28/07/2006


A NGC-1427A viaja a 600 km/s na direção da constelação da Fornalha para a sua destruição, espalhadando-se então em millhares de estrelas.
A dor por vezes é tão bonita!


Luis Severo escreve assim:
Ideias Soltas

Desconcertantes

Viveres Concretos
Reconfortantes

Viver deve ser tudo isto
Vales, Montanhas e água

Viver é um imprevistod
e Sentimentos de Alegrias
e de Mágoa

27/07/2006

"A única realidade da vida é a sensação. A única realidade em arte é a consciência da sensação." (Fernando Pessoa)


- Pai o que achas dos arquétipos?
- Não penso nisso. Deixo que eles tomem conta de mim
- Deixo então que venha a mim aquele que mil braços abraçou o mundo? Em cada braço o amor sentido como se um instante multiplicasse a eternidade do ser?
- Sente apenas
- Devagar, muito devagar levantei as mãos que tinha pousada nos joelhos. Num ângulo sabido, sentido inventei cada abraço. Toquei o vazio porque no vazio me vi.
- Não te preocupes se veio fora ou de dentro. Sente
- Depois pai, fui à procura de entender porque vivi. Quando fores outro onde te encontro? Na hora da despedida, na hora em que todos partimos …
- “não sou nada/ nunca serei nada/ não posso querer ser nada/ à parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo”
- Em cada abraço que agora te dou, abraço todos no nada que somos. Pai, pai são mil os degraus para subir e chegar ao topo do universo – neste calor?
- sou Pessoa revisitado: "Quer pouco: terás tudo/ Quer nada: serás livre."

24/07/2006

Ressacada da pneumonia fujo do sol com medo da recaída. Fujo do vento- pode uma corrente distraída roubar-me o ar.
Nesse jogo de esconde-esconde visto um lenço. Duas voltas pelo pescoço e escondo o sorriso. Sou Maria Madalena. Mais Madalena que Maria. Trago no corpo protegido a vontade de amar.
- E Maria?
- Ressuscita feito Jesus
- Transformista?
- Como tu quando te descobres a poente


Me invento Madalena enquanto vou sendo Maria - assim sendo vou-me inventando

18/07/2006


- mas e o fim começou na sé? qual fim? qual sé?
- trocadilhos da mente que as vezes se escapam


Na Sé foram as nossas juras de amor – eterno. Debaixo da cruz entreguei-me fazendo jus ao pecado. Abri as pernas e tuchoravas a dor que se adivinhava. Enquanto te decidias se me amavas despi meus seios e semeie meu leite na tua boca feito a Virgem Maria.
Na Sé foi o fim do amor desencontrado no acto. Enquanto te vinhas eu gritava: PARTO!
A viúva chorava a morte tardia do marido embuchado. O cego cantava numa ladainha riscada: -Senhora dá-me teu leite que também tenho sede.
E o orgasmo? O que é feito dele?
Miragem do passado. PARTO

- mas e o fim começou na sé? qual fim? qual sé?
- trocadilhos da mente que as vezes se escapam




Doutor reserve para mim um lugar!
Encontre um canto silencioso – verde de preferência.
Um dois por quatro – tenho um fetiche com os pares.
Rodeie o meu espaço de gente que rime com presente.
Invente a semente – sem mente

Se eu tiver de o escalar
Arranje um helicóptero – estou tão cansada!
Se for no fundo do mar
Coloque um par de pedras nos meus pés – que me ajuda afundar
Entretanto


Invente a semente – sem mente
Quero gente a fazer meu presente
Nesse canto que o senhor vai me reservar

Me diga Doutor quanto custa afinal
Esta passagem?
Que eu não conheço vocação
Que me leve a outra paragem

para além do silêncio - o fim


Soube a tristeza a nossa sobremesa. No prato a partida repetida! Tantas vezes -e eu que nunca acerto em que hora ela chega.
É verdade que pressinto, verdade que até a vejo despedir-se, mas nunca descubro o motivo do adeus.
Quando o nosso olhar deixa de olhar – então é porque um de nós já partiu. Quando te toco nas mãos e a resposta é ausência de vida – então é porque já me deste adeus e eu não dei por isso.
Como se rebobina este filme? Moço, moço rode o filme para duas semanas atrás! Lá naquele instante em que o mocinho sorria e não sentia medo de nada.
Moço pare aí – estacione essa imagem que gosto tanto dela. Depois não quero ver mais nada. Depois é o começo do fim – esse que eu conheço tão bem.
Remoo a memória…
Moço procure por mim uma cena – preste atenção – o mocinho bonito avisa que não quer cobradores de bilhetes da vida. Acho que foi aí quando o bonito deixou de ser tão bonito que as coisas acabaram. Mais uma vez.
Pare a imagem moço não me mostre novamente quando começa o fim.

Hoje não há bonecos que ilustrem a minha tristeza

16/07/2006



Um abraço?
Não, não. É a promessa de um beijo

Não! Isto é uma luta de boxe...

