asas que Deus roubou

dorme a manhã cansada
deste sono adiado
como se fosse destino
dar Deus asas 
a quem nunca pecou

verde é a folha no verão
que o outono despe
cor da terra molhada
que a abriga no chão

em dia de tempestade
um anjo sem asas
pede ao peixe do rio
que navegue no mar

30/09/2013

morte

Se a morte é presente, fala-lhe do nosso acaso
Se insistir, convida-a a pernoitar em nossa casa
Que descanse, está em casa de boa gente
Pede-lhe paciência, explica-lhe o nosso atraso
Quantas manchas existem numa parede branca?

Deita agora comigo que sinto frio.

promessa

Desfilámos na avenida | e eu gritei contigo | fascismo nunca mais | roubei-te um beijo | segredei na tua boca | o povo unido jamais será vencido | chorei o acaso | amei-te na derrota | que a esperança não era morta | nem a vida, alheia | na despedida prometi | resistir

No poder reina a ganancia
Uma gralha ri de ti
Prometes e desistes
Rumba la rumba la rumba la

Deixaste a vontade dormir
Tal a preguiça de existir
Prometes e desistes
Rumba la rumba la rumba la

Abre as asas e dança
Ama sem pudor
Rumba la rumba la rumba la
Prometemos resistir

cego

Deus e o Diabo brincam
com a surpresa do cego
quem viu a morte, sabe
que ela avisa a visita
distraído vive o povo
que morre de novo

22/09/2013

insónia

Deito-me às duas e acordo às cinco. Abro a primeira gaveta da cómoda e retiro as fotografias que foram para lá atiradas ao acaso. Na primeira foto estou ao colo da minha mãe, na seguinte estou com a minha filha ao colo. Sento-me na cama com uma foto em cada mão.
Sou de ontem e nada sei…
Antes do desfecho, existe o pesar. Nada aprendi com os meus pais, nada ensinei aos meus filhos. Pecadora, amei sem nunca dar conta do quanto odiei.
Sou de ontem e nada sei…
Coloco no chão a foto da minha mãe alinhada à cabeceira da minha cama. Dou quatro passos e coloco a foto da minha filha, alinhada ao meu ventre, se estivesse deitada na cama. Não há fotos que se alinhem com os meus pés, nem que preencham o resto do meu corpo.
Onde mora o intervalo da minha existência?
Sou de ontem e nada sei…
Tiro a gaveta da cómoda e jogo as fotos no chão. Umas caiem de costas. Haverá vida quando caímos com a cara colada ao chão? Deixo que a memória se reconstrua no puzzle que desenhei no chão. A minha mão direita treme, a esquerda sustenta meu corpo. Fecho os olhos e tiro uma foto. Abro os olhos. No chão entre a primeira e a última fotografia, vive a natureza do que fui.
Uma dezena de fotos e apareço em duas: a primeira e a última.
O meu passado sequer é uma sombra.
Sou de ontem e nada sei…

(esta dor que parece fazer morada permanente em mim, fala-me de um povo sem memória, diz-me como se fosse uma ladainha que ele é como a lapa que se agarra à rocha. por dentro mole.)

21/09/2013

miguel

Com um sorriso nos lábios comentava que se adaptara lentamente aos ataques de tosse que eram cada vez mais frequentes. Sabia que o mais provável seria morrer num deles, por isso entendeu por bem ganhar intimidade com a enfermidade. Uma gargalhada sonora ou um pranto incontido, poderiam desencadear uma crise e abreviar o seu tempo de vida.

Durante anos desafiou a morte, roubando a si mesmo vida e agora procurava a eternidade antes de sufocar.
Visitei-o há menos de um mês. Estivemos sentados um em frente ao outro, calados. A nossa amizade sempre foi silenciosa. Nossos lábios selados contavam histórias. Nosso corpo morno e suado, confirmava-as. Sagrado encontro que dispensava a palavra.
Uma chuva miúda anunciava o inverno. Miguel começou a tossir. Levantei-me para acudi-lo, mas a sua mão direita disse-me que não.
Fui para a janela, fugindo da presença perversa daquela doença. Silêncio, de novo.
Voltei para a poltrona. O nosso olhar a dizer pesar. Uma parte de nós sabia onde morava o desconforto, outra temia por ele. Cruzei meus braços, abracei-me como se meu corpo fosse ele. Foi à estante, tirou um livro e deu-me.
- Abre e lê ao acaso
Fechei os olhos, deixei que as páginas dançassem na ponta dos meus dedos. O acaso tem caso com o Diabo. Abri os olhos e li:

