19/06/2010

Coisas de todos os dias. Limpar a casa

As prateleiras escuras não ajudam a disfarçar as camadas de poeira que devagar se instalam. Não sei dizer se o ritmo é diário. Faz uma semana que acordo cansada. Sento-me junto à mesa da sala. Se meu olhar descansar no chão vejo o pó a pairar quase no ar. Inverto a viagem e tento o tecto, mas a cervical queixa-se da postura inadequada. Uma vassoura, uma pá, em seguida um balde encharcado de detergente e uma esfregona deixariam no ar o cheiro de uma casa asseada.

Faz uma semana que acordo cansada. Saio de casa apressada, tanta coisa a limpar do lado de fora!
Na rua uma casca de banana perdida. Curvo-me para apanhá-la e coloco-a no lixo.

A dona Albertina deve estar a chegar. Vai deixar a minha casa toda limpa. Se eu não estivesse assim tão cansada...

Coisas de todos os dias. Carro do lixo

Onze da noite, o carro do lixo não me deixa dormir. Vivesse eu no campo e ouviria o som que amedronta a cidade. O vento calmo nas folhas das árvores, o canto dos pássaros quando anoitece. E se a chuva ameaça, um gemido quase silencioso ocupa o espaço.
Caixote de lixo aberto é caixote liberto do entulho diário. O cheiro se espalha, corre em cada esquina pedindo juízo ao viajante distraído. Quem está na cama não abre a janela. Cerra as mãos no nariz e espera que o cheiro passe.
Conto até dez, inspiro, expiro e volto a contar. Revejo meu corpo da cabeça aos pés. Nessa viagem silenciosa por fim adormeço.
Amanhã é domingo. Descansa o lixo em cada casa.

05/06/2010

Houve um tempo
sem hora marcada
sem dia nem noite
um tempo sem tempo
com tempo de ser

Abracei teu peito
beijei-te sem medo
e o sol nasceu cedo
dando conta do tempo

Muda a hora
o dia se prolonga na noite
roubando cada manhã

Nasço e morro num dia
Antes bato as asas
Voo e viajo

Tão doce é o presente
Tempo de sempre
Tão tempo de ser