Na fronteira do Paraguai
Comprei


O abraço?
Ups...
Qual?

Polícia! Chamem a políiiiiicia

Let's take a minute ... Zazen

13/07/2006


qual é a cor da dor da partida

chove granizo. chove pedra
como resposta



Um dia construo um caleidoscópio e viajo

Cleo chega no seu jeito acostumado. Devagar, apressada - gata manhosa com a garra afiada. Dá-me um beijo. Leva sua mão direita ao estômago. Ofegante diz:
- Ana já sei onde dói a dor do amor. Aqui Ana - bem no meio do estômago. Hoje quando o vi partir – é uma dor que não se esconde. Desavergonhada se faz visitada. Olha, dá-me a tua mão esquerda. Sentes?
- Não
Agitada Cleo insiste. Leva minha mão esquerda ao seu ventre. Com sua mão direita aconchega a minha..
- Olha para mim Ana
Desvio a face das mãos de Cleo. Meu olhar nos olhos de Cleo segura o segundo. Cleo leva sua mão esquerda a meu ventre. Aconchego sua mão com a minha direita. Sorridente Cleo segreda: - É esta a dor que sinto quando meu amor diz adeus
-Azul, vermelho, verde, amarelo, carmim, cobalto, mostarda, estrela alaranjada, a flor de lótus imaginada. Viajo no espaço. O céu é azul? Invento outra cor quando sinto o que sinto agora. Rodo devagar – como se sustentasse o tempo no movimento da minha mão. No intervalo o azul vira amarelo, a dor - o prazer saciado. Inverto a trajectória – perdi a imagem tão nítida outrora. Torno a rodar. Perdi o amarelo!
- Do que falas Ana?
- A tua dor é igual ao meu caleidoscópio. Não sentes amiga, o movimento da cor da partida? Não ouves o lamento das cordas – no limite da escala?
Cleo retira suas mãos. Desfaz nosso abraço. Abre os braços, levanta a cabeça ao céu e grita: - Oh tu! Pois tu mesmo diz-me qual é a cor da dor da partida?
Chove granizo, chove pedra como resposta.
- Dói Ana! Vamos embora? Temos de largar estas roupas molhadas.
- Olha Cleo! Lá ao fundo vês o arco-íris?
Assim parte Cleo no seu jeito acostumado. Gata manhosa com a garra afiada. Um dia construo um caleidoscópio e viajo.

10/07/2006


Bom bom Dia
- Respira antes que tropeces na palavra. ..
- hmfffffffffffff
- Agora inspira. Nesta pausa reflecte. Encontra um sinónimo
- Mas e o... aquele... sabes? O, o ... gaita! Estou tão esquecida!
- Com pressa apressas a conversa. Atropelas o acto de estar.
Inspiro. Respiro. Antes de expirar - a pausa pedida. Por fim largo:
- Quando sugeres presente, cantas assim: pre, pre pre-sente! Será que é mesmo assim? Um milésimo antes de sentir? Inspira e canta-me outra …

06/07/2006





-Vou a rua do Carmo fazer um intervalo. Suspender o tempo. Se houver flores prefiro comprar um cravo encarnado. Visto um fraque emprestado – amarelo. Assim faço um quadro. Vermelho e amarelo é o cheiro deste tempo que paro. Não canto o hino da pátria amada – deixo isso a quem ficou de fora do círculo por mim desenhado. Na rua do Carmo invento o cravo – um prelúdio improvisado. Assim é o tempo do tempo que paro – um intervalo.

- Não preferes a rosa amarela? Rima com Florbela…
- Não. Deixa que a pausa invente o poente. Faz do silêncio teu presente. Toma um café que se faz tarde…
- Pois. É tarde.
- O Tito sem pito inventa o apito… Casa comigo. Dou-te um par de netos alfacinhas ..
- Bebeste?
- No meu ventre nasce o ocaso. Vou parir na Costa Rica
- Bebeste?
- Uma rosa amarela? A combinar com Florbela? Vera – rima com primavera? Parte com arte?
- O que tens?
- Queres outro café? Dou-te Sol. Queres partir dou-te Ré. Mas Mas se quiseres somente continuar a estar dou-te a pausa prometida. Essa mesma. Inspira, suspende, abandona a palavra que te prende.
- ?
- Dás-me um intervalo?

02/07/2006


No ocaso do tempo - perdido
escapo ao acaso - um suspiro esquecido
findo o finito - do tempo marcado

nasce o presente

embriagado impulso no encontro da morte
miragem de uma paz tão desejada
que arte me espelha se na arte me mato
- a cada suspiro

no acto me parto - sempre presente

abre meu corpo na despedida

retira de lá a dor - faz dela cinza
manda ao inferno - faz-te presente

na despedida conta a história
das vidas vividas
canta um verso sem rima

inventa tu o fim - ao acaso