Grande diálogo será esse contigo
quando de todo recolheres
a linha dos meus dias
e eu for varar na tua face
com o meu cumprido olho de peixe
Aceita eu ser uma só palavra
e  nela  todo  dizer-me
Talvez então eu  sinta
no compromisso do olhar
que já te conhecia e nenhuma outra praia
para o meu  coração  via
Mas eras ou não eras pescador
grande demais para dois olhos
que só a tua ausência enchia?
Recebe no teu mar senhor
meu íntimo destino de algas e de escamas
(Ruy  Belo In Aquele Grande Rio Eufrates)

A minha voz sumia...
- Tem calma. Inspira e quando soltares o ar, lê. Fecha os olhos e sente o poema. Basta-te o poema.
A mim basta-me sentir-te quando te ouço. Ele será teu e a tua voz minha. A nossa travessia..

Olhei em redor. Da janela o sol anunciava a despedida e uma luz vermelha pousava na face direita, de Miguel, enquanto a outra permanecia quieta na sombra. Estávamos no seu escritório. O mesmo que fora de seu pai. Todas as paredes repletas de livros. Duas poltronas bordeaux e uma secretária onde repousava o computador compunham o resto da sala.
Arrumei o naperon, cor de mel, da minha poltrona.
- Levanta-te, Rosa.

Durante anos, as nossas tardes de quarta-feira, eram assim. Miguel descobria um texto, sorria e punha-me a ler. Antes da leitura, eram as nossas brincadeiras. Bella Ciao e roubava-me um beijo. Abraçados rodopiávamos em passos pequenos, até que o corpo pedisse trégua.
- Dá-me água que tenho sede, Miguel.
Olhava-me de cima e gargalhava.
- Vem buscá-la…
Voltava a correr pela sala até que eu esgotada abandonava-me no chão.
- Miguel…

- Rosa?
Desperto do passado. Meu amigo está cansado e pede-me de novo que leia ‘Escatologia’.
Sem pressa, repouso em cada palavra. Sinto o meu coração e fecho os olhos.

Talvez então eu  sinta
no compromisso do olhar
que já te conhecia e nenhuma outra praia
para o meu coração via

Chorámos de mansinho, quase em silêncio.

Mas eras ou não eras pescador
grande demais para dois olhos
que só a tua ausência enchia?

- A minha vida escapa-se leviana e parece ter pressa, Rosa.
- Ainda é vida, Miguel.
- Onde foi que errámos, Rosa?

Sento-me aos seus pés e encosto a minha cabeça nos seus joelhos.

Ta, tata, ta, tata, tatatata…
- De onde vem a música, querido?
Sem resposta, faço como Miguel e deixo-me dormir.
Passa das dez, quando acordo sobressaltada com um choro surdo, ferido. Aurora, irmã de Miguel, abraça o meu amigo que partiu enquanto eu dormia.

Recebe no teu mar senhor
meu íntimo destino de algas e de escamas.

Onde foi que errámos, Miguel?
Na rua habitam famílias,
nelas a fome é companheira
Em cada esquina
a miséria é aliada do frio
Dizem que os tijolos são dos ricos
e o céu dos pobres
Por isso a liberdade nasce
e morre nas favelas
Bendito sejas
não seres testemunha
deste epílogo.
Desilusão que nos assiste.

despedida

Belo é o verão quando se despede
e delicado cumprimenta o outono 
Encontro sublime de quem parte e chega
Sopro que celebra a vida

Hoje, meu amor, queria te falar 
da natureza das folhas verdes até serem castanhas
da onda tímida que se multiplica na tempestade
e das aves que nos habitam a lembrar-nos as asas da liberdade

Tenho meu coração a dizer-te de novo adeus
e o mundo a ficar pequeno, inteiro dentro de mim
Hoje, meu amor, queria que ficasses, só mais um instante
e ouvisses comigo o canto do rouxinol

Belo, tão belo foi este verão que agora parte contigo

Da nossa janela vemos o chão forrado de folhas amarelas
Na árvore elas agora dançam ao sabor do vento
Um gato mia e foge do cão que é passeado pelo dono
O mar vem roubando a areia e avisando tormenta

Tenho meu coração do tamanho
da saudade que o alimenta
Doce partida que nunca se despede
No beijo, um abraço que sente o tempo

Belo, tão belo será o outono no teu corpo moreno

poesia

há dias em que o poema | parece uma partitura | sustem-se | no tempo de cada pausa | desenha a harmonia | e o compasso | a cada passo | da vida | descansa no peito | e por aí adormece | até ao fim

dor

À dor que agora te visita
mostra o teu sorriso
que, quando segura
te confessará
o motivo da estadia
deixa que em seguida
ganhe asas e parta
afinal ela não é tua
nem te jurou fidelidade.

festa

Quando se contorna a esquina dos 80 anos

Depois de  apagar as velas, na comemoração do seu 80º aniversário, diz:
- A morte não me vence. Vou viver mais cem anos. Sou bicho que renasce a cada século.
- Viveste na Grécia?
- Fui Platão
- E no Brasil ?
- Fui negro e escravo. Fiz um filho à menina herdeira da fazenda.
- E agora, quem és?
- Teu pai.
- E depois?
- Quem sabe do futuro?

Este é o meu pai. Nasceu em Lisboa, fez-me nascer no Brasil. Até o ano de 1964, vivemos em São Paulo. Com o golpe militar mudámo-nos para Fortaleza.
Antes, aconteceu uma editora de livros infantis, Giroflé, fundada com amigos. Fernando Lemos e Sidónio Muralha, entre os que na época acreditavam que a arte podia estar ao alcance de todas crianças. Pobres e ricas.

Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré, marré, marré.
Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré deci.
Eu sou rica, rica, rica,
De marré, marré, marré.
Eu sou rica, rica, rica,
De marré deci. (...)

Um dia chegou em casa com uma dúzia de discos. Histórias infantis e canções de roda. Ensinou-me a colocá-los no toca-discos, no meu universo infantil - vitrola. A agulha tinha um braço e como um passe de mágica, se estivesse na rotação certa, um grupo de vozes ocupava a sala.

Esta rua, esta rua tem um bosque..

Era uma vez uma orfã pobre, que de tão pobre e bonita casou-se com um príncipe. A miséria é recompensada. Queria ser a Cinderela, tenho pés pequenos como ela. Não transformei o sapo com o meu beijo, nem tive tranças longas para ser salva.

Em surdina, um grupo de homens planeava roubar a democracia. Conseguiram.
Papeis e livros queimados na banheira. Sussurros sobre amigos desaparecidos. Medo e pesar a compor a realidade.
Abraçou a baiana que trabalhava em casa.
- Toma conta deles…
Num DCW velho, viajou durante uma semana acompanhado de um amigo, numa época em que as estradas no Brasil, quase não existiam. Destino - Fortaleza.
Passados 15 dias chegou um postal a São Paulo. Estávamos na cozinha a almoçar e nossa mãe leu-nos em voz alta. Em breve estaríamos todos juntos de novo, menos a nossa Nair que ficava em São Paulo, porque a mudança a assustava.
A minha baiana negra de cabelo carapinha que aos sábados era esticado com um pente que parecia um ferro.
- Para onde você vai, Nair?
- Dançar..
Um fim de semana a suar a vida no salão. No fogão, o seu vatapá encantava as reuniões. Na panela, camarão seco, amor e muita cachaça, faziam a receita do sucesso.
Um avião que se demora para além da hora. Uma paragem forçada. Minha mãe e meus dois irmãos pequenos numa longa viagem para uma terra desconhecida a nordeste. Noite quente. Abraços e beijos.
Uma casa em frente a praia, num bairro de pescadores. Uma casa quase em ruínas, com dois coqueiros na parte da frente. Morcegos a voarem pelo teto. Uma cobra verde, verde e fina, em vez da água, quando se abria a torneira.
Uma manhã de angústia. Minha mãe assustada e meu pai feliz.
- Trouxe areia da praia, para as crianças brincarem.
Minha mãe em silêncio.
- Lá atrás, tem um quintal onde eles podem andar de bicicleta.
Minha mãe balbuciava o choque.
Em menos de 24 horas, a nossa vida mudou.
Uma única escola, tão diferente da outra onde eu tinha amado viver. Em São Paulo, uma escola de judeus progressistas. Em Fortaleza uma escola protestante que saudava a América. A escola foi informada que não estávamos autorizados a estudar religião. O mundo ganhava um novo contorno.

Em 1965 na nossa vitrola o Show Opinião, dirigido por Augusto Boal e produzido pelo Teatro de Arena. No palco Nara Leão, João do Vale e Zé Kéti.

A meio do disco, a Marcha de Quarta-Feira de Cinzas de Vinicius de Moraes:

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais
Brincando feliz

Meu irmão andava nos troncos dos coqueiros e subia como se fosse fácil a caminhada.

O fascismo tirou a cor do encanto, abafou o coração, mas dentro de peito a esperança reina contra a evidência.
Alguns anos depois, uma passagem por São Paulo, na minha adolescência, foi o intervalo de espera até ao 25 de Abril. Vingada a raiva, os olhos choram de alegria e a vida se confirma.
Meu pai regressa a Lisboa, conosco. O cravo vermelho é nosso.
Em 1984, faço parte de um milhão e meio de pessoas que estão na rua, em São Paulo, lutando pela democracia.

O cravo que tinha ficado rosa em Lisboa, é vermelho em cada face na rua, uma homenagem à vida, contra os fascistas que semearam a morte.

(...)
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida
Feliz a cantar (...)

Que volte a Portugal, e ganhe história.

tão parte de mim

parte que vejo 
tão parte de mim
reconheço

palhaço que chora
enquanto faz rir
medo disfarçado
armado, com baioneta
hospede suicida 
que anuncia a vida

parte, tão parte
das partes que fazem
de mim, um esboço

trapezista sem rede
anciã na despedida
da noite vencida

parte, tão parte de mim
ainda

entre

Entre o que sinto
e existe
Escrevo o que julgo 
ver

Fugaz e belo
é o momento
que vejo e sinto
a vida sem coreografia

isto e aquilo

Fecho meus olhos | deixo-me ir | rodopio e caio | sou isto e aquilo | enrolo meus braços | em vários abraços | ponto final | é aqui que respiro | entre o claro e o escuro | existo

esperança

desenhei uma oração, sem sujeito nem predicado, feita de sons entrecortados, feito o amor que trago sufocado no peito, na esperança que o teu beijo me cale.

26/08/2013

Medo


a coragem de ver | nasce por dentro | não inventa a cor do mar







Atende o medo
o desejo de fuga
equívoco continuado
que define o amor
como pecado
ganha a desistência
o nome de renúncia
paralisa a vontade
engana a vida
enquanto
a abelha rainha
é fecundada
sem castigo
ou culpa
suicida-se o macho
na aranha do linho
faz da amada
viúva negra
tem a vida morte certa
no intervalo - vida


07/07/2013

gosto

gosto do teu abraço
gosto do teu sorriso
gosto quando lês em voz alta
gosto quando falas de história
gosto quando me dás a ler 
gosto quando me levas ao cinema
gosto quando te irritas
gosto quando me dizes não
gosto de ver o tejo contigo
gosto do que não gosto 
gosto da tua impaciência
gosto da tua generosidade
gosto da tua resistência
gosto da tua janela florida
gosto dos teus livros espalhados
gosto da tua musica
gosto da tua mão nos meus ombros
gosto do teu beijo na minha testa
gosto de ti assim
como és

06/07/2013

lagartos ao sol

Um grupo de restaurantes vazios decoram a praia urbana. Uma família numerosa de prédios com varandas fechadas e parques de campismos com roulotes instaladas há anos completam o cenário.
As mercearias concorrem derrotadas com os mini-mercados. 
Um casal cuja faixa etária parece-se com a minha, pergunta:
- Os bancos estão abertos aos sábados?
Responde o merceeiro
- Só em Paris...
Na Costa da Caparica, há brasileiros e portugueses, velhos e jovens, brancos e pretos, gordos e magros e gordos de novo. Um hamburguer ao modo Mc Donald's custa menos de 2€.
A caminho da praia encontro Rosa com a família. Chapéus de sol, sacos com comida e bebidas tornam a bagagem do fato de banho pesada.
É com esforço que damos um abraço, as nossas mochilas atrapalham. Resignadas sorrimos.
- Como estás? Há tempo tempo! Não envelheces...
- Nem tu!
Ambas sabemos que mentimos. Do meu lado intactas restam as sardas, do lado de Rosa, os mesmos ombros magros contrastam agora com a gordura acumulada nas ancas.
- Mas como estás?
- Desempregada...
- Mas fora isto, está tudo bem?
...
O nosso olhar vagueia. Pede um mergulho. O mar está povoado de banhistas como se fossem peixes - na rede boa presa.

Na areia - lagartos ao sol.

04/07/2013

desejo

redondo, quase sem forma, viaja do pescoço ao dorso
ganha ânimo na despedida, quando no ventre faz ninho
roubando ao tempo o que tempo não dá
é assim o desejo que teimoso regressa
tempestade serena que a vontade alimenta
euforia que se escapa, foge e acorda
até que com ele a morte case.